Um dos episódios de maior repercussão envolvendo intolerância religiosa na televisão brasileira voltou a circular nas redes sociais em meio à atual controvérsia política sobre Nossa Senhora Aparecida. As imagens mostram o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Sérgio Von Helder chutando e dando socos em uma representação da Padroeira do Brasil durante um programa da TV Record.
Apesar de voltar a ganhar repercussão em 2026, o episódio não é recente. Ele ocorreu em 12 de outubro de 1995, justamente no Dia de Nossa Senhora Aparecida, durante os programas religiosos Despertar da Fé e Palavra de Vida.
Na transmissão, Von Helder atacava o que classificava como idolatria no culto católico aos santos e afirmava que a imagem não possuía qualquer poder religioso.
Durante a pregação, chegou a dar diversos golpes na representação de Nossa Senhora e utilizou termos ofensivos para se referir a ela. A Folha de S.Paulo registrou, no dia seguinte, que ele chamou a imagem de um “boneco” e usou os adjetivos “feio”, “horrível” e “desgraçado”.
Episódio ficou conhecido como “chute na santa”
A cena provocou forte repercussão nacional e ficou conhecida como o “chute na santa”.
A transmissão ocorreu no feriado nacional de 12 de outubro, data consagrada a Nossa Senhora Aparecida, e despertou reação de católicos, representantes de outras religiões e diferentes setores da sociedade.
Nos dias seguintes, igrejas organizaram missas e atos de desagravo em diferentes cidades. Em Campinas, por exemplo, milhares de fiéis participaram de celebrações em resposta ao episódio.
A repercussão também levou a própria Igreja Universal a tomar providências contra Von Helder.
Universal afastou bispo após repercussão
Menos de uma semana depois do episódio, a direção da Igreja Universal decidiu afastar Sérgio Von Helder de suas funções de liderança em São Paulo e transferi-lo.
Segundo reportagem publicada pela Folha na época, setores da direção da igreja consideraram que a atitude havia exposto negativamente a instituição e defendiam uma postura menos confrontadora em relação a outras religiões.
O fundador da Universal, Edir Macedo, também fez um pedido público de desculpas.
Von Helder chegou a planejar uma manifestação pessoal, mas desistiu naquele momento. Segundo registros da época, dirigentes da própria Universal reconheciam internamente que a atitude havia sido equivocada.
Caso chegou à Justiça
O episódio também teve consequências judiciais.
Em abril de 1997, Sérgio Von Helder foi condenado em primeira instância a dois anos e dois meses de prisão, por discriminação religiosa e vilipêndio de imagem religiosa. Como era réu primário, recebeu o direito de recorrer em liberdade.
O processo teve desdobramentos posteriores. Registros sobre o caso indicam novas decisões judiciais relacionadas à acusação de incitação à discriminação religiosa, enquanto parte das condenações sofreu alterações em instâncias posteriores.
O episódio permanece citado em estudos sobre intolerância religiosa e sobre as transformações do campo religioso brasileiro nas últimas décadas.
Por que o vídeo voltou a circular agora?
As imagens de 1995 ganharam nova repercussão durante a campanha presidencial de 2026, depois da circulação de publicações relacionando o candidato Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Essa afirmação específica sobre Flávio é falsa: não há proposta apresentada por ele com esse objetivo. A campanha acionou a Justiça Eleitoral contra perfis que divulgaram o conteúdo.
A Revista Fórum, em artigo de opinião de Antonio Mello, recuperou o episódio de 1995 no contexto dessa discussão. O texto contrapõe a desinformação atual à existência histórica de conflitos reais envolvendo setores religiosos e a devoção católica a Nossa Senhora Aparecida. Essa comparação corresponde à argumentação do articulista, e não demonstra que Flávio tenha defendido a retirada do título.
Antigo projeto também alimentou controvérsia
Parte da confusão atual tem origem em um projeto apresentado no Congresso em 2007, por outro parlamentar, que propunha modificar a forma como Nossa Senhora Aparecida era definida na legislação.
A iniciativa não foi apresentada por Flávio Bolsonaro e acabou arquivada.
Nas redes sociais, referências ao projeto antigo passaram a ser combinadas com declarações religiosas recentes de Flávio, gerando a falsa impressão de que o atual candidato teria apresentado ou defendido a proposta.
A campanha do senador passou então a classificar o conteúdo como fake news e pediu investigação sobre sua disseminação.
CNBB entrou na polêmica
O caso ganhou uma nova dimensão quando Flávio Bolsonaro afirmou que pessoas ligadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) teriam ajudado o PT a disseminar a informação falsa.
O candidato não apresentou publicamente provas da participação da entidade.
A CNBB respondeu oficialmente, negando ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas à eleição. A Conferência afirmou ainda que “a mentira não se combate com outra mentira”.
A disputa, portanto, passou a envolver tanto a origem do conteúdo falso quanto os limites entre discurso político, liberdade de expressão e combate à desinformação.
Dino e Mendonça divergem sobre retirada de publicações
A controvérsia também chegou ao Judiciário.
O ministro André Mendonça, no Tribunal Superior Eleitoral, determinou a retirada de publicações que associavam Flávio Bolsonaro à suposta proposta contra Nossa Senhora Aparecida.
Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, reverteu uma das determinações e autorizou o restabelecimento de uma publicação do humorista Antonio Tabet.
A decisão de Dino não tornou verdadeira a alegação contra Flávio. O ministro entendeu que conteúdos que não atribuem diretamente ao candidato a proposta falsa não devem ser automaticamente enquadrados na mesma ordem de remoção.
Nossa Senhora Aparecida continua oficialmente Padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida continua reconhecida oficialmente pela legislação brasileira como Padroeira do Brasil.
A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, estabelece o dia 12 de outubro como feriado nacional dedicado a Nossa Senhora Aparecida e utiliza expressamente o título de Padroeira do Brasil.
Não houve alteração dessa legislação.
Católicos ainda são maioria no Brasil
A repercussão política do tema também está ligada à dimensão da população católica no País.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE, aproximadamente 100,2 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais se declararam católicos, o equivalente a 56,7% desse grupo populacional.
Os evangélicos somavam cerca de 47,4 milhões de pessoas, representando 26,9% da população de 10 anos ou mais.
Embora o percentual de católicos tenha diminuído ao longo das últimas décadas e o de evangélicos tenha aumentado, o catolicismo continua sendo a religião declarada pelo maior contingente da população brasileira.
Vídeo histórico não comprova acusação atual
O retorno das imagens de Sérgio Von Helder às redes sociais exige, portanto, uma distinção importante.
É fato que um líder da Igreja Universal chutou e insultou publicamente uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional em 1995. O episódio foi registrado pela imprensa da época, provocou reação da própria Universal e chegou à Justiça.
Também é fato que, historicamente, existem divergências teológicas entre denominações protestantes e a Igreja Católica sobre a veneração de santos e o uso de imagens religiosas.
Isso, entretanto, não comprova a informação específica que circulou em 2026 de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Não há proposta conhecida do candidato nesse sentido.
O vídeo de 1995 ajuda a compreender o contexto histórico e religioso que faz com que o tema tenha forte repercussão entre católicos, mas não deve ser apresentado como prova de uma proposta eleitoral atual.
Trinta e um anos depois, o chamado “chute na santa” volta ao debate público justamente porque Nossa Senhora Aparecida continua ocupando um lugar de grande peso religioso, cultural e simbólico no Brasil — e porque, em plena reta final da eleição presidencial, religião e política voltaram a se cruzar no centro da disputa pública.

