O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, afirmou em delação premiada que movimentava grandes quantias de dinheiro a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Entre as operações relatadas estão transferências de cerca de R$ 63 milhões para um fundo ligado ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro, obtenção de dinheiro em espécie transportado em malas e pagamentos realizados no exterior por meio de uma empresa nas Bahamas.
O acordo de colaboração foi homologado nesta quarta-feira (9) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A delação está sob sigilo e as informações apresentadas pelo empresário ainda precisam ser confrontadas com outras provas pelas autoridades.
Sete transferências para fundo nos Estados Unidos
Mineiro relatou ter realizado sete transferências para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos e utilizado na estrutura financeira de “Dark Horse”.
As operações teriam ocorrido entre janeiro e setembro de 2025 e somado US$ 12,333 milhões, aproximadamente R$ 63 milhões pela cotação da época. Segundo o relato, os pagamentos eram realizados pela Entre Investimentos e Participações, empresa de Freixo, a pedido de Vorcaro.
O empresário entregou aos investigadores comprovantes das transferências e comunicações relacionadas às operações.
De acordo com a delação, a previsão inicial era de um investimento de aproximadamente US$ 24 milhões, dividido em mais de dez aportes. Apenas sete teriam sido efetivamente realizados.
O Havengate era responsável por administrar recursos destinados à produção do filme e encaminhá-los à Go Up Entertainment, produtora do longa. O fundo tem entre seus responsáveis Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga se todo o dinheiro transferido foi efetivamente aplicado na produção cinematográfica ou se parte teve outra destinação. Eduardo Bolsonaro nega ter recebido recursos.
Delator diz que conseguia dinheiro vivo para Vorcaro
Outro ponto da colaboração trata da movimentação de grandes quantidades de dinheiro em espécie.
Segundo pessoas que tiveram acesso ao conteúdo da delação, Mineiro se apresenta como uma espécie de operador financeiro de Vorcaro. Ele afirmou que, ao longo da relação entre os dois, passou a receber pedidos para realizar operações que classificou como “não ortodoxas”.
Entre elas estavam remessas sem lastro e a obtenção de grandes volumes de dinheiro vivo. Devido à quantidade, segundo o relato, os valores chegavam a ser transportados em malas.
A delação também menciona supostos pagamentos de propina, mas parte dos nomes e detalhes permanece sob sigilo. As declarações do colaborador, isoladamente, não representam prova definitiva dos crimes relatados e deverão ser confirmadas por meio de documentos, perícias, movimentações financeiras e outras diligências.
Empresa nas Bahamas aparece nas operações
Freixo também afirmou ter realizado pagamentos internacionais a pedido de Vorcaro por meio da Entre Investments and Arbitrage Ltd., empresa sediada em Nassau, nas Bahamas.
De acordo com o relato, Vorcaro enviava faturas com instruções para que os pagamentos fossem executados. O empresário, porém, não teria identificado na colaboração divulgada até agora quem eram os beneficiários finais dessas operações.
A rota internacional dos recursos está entre os pontos investigados pelas autoridades. Uma das linhas de apuração busca identificar se valores movimentados por estruturas no exterior também tiveram relação com o Havengate ou com pessoas vinculadas ao financiamento de “Dark Horse”.
Repasse de setembro contraria versão anterior
Um dos documentos apresentados pelo delator registra uma transferência de US$ 1,666 milhão realizada em setembro de 2025.
A data chama atenção porque Flávio Bolsonaro havia afirmado anteriormente que o último pagamento relacionado ao financiamento feito por Vorcaro ocorreu em maio daquele ano.
Segundo a colaboração, os aportes ao Havengate eram feitos após solicitações de Vorcaro. As investigações também apuram a participação de Flávio nas tratativas para obtenção dos recursos destinados ao filme.
Flávio já reconheceu ter participado da captação de investimentos privados para a produção. A produtora responsável pelo longa sustenta que os recursos foram destinados ao projeto e contratou uma auditoria particular que declarou regulares as contas do filme. Os documentos completos dessa auditoria, contudo, não foram divulgados publicamente.
Homologação não significa confirmação das acusações
A homologação feita por André Mendonça significa que o STF reconheceu a regularidade formal e a voluntariedade do acordo firmado entre Freixo e a Procuradoria-Geral da República. Ela não representa confirmação automática da veracidade das informações apresentadas pelo colaborador.
Agora, investigadores terão de verificar os documentos e buscar provas independentes capazes de confirmar ou rejeitar cada um dos fatos narrados.
A colaboração de Mineiro abre uma nova frente para rastrear a engenharia financeira ligada a Daniel Vorcaro e ao Banco Master. Além do financiamento de “Dark Horse”, as autoridades passam a ter informações sobre movimentações em espécie e operações internacionais que podem ajudar a reconstruir o caminho de recursos administrados pelo empresário a pedido do ex-controlador do banco.

