Os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2018 e 2025, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde. A alta acompanha a expansão das apostas online no Brasil e reforça a preocupação das autoridades sanitárias com os efeitos das chamadas bets sobre a saúde mental, a vida financeira e as relações familiares dos apostadores.
A projeção do Ministério da Saúde indica que, mantida a tendência atual, a demanda por atendimento relacionada ao problema poderá crescer mais 104% até 2028.
O aumento ocorre em diferentes pontos da Rede de Atenção Psicossocial, envolvendo desde Unidades Básicas de Saúde (UBS) até os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e serviços especializados.
O chamado transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo. Ele se caracteriza pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, profissionais, familiares ou emocionais.
Problema vai além da perda de dinheiro
Os impactos das apostas não se limitam às dívidas.
Segundo o Ministério da Saúde, o uso problemático das plataformas pode estar associado a ansiedade, depressão, alterações no sono e no humor, isolamento social, conflitos familiares, perda de controle e dificuldades no trabalho ou nos estudos. Também pode ocorrer aumento no consumo de álcool e outras drogas.
As próprias características das plataformas digitais podem contribuir para a repetição das apostas. Sites e aplicativos funcionam durante 24 horas e utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e sistemas de recompensas variáveis para estimular a permanência dos usuários.
O Ministério alerta que apostar por mais tempo do que o planejado, gastar valores superiores ao limite estabelecido, esconder apostas de familiares ou comprometer despesas essenciais podem ser sinais de que a prática deixou de ser apenas recreativa.
Mais de 10 milhões apresentavam padrão de jogo de risco
Dados apresentados pelo Governo Federal dimensionam a quantidade de pessoas potencialmente expostas ao problema.
Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam realizado algum tipo de aposta nos 12 meses anteriores. Desse total, cerca de 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
O risco não é distribuído igualmente pela população.
Segundo o Ministério da Saúde, pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica apresentam risco três vezes maior de desenvolver dependência relacionada ao jogo.
Entre quem utiliza modalidades de aposta online, o risco é 150% maior.
O cenário preocupa especialmente porque perdas financeiras podem comprometer despesas básicas das famílias e ampliar quadros de sofrimento emocional já existentes.
Custo associado à saúde é estimado em R$ 30,6 bilhões ao ano
Além das consequências individuais, os impactos das apostas também aparecem nos custos sociais e de saúde pública.
Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos de aposta no Brasil.
Desse montante, aproximadamente R$ 30,6 bilhões, ou quase 79%, estão relacionados à saúde. O cálculo considera fatores como tratamentos médicos, perda de qualidade de vida associada à depressão e mortes por suicídio.
A estimativa não significa que R$ 30,6 bilhões sejam gastos diretamente pelo SUS em consultas e medicamentos. O cálculo inclui impactos econômicos mais amplos associados aos danos à saúde provocados pelo jogo.
Transtorno do jogo está associado a maior risco de suicídio
Um dos dados mais preocupantes citados pelo Ministério da Saúde envolve pessoas que desenvolvem transtorno do jogo.
Segundo informações da Organização Mundial da Saúde apresentadas pela pasta, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo em comparação com a população geral.
Dificuldades financeiras aparecem entre os fatores fortemente associados ao risco.
Isso não significa que todas as pessoas que apostam desenvolverão transtorno ou apresentarão comportamento suicida. O risco está concentrado especialmente entre aqueles que perdem o controle sobre o jogo e acumulam prejuízos emocionais, financeiros e sociais.
Apostas já atingem adolescentes
Outro dado que chama atenção é a exposição precoce.
Pesquisa citada pelo Ministério da Saúde aponta que 20,4% dos estudantes ouvidos em escolas públicas e privadas já fizeram apostas online.
O primeiro contato pode ocorrer a partir dos 11 anos, apesar de apostas serem proibidas para menores de 18 anos.
Entre os meninos que cursam o terceiro ano do ensino médio, o percentual dos que já apostaram chega a 49,7%, segundo os dados apresentados pela pasta.
A facilidade de acesso pelos celulares, a publicidade e a associação das bets com esportes e influenciadores são fatores que ampliaram a preocupação de profissionais de saúde com crianças e adolescentes.
Mulheres também sofrem impactos
O Ministério da Saúde também apresentou dados específicos sobre mulheres.
Entre aquelas que apostam ou já apostaram, 65% disseram não ter procurado ajuda por vergonha.
Mesmo entre mulheres que não apostam, 12% relataram impactos provocados pelas apostas realizadas por familiares, mostrando que as consequências podem ultrapassar a pessoa diretamente envolvida com o jogo.
Dívidas, conflitos conjugais, perda de patrimônio e comprometimento do orçamento familiar aparecem entre os problemas associados à dependência.
Mais de 1 milhão de pessoas já pediram bloqueio de apostas
A procura por ferramentas de proteção também cresceu.
Mais de 1 milhão de brasileiros já solicitaram a autoexclusão das plataformas de apostas autorizadas, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em agosto.
Entre essas pessoas, 35% apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo para bloquear o próprio CPF.
Outros motivos incluem:
- decisão voluntária de interromper as apostas: 15,26%;
- dificuldades financeiras: 11,82%;
- recomendação de profissional de saúde: 1,32%.
Somente durante o período da Copa do Mundo, entre 11 de junho e 19 de julho, 387.645 pessoas solicitaram a autoexclusão, o equivalente a 38% de todos os bloqueios registrados até então.
A ferramenta bloqueia simultaneamente as contas mantidas em empresas autorizadas, impede a criação de novos cadastros com aquele CPF e interrompe a publicidade direcionada ao usuário.
SUS ampliou atendimento especializado
Diante do aumento da procura, o SUS também ampliou os serviços destinados especificamente às pessoas com problemas relacionados ao jogo.
Desde agosto, o Meu SUS Digital passou a ter capacidade para realizar até 100 mil teleatendimentos por mês voltados a apostadores e familiares que enfrentam consequências relacionadas às apostas.
O atendimento é remoto, gratuito e sigiloso.
O serviço funciona como uma das portas de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial.
Quem preferir atendimento presencial também pode procurar uma Unidade Básica de Saúde. Após a avaliação inicial, o paciente pode ser encaminhado para um Caps, caso necessite de acompanhamento especializado em saúde mental.
Como identificar sinais de problema com apostas
O Ministério da Saúde recomenda atenção a mudanças de comportamento que podem indicar perda de controle.
Entre os sinais estão apostar valores maiores ou durante mais tempo do que o planejado, tentar recuperar imediatamente dinheiro perdido, esconder ou mentir sobre as apostas, comprometer contas e despesas básicas e continuar jogando mesmo depois de prejuízos significativos.
Também merece atenção o uso das apostas como forma de fugir de sentimentos de tristeza, ansiedade, estresse ou frustração.
Outro sinal é quando a pessoa tenta repetidamente diminuir ou interromper a atividade e não consegue.
Governo decidiu proibir as bets
Os números sobre saúde pública foram divulgados no mesmo período em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) editou uma Medida Provisória para proibir a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no País.
A MP foi publicada em 25 de setembro e abrange apostas esportivas e jogos online. Segundo o cronograma anunciado pelo Governo Federal, as plataformas autorizadas devem deixar de funcionar a partir de 6 de outubro.
A medida também estabelece procedimentos para a devolução de valores mantidos nas contas dos apostadores.
O governo apresentou os impactos sobre a saúde mental como uma das justificativas para a decisão. O setor de apostas e outros segmentos econômicos afetados pela proibição contestam a medida e apontam impactos sobre arrecadação, patrocínios e mercado publicitário.
Governo também prepara combate às plataformas ilegais
A proibição das empresas autorizadas não encerra automaticamente o mercado clandestino.
Por isso, o Governo Federal anunciou que Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça e Anatel intensificarão o bloqueio de sites ilegais e dos meios de pagamento utilizados por essas plataformas.
A Medida Provisória criou ainda um comitê destinado a coordenar a fiscalização e o combate à exploração ilegal das apostas.
Paralelamente, o Executivo encaminhou proposta para tipificar criminalmente condutas relacionadas à operação clandestina do setor.
Entre as propostas está pena de quatro a seis anos de prisão para exploração ilegal de apostas de quota fixa, além de punições para divulgação, captação de apostadores e facilitação financeira.
Saúde passou a tratar apostas como problema de saúde pública
Nos últimos meses, o Ministério da Saúde intensificou campanhas para deixar de tratar as consequências das apostas apenas como questão financeira e passar a enquadrá-las também como um problema de saúde pública.
Em julho, a pasta lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas online, com informações sobre sinais de risco e formas de acessar atendimento pelo SUS.
O próprio Ministério ressalta que nem toda pessoa que aposta desenvolverá dependência. O problema surge quando a atividade começa a comprometer a capacidade de controle, as finanças, a saúde ou os relacionamentos.
A alta de 140% nos atendimentos do SUS entre 2018 e 2025, a estimativa de R$ 30,6 bilhões em impactos anuais associados à saúde e o número superior a 1 milhão de pessoas que já recorreram ao bloqueio voluntário das plataformas mostram, porém, que os efeitos do crescimento das apostas já ultrapassam o campo do entretenimento e passaram a ocupar espaço relevante nas políticas brasileiras de saúde mental.
Onde buscar ajuda
Pessoas que percebam perda de controle sobre apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
Também é possível buscar orientação pela Ouvidoria-Geral do SUS, no telefone 136, ou acessar os serviços de teleatendimento e avaliação disponíveis no Meu SUS Digital.
A orientação dos profissionais de saúde é evitar tratar a dependência como simples falta de força de vontade. O transtorno do jogo é uma condição de saúde reconhecida e pode exigir acompanhamento profissional.

