Editoras e distribuidoras de livros com atuação no Ceará entraram na mira da Polícia Federal durante a Operação Make Up, que investiga suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) a projetos executados pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB).
A investigação aponta conexões entre empresas do setor editorial, o instituto presidido por Karina Ferreira da Gama e a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo a PF, parte do dinheiro das emendas teria circulado por um conjunto de empresas relacionadas entre si, em um fluxo descrito pelos investigadores como um “circuito fechado”, que poderia dificultar a rastreabilidade dos recursos.
Dos 49 mandados de busca e apreensão cumpridos na operação, sete foram executados no Ceará, em Fortaleza e Aquiraz. Os alvos incluíram empresários, sócios de editoras e sedes de empresas ligadas ao grupo investigado.
Instituto recebeu emendas para projetos sociais
No centro da apuração está o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, que também é ligada à produção de Dark Horse.
O ICB recebeu cerca de R$ 2 milhões em emendas destinadas por Mário Frias para dois projetos, chamados Jovem Empreendedor e Lutando pela Vida.
Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, foram identificados indícios de irregularidades na execução das iniciativas, entre eles documentos inconsistentes, possíveis favorecimentos na contratação de empresas, subcontratações envolvendo pessoas ligadas entre si e ausência de comprovação de parte dos serviços previstos.
A PF apura se empresas relacionadas ao setor de livros e materiais pedagógicos foram usadas na circulação desses recursos.
Empresas ligadas à mesma família aparecem nas contratações
Entre as empresas investigadas estão a HD Cultural e a Dinâmica Editora, ligadas ao empresário cearense Dayvid Moreira Medeiros.
Também aparecem na operação a Mecla Soluções Educacionais, cujo nome fantasia é Mecla Editorial, administrada por Daywson Moreira Medeiros, irmão de Dayvid, e Georgia Helena Medeiros Lira.
Outra empresa alvo foi a Cometa Livraria, localizada no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza. A empresa pertence a Ana Patrícia Aguiar Santos e funciona no mesmo endereço onde anteriormente operava uma empresa dos irmãos Dayvid e Daywson.
Segundo a investigação, as relações empresariais e familiares entre os participantes das concorrências despertaram a atenção da Polícia Federal.
Livro foi entregue mais de um ano depois da nota fiscal
Um dos episódios analisados envolve a produção de material pedagógico para o projeto Jovem Empreendedor.
Uma nota fiscal foi emitida em fevereiro de 2025, mas, segundo a investigação, os livros só foram entregues em junho de 2026, mais de 465 dias depois. O prazo de execução do projeto havia terminado em janeiro daquele ano.
A PF afirma ainda que o público-alvo previsto originalmente não recebeu o material dentro do período estabelecido.
No mesmo projeto, R$ 300 mil foram destinados à produção de um kit pedagógico digital.
Entre as empresas que participaram da seleção estavam HD Cultural, Cometa Livraria, NTT Editora e Instituto Super Poder Educacional.
A escolhida foi o Instituto Super Poder Educacional, que recebeu R$ 300 mil e entregou dez videoaulas em uma plataforma digital. De acordo com a investigação, os vídeos somavam apenas sete visualizações, apesar de o projeto prever alcançar 2.500 pessoas.
Cometa movimentou mais de R$ 36 milhões
A movimentação financeira da Cometa Livraria também chamou a atenção dos investigadores.
Criada em 2022, a microempresa recebeu mais de R$ 36 milhões em recursos provenientes do Fundeb e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) ao longo de quatro anos.
Entre maio de 2025 e abril de 2026, a empresa recebeu e posteriormente transferiu mais de R$ 28 milhões.
A maior parte do dinheiro teria origem em contratos com prefeituras e secretarias municipais de Educação do Nordeste. A própria PF ressalva que, até agora, não apontou ilegalidade nesses contratos.
Grande parte dos recursos foi posteriormente transferida para editoras ligadas à família de Dayvid e Daywson, que seriam responsáveis pela produção dos livros comercializados pela Cometa.
Saques de R$ 49.991 chamaram atenção da PF
Outro ponto destacado pelos investigadores foi a realização de sucessivos saques em dinheiro vivo.
Segundo a PF, foram identificadas retiradas no valor de R$ 49.991, pouco abaixo da faixa de R$ 50 mil que exige comunicação específica às autoridades de controle financeiro.
Somente em março de 2026, teriam sido realizados 11 saques, somando R$ 549 mil.
Para a Polícia Federal, o padrão pode indicar tentativa de contornar mecanismos de controle. A corporação, no entanto, não estabeleceu até agora uma ligação direta entre esses saques e o suposto desvio das emendas destinadas por Mário Frias.
PF vê possível conexão financeira com produtora de ‘Dark Horse’
A investigação também encontrou uma possível ligação indireta entre as empresas envolvidas nos projetos do Instituto Conhecer Brasil e a Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse.
A Dinâmica Editora, de Dayvid Medeiros, e o Instituto Super Poder Educacional, ligado a Pamella Cristiane Dias, receberam juntos cerca de R$ 700 mil do ICB.
Posteriormente, a NTT Brasil, administrada por Heric Dias, que já foi sócio de Dayvid, transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment no mesmo período em que Dark Horse estava sendo filmado.
A própria Polícia Federal faz uma ressalva importante: não há, até o momento, prova de que os R$ 750 mil transferidos à produtora tenham vindo diretamente das emendas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil.
Para os investigadores, porém, a proximidade entre os valores, as relações empresariais e o intervalo de tempo entre as movimentações justificam o aprofundamento da análise financeira.
Investigação tenta reconstruir caminho do dinheiro
A Operação Make Up procura agora identificar o caminho percorrido pelos recursos públicos, quem efetivamente executou os projetos e se houve uso das empresas para fragmentar ou ocultar transferências.
A suspeita da PF é de que parte das contratações tenha servido para movimentar recursos dentro de uma rede de empresas e pessoas com vínculos entre si.
Mário Frias nega irregularidades e afirma que suas emendas tiveram destinação legal. Os demais investigados também terão espaço para apresentar suas defesas ao longo da apuração.
O ponto central da investigação, neste momento, é descobrir se os recursos destinados originalmente a projetos sociais e educacionais foram integralmente utilizados para essa finalidade ou se parte deles acabou desviada para outros fins — inclusive estruturas ligadas à produção de Dark Horse.

