O cientista político Paulo Roberto de Souza avaliou que as decisões recentes do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ampliam a crise institucional e podem produzir efeitos diretos sobre a campanha eleitoral de 2026. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele afirmou que o magistrado está fazendo uma “aposta muito alta” ao levar para o centro da disputa política o embate envolvendo a Polícia Federal, o Banco Master e integrantes da própria Suprema Corte.
A análise foi feita após Mendonça determinar, nesta terça-feira (8), o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. O ministro justificou a medida alegando ter sido alvo de um “monitoramento sistemático e ilegal” por meio de relatórios de inteligência produzidos pela PF. A decisão foi tomada a pedido do partido Novo e ainda está em disputa dentro do próprio Supremo.
Para Paulo Roberto de Souza, o episódio deixa de ser apenas uma divergência jurídica quando ocorre em pleno período eleitoral e envolve instituições centrais do Estado.
Analista fala em judicialização da campanha
Na avaliação do cientista político, a escalada da crise tende a fazer com que temas ligados ao Judiciário e às investigações do Banco Master ocupem espaço cada vez maior na campanha presidencial.
Segundo ele, Mendonça estaria contribuindo para transformar “toda a campanha eleitoral em uma questão judicializada”. A avaliação parte do entendimento de que decisões tomadas agora podem alterar a relação entre o governo, a Polícia Federal, o Supremo e os grupos políticos que disputam a Presidência.
O especialista também relaciona o cenário ao futuro da composição do STF. Caso Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial, observa Souza, poderá fazer novas indicações para a Corte durante um eventual mandato, ampliando a influência de ministros escolhidos por governos ligados ao bolsonarismo.
Essa interpretação é uma avaliação política do entrevistado, e não uma conclusão jurídica sobre as decisões de Mendonça.
Crise começou com relatórios sobre Banco Master
O atual confronto dentro do STF ganhou força depois que Mendonça retirou o sigilo de um relatório relacionado à Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master. O material reunia mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e atribuídas a interlocuções com o ministro Alexandre de Moraes.
Moraes negou ter mantido os contatos atribuídos a ele.
Posteriormente, Moraes utilizou relatórios de inteligência da Polícia Federal para apontar possíveis irregularidades cometidas por Mendonça na condução de investigações sobre o Master e fraudes no INSS. Entre as suspeitas levantadas estavam possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e favorecimento político. As acusações ainda não foram julgadas.
Mendonça reagiu afirmando que esses documentos demonstrariam que ele vinha sendo monitorado pela inteligência da PF há mais de 30 dias. Ao afastar Andrei e Almada, classificou a situação como grave e determinou a abertura de apurações para identificar quem ordenou e produziu os relatórios.
Especialista vê disputa política além do STF
Paulo Roberto de Souza avalia que a crise também está sendo explorada eleitoralmente por setores da direita e da extrema direita.
Segundo ele, figuras do campo bolsonarista têm utilizado o embate institucional para reforçar um discurso antissistema e, ao mesmo tempo, tentar associar o escândalo do Banco Master ao governo Lula.
O cientista político ressalta que, até o momento, não existe prova que atribua ao presidente Lula responsabilidade pelas irregularidades investigadas no caso. Para Souza, existe uma estratégia discursiva para transformar as investigações em elemento de desgaste eleitoral.
Na avaliação do pesquisador, o risco de tensão aumenta não apenas diante da possibilidade de vitória da extrema direita, mas também caso esse campo político seja derrotado nas urnas.
Governo reage ao afastamento de Andrei
A decisão de Mendonça provocou reação imediata do governo federal. A Advocacia-Geral da União pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a suspensão do afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
A AGU argumenta que a medida interfere em uma prerrogativa do presidente da República relacionada ao comando da Polícia Federal e pode comprometer o funcionamento da instituição. O órgão também sustenta que Fachin já havia assumido a condução das questões relacionadas aos relatórios da PF antes da decisão de Mendonça.
Fachin deu prazo de 72 horas para que Mendonça se manifeste sobre o recurso apresentado pela AGU.
Segunda Turma também analisa afastamento
Mendonça submeteu sua decisão ao referendo da Segunda Turma do Supremo.
O colegiado chegou a formar maioria favorável à manutenção do afastamento, mas o julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Enquanto a análise não é concluída, a decisão de Mendonça permanece válida.
Com Andrei afastado, o diretor-executivo William Marcel Murad assumiu temporariamente o comando da Polícia Federal. Durante evento realizado poucas horas depois da decisão, Murad manifestou confiança pública no diretor-geral afastado e afirmou que a instituição deve reagir a tentativas de usurpação de suas funções.
Cientista político prevê aumento da tensão
Para Paulo Roberto de Souza, o conflito tende a se aprofundar nos próximos meses e exigir uma reação política mais direta do governo Lula.
Na análise apresentada ao Brasil de Fato, a disputa já teria ultrapassado os limites de um conflito interno do Judiciário e passado a envolver a própria autoridade do Executivo e o processo eleitoral.
O cientista político também relaciona a crise ao ambiente de contestação das instituições democráticas observado no País nos últimos anos. Na visão dele, uma parcela relevante da sociedade continua mobilizada por discursos de ruptura institucional, o que torna o cenário de 2026 particularmente sensível.
A avaliação é do especialista entrevistado e representa uma interpretação política sobre os acontecimentos. No plano jurídico, continuam em aberto tanto a validade do afastamento da direção da PF quanto as acusações cruzadas envolvendo Mendonça, Moraes e os relatórios produzidos pela Polícia Federal.
Com informações da Revista Brasil de Fato

