O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou nesta quinta-feira (10) o sigilo da investigação que apura um possível esquema de desvio de recursos públicos envolvendo entidades ligadas à produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A divulgação dos documentos revelou novos elementos reunidos pela Polícia Federal, entre eles movimentações milionárias, empresas suspeitas de serem usadas como fachada, repasses realizados durante o período de gravação do longa e transferências diretamente para a produtora Go Up Entertainment.
A investigação também atingiu o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do filme. Dino proibiu Frias, a produtora Karina Gama e outros investigados de deixar o País sem autorização judicial e de manter contato entre si.
A operação, batizada de Make Up, investiga suspeitas de crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os fatos ainda estão sob investigação e não há condenação dos envolvidos.
PF vê coincidência entre movimentações e gravações do filme
Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores é a proximidade entre movimentações financeiras e o período de produção de “Dark Horse”.
As gravações ocorreram entre outubro e dezembro de 2025. No mesmo período, a Go Up Entertainment movimentou aproximadamente R$ 19 milhões, segundo documentos analisados pela Polícia Federal.
A PF tenta descobrir se recursos originalmente destinados a projetos financiados com emendas parlamentares chegaram, direta ou indiretamente, à produtora.
Os investigadores identificaram uma cadeia de pagamentos envolvendo o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, que também é proprietária da Go Up Entertainment.
Investigação aponta possível “circuito fechado”
A PF suspeita que recursos públicos possam ter circulado entre entidades e empresas relacionadas antes de chegar a outros destinatários.
Os investigadores trabalham com a hipótese de que pagamentos tenham sido propositalmente fragmentados, dificultando a identificação da origem e do destino final dos valores.
Segundo a investigação, organizações beneficiadas por verbas públicas contratavam empresas que, posteriormente, transferiam dinheiro para outras integrantes da mesma rede.
É esse caminho financeiro que a Polícia Federal tenta reconstruir.
R$ 8,5 milhões chegaram a empresa ligada a firmas consideradas de fachada
Outro elemento revelado pela investigação envolve o repasse de cerca de R$ 8,5 milhões por uma organização ligada à produção de “Dark Horse” para uma empresa que, posteriormente, abasteceu financeiramente companhias consideradas suspeitas pela PF.
Entre essas empresas estavam firmas registradas em nome de pessoas com perfis profissionais aparentemente incompatíveis com as movimentações realizadas, incluindo uma cuidadora de idosos e um servente de obras.
Para a Polícia Federal, essas circunstâncias levantam a suspeita de utilização de “laranjas” e empresas de fachada para pulverizar recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro.
A apuração tenta verificar se os serviços declarados efetivamente existiram e qual foi o destino final dos valores.
Mario Frias aparece no centro da investigação
Mario Frias é uma das figuras centrais da apuração porque, além de atuar como roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”, destinou emendas parlamentares para entidades comandadas por Karina Gama.
O Instituto Conhecer Brasil recebeu indicações de recursos feitas pelo parlamentar para projetos nas áreas de educação e esporte.
A Polícia Federal também identificou transferências pessoais de Frias diretamente para a Go Up Entertainment. Os investigadores buscam esclarecer a origem e a finalidade dessas movimentações.
Frias nega que dinheiro público tenha financiado o filme e afirma que suas emendas foram destinadas exclusivamente aos projetos para os quais foram apresentadas.
Bia Kicis e Marcos Pollon também fizeram indicações
Outros parlamentares bolsonaristas aparecem nos documentos por terem indicado emendas para organizações relacionadas a Karina Gama.
Entre eles estão Bia Kicis e Marcos Pollon. Os recursos, no entanto, não chegaram a ser pagos nos casos destacados pela investigação.
Bia Kicis afirmou que sua indicação tinha finalidade cultural e educativa e não possuía relação com “Dark Horse”.
Pollon também declarou que o projeto inicialmente beneficiado por sua indicação não cumpriu os requisitos necessários e que o dinheiro acabou redirecionado.
A simples indicação das emendas não significa participação dos parlamentares no suposto esquema investigado.
Ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro transferiu R$ 1 milhão à produtora
A investigação identificou ainda uma transferência de R$ 1 milhão para a Go Up Entertainment feita por Marcello de Oliveira Lopes, conhecido como Marcelão, ex-marqueteiro ligado a Flávio Bolsonaro.
A Polícia Federal busca esclarecer a origem e a finalidade desse dinheiro.
O nome de Marcello já havia aparecido no caso depois da divulgação de um áudio envolvendo discussões sobre recursos destinados à produção cinematográfica.
Dino impõe restrições a Mario Frias
Além de autorizar as buscas e retirar o sigilo dos autos, Flávio Dino determinou medidas cautelares contra os investigados.
Mario Frias foi proibido de deixar o Brasil sem autorização judicial e de manter contato com outros alvos da investigação.
A mesma restrição foi aplicada a outros investigados.
As medidas foram justificadas pelo ministro como necessárias para preservar a investigação e evitar interferências na produção de provas.
Duas investigações cercam o financiamento de ‘Dark Horse’
Atualmente, o financiamento de “Dark Horse” aparece em duas frentes distintas de investigação no STF.
A primeira, sob relatoria de Flávio Dino, apura a possível utilização irregular de recursos públicos, especialmente emendas parlamentares e contratos envolvendo organizações ligadas à produtora.
A segunda, sob responsabilidade de André Mendonça, investiga a origem e o destino de recursos privados relacionados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Nesta semana, Mendonça homologou a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, apontado como operador financeiro ligado a Vorcaro.
Segundo o colaborador, sete transferências foram realizadas para um fundo no exterior relacionado ao financiamento de “Dark Horse”. Os repasses somariam US$ 12,333 milhões, cerca de R$ 63 milhões pela cotação do período.
As declarações do delator ainda precisam ser comprovadas por outras evidências.
Investigação tenta descobrir para onde foi o dinheiro
Com a retirada do sigilo, fica mais claro que o principal objetivo da Polícia Federal é reconstruir toda a cadeia financeira relacionada às entidades e empresas investigadas.
A PF procura saber de onde os recursos saíram, por quais organizações passaram, quem recebeu os pagamentos e qual foi o destino final do dinheiro.
Os investigadores agora cruzam dados bancários, contratos, notas fiscais, prestações de contas e materiais apreendidos na operação.
O ponto central será descobrir se as conexões identificadas entre emendas parlamentares, entidades, fornecedores e a produtora de “Dark Horse” correspondem a operações comerciais regulares ou se confirmam a suspeita de uma estrutura criada para desviar, fragmentar e ocultar recursos públicos.

