A morte do cantor Rick, da dupla Rick & Renner, aos 59 anos, após a queda de um helicóptero na Serra Catarinense nesta segunda-feira (21), voltou a trazer à memória outras tragédias aéreas que interromperam carreiras de artistas, esportistas, jornalistas e personalidades brasileiras e internacionais.
O helicóptero em que Rick viajava foi encontrado nesta terça-feira (22), em uma área de difícil acesso de Santa Catarina. As cinco pessoas que estavam a bordo morreram. As causas do acidente ainda estão sendo investigadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Ao longo das últimas décadas, acidentes envolvendo aviões e helicópteros provocaram algumas das mortes que mais comoveram o público. Entre elas estão as de Marília Mendonça, Gabriel Diniz, Kobe Bryant, Ricardo Boechat, Leila Diniz, Eduardo Campos, Ulysses Guimarães e dos integrantes dos Mamonas Assassinas e da Chapecoense.
Rick
O cantor sertanejo Geraldo Antônio de Carvalho, conhecido como Rick, morreu após o helicóptero Bell 430 em que viajava desaparecer durante um trajeto entre Porto Belo e São Joaquim, em Santa Catarina.
A aeronave perdeu contato na segunda-feira (21). Após uma operação que mobilizou bombeiros, cães de busca, drones e apoio da Força Aérea Brasileira, os destroços foram encontrados na manhã seguinte na Serra Catarinense. Nenhum dos cinco ocupantes sobreviveu.
Também estavam na aeronave o empresário Bruno Avelar e o videomaker Paulo Soares, além dos tripulantes.
Rick estava em turnê com Renner para celebrar os 40 anos da dupla. O último show ocorreu dois dias antes do acidente, em Sorriso, no Mato Grosso. As condições meteorológicas eram adversas em partes de Santa Catarina no dia do desaparecimento, mas ainda não há conclusão de que o tempo tenha provocado o acidente.
Marília Mendonça
A cantora Marília Mendonça morreu aos 26 anos, em 5 de novembro de 2021, quando o avião em que viajava caiu em Piedade de Caratinga, Minas Gerais.
A artista havia saído de Goiânia para cumprir uma agenda de shows em Caratinga. Pouco antes da queda, chegou a publicar nas redes sociais imagens do embarque.
Além de Marília, morreram o produtor Henrique Ribeiro, o assessor e tio da cantora Abicieli Silveira Dias Filho, além do piloto Geraldo Martins de Medeiros Júnior e do copiloto Tarciso Pessoa Viana.
Durante a aproximação para o pouso, a aeronave colidiu com uma linha de distribuição de energia antes de cair.
O relatório final do Cenipa apontou como um dos fatores contribuintes uma “avaliação inadequada” dos parâmetros da operação durante a aproximação, incluindo o prolongamento da trajetória em relação ao esperado. A investigação não identificou falha mecânica que explicasse a queda.
Marília estava no auge da carreira e havia se tornado um dos maiores nomes do sertanejo brasileiro. Vencedora do Grammy Latino, ficou conhecida por sucessos como “Infiel”, “Eu Sei de Cor” e “Supera”.
Gabriel Diniz
Outra morte que provocou grande repercussão no meio musical foi a de Gabriel Diniz, aos 28 anos.
O cantor, que vivia o auge do sucesso de “Jenifer”, morreu em 27 de maio de 2019 quando o avião em que viajava caiu em uma região de mangue no município de Estância, em Sergipe.
Gabriel seguia de Salvador para Maceió, onde pretendia encontrar a namorada, Karoline Calheiros, e familiares. Os pilotos Linaldo Xavier e Abraão Farias também morreram.
O relatório do Cenipa apontou uma combinação de fatores, entre eles condições meteorológicas adversas, atitude do piloto e indisciplina de voo. Segundo a investigação, o piloto responsável pela condução da aeronave tomou decisões inadequadas diante das condições enfrentadas durante o percurso.
Kobe Bryant
Em 26 de janeiro de 2020, o mundo do esporte perdeu um de seus maiores nomes.
O ex-jogador de basquete Kobe Bryant, de 41 anos, morreu na queda de um helicóptero Sikorsky S-76B em Calabasas, na Califórnia.
A filha dele, Gianna Bryant, de 13 anos, também estava no helicóptero. Ao todo, nove pessoas morreram.
Kobe e os demais passageiros seguiam para uma atividade esportiva quando a aeronave entrou em uma região de baixa visibilidade.
A investigação do National Transportation Safety Board (NTSB) concluiu que o piloto decidiu continuar o voo visual em condições meteorológicas que exigiam navegação por instrumentos. Ele sofreu desorientação espacial e perdeu o controle da aeronave.
O NTSB também apontou como fatores contribuintes a pressão que o próprio piloto teria colocado sobre si para continuar o voo e a tendência de manter o plano inicial apesar da deterioração das condições meteorológicas.
Bryant passou 20 temporadas no Los Angeles Lakers e conquistou cinco títulos da NBA, tornando-se um dos jogadores mais conhecidos da história do basquete.
Mamonas Assassinas
Uma das tragédias aéreas mais marcantes da música brasileira ocorreu na noite de 2 de março de 1996.
Os cinco integrantes dos Mamonas Assassinas — Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec — morreram quando o jato em que viajavam atingiu a Serra da Cantareira, na Grande São Paulo.
O grupo retornava de um show em Brasília e estava a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Além dos músicos, morreram os demais ocupantes da aeronave, incluindo integrantes da equipe e os pilotos.
Os Mamonas haviam alcançado sucesso nacional em um período extremamente curto. Com apenas um álbum de estúdio, venderam milhões de discos e emplacaram músicas como “Pelados em Santos”, “Vira-Vira”, “Robocop Gay” e “Sabão Crá-Crá”.
O acidente ocorreu durante uma sequência de procedimentos de aproximação ao aeroporto. A aeronave acabou chocando-se contra a serra durante uma manobra noturna.
Ricardo Boechat
O jornalista Ricardo Boechat morreu aos 66 anos, em 11 de fevereiro de 2019, após a queda de um helicóptero em São Paulo.
A aeronave transportava Boechat de Campinas para a capital paulista quando caiu nas proximidades do quilômetro 7 da Rodovia Anhanguera, atingindo um caminhão. O jornalista e o piloto Ronaldo Quattrucci morreram.
O caminhoneiro conseguiu sair do veículo.
Na época, Boechat apresentava diariamente o Jornal da Band e o programa matinal da BandNews FM. Também mantinha coluna na revista IstoÉ e havia construído uma das carreiras mais reconhecidas do jornalismo brasileiro.
O Cenipa abriu investigação após o acidente. A Anac informou, na ocasião, que o helicóptero estava autorizado para determinados serviços aéreos especializados, mas não para operação como táxi-aéreo.
Leila Diniz
A atriz Leila Diniz morreu aos 27 anos em 14 de junho de 1972, em um acidente com o voo 471 da Japan Airlines, próximo a Nova Délhi, na Índia.
Leila retornava de uma viagem à Austrália quando o avião caiu durante a aproximação para pouso.
O desastre matou 82 das 87 pessoas que estavam a bordo, além de quatro pessoas em solo.
A atriz era uma das personalidades mais conhecidas da cultura brasileira naquele período e havia se tornado símbolo de mudanças comportamentais e da liberdade feminina.
Ela deixou uma filha, Janaína, então com poucos meses de vida.
Embora a reportagem original mencione 1971, registros históricos apontam que o acidente ocorreu em 14 de junho de 1972.
Eduardo Campos
O então candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) morreu aos 49 anos em 13 de agosto de 2014, durante a campanha eleitoral.
O avião Cessna Citation 560XLS+ em que viajava caiu em uma área residencial de Santos, no litoral de São Paulo. As sete pessoas que estavam a bordo morreram.
Além de Campos, estavam na aeronave integrantes de sua equipe de campanha e os dois pilotos.
O voo havia partido do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Durante a aproximação ao destino, a tripulação encontrou condições meteorológicas desfavoráveis, realizou uma arremetida e, posteriormente, a aeronave perdeu o controle antes de atingir o solo.
O relatório do Cenipa apontou entre os fatores que contribuíram para o acidente aspectos ligados à qualificação e treinamento da tripulação, planejamento do voo, condições meteorológicas e execução de uma trajetória diferente da prevista durante a aproximação.
Campos havia sido governador de Pernambuco e disputava a Presidência naquele ano. Após sua morte, Marina Silva assumiu a candidatura presidencial da chapa.
Tragédia da Chapecoense
Na noite de 28 de novembro de 2016, o avião que transportava a delegação da Chapecoense para a Colômbia caiu quando se aproximava de Medellín.
O clube viajava para disputar contra o Atlético Nacional a primeira partida da final da Copa Sul-Americana.
O voo LaMia 2933 transportava 77 pessoas. Setenta e uma morreram e seis sobreviveram.
Entre os passageiros estavam jogadores, integrantes da comissão técnica, dirigentes e jornalistas.
Os sobreviventes foram os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Hélio Neto, o jornalista Rafael Henzel e os tripulantes Ximena Suárez e Erwin Tumiri. Henzel morreu posteriormente, em 2019, após sofrer um infarto.
A investigação colombiana concluiu que a aeronave iniciou o voo sem combustível suficiente para realizar o trajeto dentro das margens de segurança exigidas. Na aproximação a Medellín, o avião sofreu pane seca antes de atingir uma região montanhosa.
A tragédia provocou uma mobilização internacional. O Atlético Nacional pediu que a Chapecoense fosse declarada campeã da Copa Sul-Americana, título posteriormente concedido pela Conmebol.
Ulysses Guimarães
Um dos principais personagens da redemocratização brasileira, o então deputado federal Ulysses Guimarães morreu em 12 de outubro de 1992, quando o helicóptero em que viajava caiu no mar próximo ao litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo.
A aeronave havia partido da região de Angra dos Reis com destino a São Paulo.
Também morreram no acidente a mulher de Ulysses, Mora Guimarães; o ex-senador Severo Gomes; Henriqueta Gomes, mulher de Severo; e o piloto Jorge Comeratto.
Equipes realizaram buscas no mar após a queda. Os corpos de parte dos ocupantes foram encontrados, mas o de Ulysses Guimarães nunca foi localizado.
Ulysses havia presidido a Assembleia Nacional Constituinte responsável pela Constituição de 1988 e ficou conhecido pela atuação no processo de redemocratização.
Acidentes que marcaram diferentes gerações
Embora tenham ocorrido em épocas, países e circunstâncias muito diferentes, essas tragédias provocaram repercussão justamente porque interromperam trajetórias de personalidades com forte presença pública.
Em vários casos, as investigações técnicas demoraram meses ou anos para apontar os fatores que contribuíram para os acidentes. O trabalho de órgãos como o Cenipa, no Brasil, e o NTSB, nos Estados Unidos, não tem como finalidade estabelecer culpa criminal, mas identificar fatores de risco e produzir recomendações capazes de reduzir a possibilidade de novos acidentes.
A morte de Rick, nesta semana, acrescenta mais um episódio a essa lista. No caso do cantor sertanejo, porém, a investigação ainda está em fase inicial e nenhuma causa foi oficialmente estabelecida.

