Quatro meses após sobreviver a uma tentativa de feminicídio em Quixeramobim, no Interior do Ceará, Ana Clara de Oliveira, de 21 anos, se prepara para uma nova etapa do tratamento. A jovem deverá passar por outra cirurgia no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, para liberar tendões que permanecem presos e ampliar os movimentos das mãos reimplantadas. O procedimento está previsto para ocorrer entre o fim de setembro e o início de outubro.
Ana Clara teve uma das mãos completamente decepada e a outra parcialmente mutilada durante o ataque ocorrido em 1º de maio. Desde então, enfrentou cirurgias de alta complexidade e um longo processo de fisioterapia e reabilitação.
A nova intervenção deverá permitir movimentos mais precisos, como o de “pinça”, realizado com o polegar e os demais dedos. A expectativa é que, com a evolução do tratamento, ela conquiste mais autonomia para tarefas cotidianas, como se vestir e tomar banho sem ajuda.
Recuperação já permite tarefas do dia a dia
Os avanços já são perceptíveis. Durante a internação, Ana Clara precisou aprender a utilizar o celular com os pés. Atualmente, já consegue manusear o aparelho com uma das mãos e também se alimentar sozinha, embora ainda tenha dificuldades e precise de mais tempo para realizar algumas atividades.
Segundo a jovem, os médicos explicaram que a liberação dos tendões precisa ocorrer de forma gradual. Um dos tendões do polegar já foi liberado, mas outras cirurgias poderão ser necessárias ao longo da recuperação.
Ana Clara afirma que um dos maiores desejos é voltar a ter independência e também reduzir a sobrecarga da mãe, que atualmente a auxilia nas tarefas diárias.
Nova fase também é marcada pela recuperação da autoestima
Além da recuperação física, Ana Clara relata mudanças importantes na própria vida depois de sair do relacionamento abusivo.
Ela conta que voltou a usar roupas de que gosta e passou a se reconhecer de uma forma diferente. Durante o relacionamento, segundo relata, sofria críticas e restrições relacionadas à maneira de se vestir.
A jovem afirma que hoje se sente uma “nova pessoa” e que recuperar a autoestima também passou a fazer parte de sua reconstrução após a violência.
Ana Clara já levou sua história a mais de 15 cidades
Nos últimos meses, a jovem também transformou a própria experiência em uma forma de conscientização. Ana Clara passou a ser convidada para palestras sobre violência contra a mulher e já esteve em mais de 15 municípios contando sua história.
Nas conversas, ela procura alertar principalmente para sinais que podem aparecer antes da agressão física, como ciúme excessivo, controle sobre roupas, proibição de trabalhar, estudar ou treinar e outras formas de violência psicológica, moral e patrimonial.
Para outubro, Ana Clara afirma já ter recebido novos convites para participar de eventos e palestras.
Sonho agora é cursar Direito
A jovem também passou a projetar novos caminhos para o futuro. Ela pretende começar a faculdade de Direito em 2027 e afirma que deseja se tornar advogada para ajudar mulheres vítimas de violência que não tenham condições financeiras de contratar assistência jurídica.
A exposição pública do caso também resultou em convites para que Ana Clara considere futuramente uma atuação política. Ela diz, porém, que ainda não tomou nenhuma decisão e que, neste momento, sua prioridade é a recuperação e a construção de uma vida profissional com mais estabilidade.
Ex-namorado e irmão são réus
O ataque ocorreu em 1º de maio, em Quixeramobim. Segundo a investigação, Ana Clara foi atingida com golpes de foice.
O ex-namorado dela, Ronivaldo Rocha dos Santos, e o irmão dele, Evangelista Rocha dos Santos, foram presos e se tornaram réus por tentativa de feminicídio.
Enquanto o processo judicial segue, Ana Clara concentra os esforços na reabilitação. A próxima cirurgia representa mais uma etapa de um tratamento que ainda poderá exigir novos procedimentos, mas que já permitiu a recuperação de parte dos movimentos e de sua autonomia.

