O Ceará tem o maior percentual do Brasil de estudantes dos anos finais do ensino fundamental matriculados em tempo integral na rede pública. Ao todo, 74,9% dos alunos cearenses do 6º ao 9º ano permanecem pelo menos 35 horas semanais em atividades escolares, colocando o Estado na liderança nacional desse indicador.
Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro da Educação Básica, publicado pelo Todos Pela Educação, e mostram que praticamente três em cada quatro estudantes cearenses dessa etapa da rede pública já estão inseridos em uma jornada ampliada de ensino.
O levantamento considera como tempo integral não apenas os estudantes que frequentam dois turnos de aulas regulares, mas também aqueles que cumprem a base curricular em um período e participam de atividades complementares no contraturno, como reforço escolar, práticas esportivas, cultura e outras ações pedagógicas.
Pela legislação federal, são consideradas matrículas em tempo integral aquelas em que o estudante permanece na escola ou em atividades escolares por sete horas diárias ou, no mínimo, 35 horas por semana durante o período letivo.
Ceará também lidera quando redes pública e privada são consideradas
Mesmo quando as matrículas das redes pública e particular são analisadas em conjunto, o Ceará continua com o maior percentual do País.
Nesse recorte, 61,9% dos estudantes cearenses do 6º ao 9º ano estão no ensino em tempo integral, índice que mantém o Estado à frente das demais unidades da Federação.
A diferença entre as redes, porém, é significativa.
Enquanto 74,9% dos estudantes da rede pública estão em tempo integral, apenas 1,5% dos alunos da rede privada cearense dessa faixa escolar permanecem sete horas ou mais por dia em atividades escolares.
O percentual coloca o Ceará entre os dez estados com menor proporção de estudantes em tempo integral no ensino particular, mostrando que o resultado estadual é puxado principalmente pelas políticas desenvolvidas na rede pública.
Tempo integral vai além de aumentar número de horas na escola
Especialistas destacam que educação em tempo integral não deve significar apenas prolongar a permanência do estudante dentro da instituição.
A proposta envolve a ampliação das oportunidades de aprendizagem, com disciplinas tradicionais combinadas a atividades esportivas, culturais, eletivas, projetos de vida, acompanhamento pedagógico e maior convivência entre alunos e educadores.
Segundo Manoela Miranda, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, a modalidade permite desenvolver dimensões acadêmicas, emocionais e sociais dos estudantes.
A lógica é oferecer uma jornada diversificada, e não simplesmente reproduzir durante sete ou nove horas o mesmo modelo de aulas aplicado em uma jornada regular.
País tem mais de 10 milhões de estudantes em tempo integral
A expansão desse modelo ocorre em todo o Brasil.
Dados do Censo Escolar 2025 mostram que o País tinha 46 milhões de matrículas na educação básica, das quais 10,1 milhões eram de estudantes matriculados em tempo integral.
O ensino fundamental continua sendo a maior etapa da educação básica brasileira, com aproximadamente 25,8 milhões de matrículas.
Nesse cenário nacional de ampliação da jornada escolar, o Ceará se destaca principalmente nos anos finais do ensino fundamental, justamente uma fase considerada decisiva para a consolidação de competências em português, matemática e outras áreas antes da chegada ao ensino médio.
Modelo pode contribuir para reduzir abandono escolar
A ampliação do tempo integral é associada por pesquisas educacionais a resultados como maior permanência dos estudantes na escola, redução da evasão e ampliação das oportunidades de aprendizagem.
Além do conteúdo curricular, a oferta de atividades complementares pode aumentar o vínculo dos adolescentes com a escola, especialmente quando eles conseguem escolher disciplinas eletivas ou participar de projetos ligados a seus próprios interesses.
A modalidade também pode proporcionar maior contato com professores, acesso a esporte e cultura e acompanhamento pedagógico mais próximo.
Especialistas ressaltam, contudo, que os resultados dependem da qualidade do projeto educacional. Apenas aumentar a quantidade de horas sem reorganizar currículo, infraestrutura e práticas pedagógicas não garante automaticamente melhora no aprendizado.
Ceará ainda enfrenta desafio na conectividade das escolas
Apesar da liderança no tempo integral, o Anuário também revela dificuldades importantes na educação cearense.
Uma delas é a qualidade da conexão à internet nas escolas públicas.
Somente 51,7% das escolas públicas do Ceará atingem o nível considerado mais adequado de conectividade, com velocidade suficiente e rede Wi-Fi apropriada.
O resultado é o terceiro menor percentual do Brasil, ficando à frente apenas do Amapá, com 43,8%, e de Roraima, com 49,1%.
Outros 31,5% dos estabelecimentos cearenses estão classificados no nível dois, caracterizado por velocidade e rede Wi-Fi inadequadas.
Mais 16% têm velocidade adequada, mas cobertura de Wi-Fi insuficiente.
Os demais estabelecimentos aparecem em níveis ainda mais baixos de conectividade.
Tecnologia precisa ser integrada ao projeto pedagógico
A melhoria da infraestrutura digital tornou-se uma das principais demandas para o avanço da educação básica.
A Estratégia Nacional Escolas Conectadas, criada pelo Governo Federal em 2023, prevê a universalização do acesso adequado à internet nas escolas de educação básica.
Mas especialistas apontam que disponibilizar conexão é apenas uma das etapas.
Também é necessário formar professores e integrar recursos digitais ao planejamento pedagógico, evitando que computadores, tablets e outras ferramentas sejam utilizados sem objetivos educacionais definidos.
Para o Todos Pela Educação, o desafio passa por identificar onde a internet ainda não chega adequadamente, ampliar a infraestrutura e garantir que o uso da tecnologia seja acompanhado pelos educadores.
Aprendizagem cai na passagem para o ensino médio
O Anuário também chama atenção para outro desafio: a dificuldade de manter níveis adequados de aprendizagem conforme os estudantes avançam na trajetória escolar.
Ao final do 9º ano, 33,4% dos estudantes cearenses apresentam aprendizagem considerada adequada em matemática.
Em língua portuguesa, o percentual é de 51,2%.
No ensino médio, entretanto, esses índices diminuem consideravelmente.
Entre os estudantes que concluem essa etapa, apenas 13,6% apresentam aprendizagem adequada em matemática e 39,7% em língua portuguesa.
Ou seja, apesar dos avanços registrados em indicadores de acesso e ampliação da jornada escolar, permanece o desafio de garantir que o tempo adicional na escola seja acompanhado de aprendizagem efetiva ao longo de toda a educação básica.
Mais da metade dos concluintes do ensino médio têm aprendizagem abaixo do básico em matemática
O problema fica ainda mais evidente quando são analisados os estudantes classificados abaixo do nível básico.
No 9º ano, 22,2% dos alunos cearenses apresentam desempenho abaixo do básico em matemática, enquanto 11,9% estão nessa situação em língua portuguesa.
Ao final do ensino médio, os percentuais sobem para 52,5% em matemática e 28,7% em português.
Isso significa que mais da metade dos estudantes que terminam o ensino médio no Estado ainda apresentam dificuldades em competências matemáticas consideradas essenciais para essa etapa.
Base do ensino fundamental é decisiva
Segundo Manoela Miranda, parte dessa queda está relacionada à falta de consolidação de conhecimentos fundamentais nas etapas anteriores.
Quando um estudante chega ao ensino médio sem domínio suficiente de interpretação de texto, operações matemáticas básicas ou raciocínio lógico, passa a enfrentar conteúdos progressivamente mais complexos sem a base necessária.
A consequência pode aparecer tanto nos indicadores de aprendizagem quanto no interesse e na permanência do aluno na escola.
Nesse aspecto, a expansão do tempo integral no ensino fundamental pode oferecer mais oportunidades para reforço, acompanhamento individualizado e recuperação de dificuldades antes da entrada no ensino médio.
Liderança nacional mostra expansão da jornada escolar no Ceará
O percentual de 74,9% dos alunos da rede pública do 6º ao 9º ano matriculados em tempo integral coloca o Ceará em uma posição de destaque nacional na expansão da jornada escolar.
A liderança mostra que o modelo deixou de alcançar apenas uma parcela restrita dos estudantes e passou a atender a maior parte dos adolescentes dessa etapa no Estado.
Ao mesmo tempo, os demais indicadores do Anuário mostram que a ampliação da carga horária precisa caminhar ao lado de outros desafios: melhorar a conectividade, consolidar a aprendizagem básica e evitar a queda acentuada de desempenho observada na passagem do ensino fundamental para o ensino médio.
O cenário, portanto, reúne um avanço expressivo na ampliação do tempo escolar com desafios relacionados à qualidade da aprendizagem e à infraestrutura. Ainda assim, nenhum outro estado brasileiro tem atualmente uma proporção tão elevada de estudantes da rede pública do 6º ao 9º ano estudando em tempo integral quanto o Ceará.

