O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio à maior crise política de seu governo, desencadeada pela intervenção do Ueno Bank, instituição financeira que mantinha milhões de clientes e concentrava elevados volumes de recursos públicos.
A decisão foi comunicada quando a Câmara dos Deputados se preparava para analisar um pedido de julgamento político contra o presidente.
A renúncia, no entanto, não interrompeu o processo no Congresso. Pouco depois do anúncio, os 78 deputados presentes aprovaram por unanimidade a acusação contra Peña, enviando o caso ao Senado.
A crise envolve suspeitas de conflito de interesses, questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e a concentração de recursos de órgãos públicos no Ueno Bank. Peña teve participação societária no Grupo Vázquez, antigo controlador da instituição, mas afirma ter vendido suas ações em março de 2025 e nega qualquer irregularidade.
A intervenção no banco deixou cerca de 2,9 milhões de clientes temporariamente sem acesso normal às contas e provocou protestos em Assunção.
O vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto constitucionalmente para assumir o governo após a formalização da saída de Peña. A Câmara rejeitou um pedido de julgamento político também contra ele, por 48 votos a 30.
Peña diz que renuncia para preservar estabilidade do país
Em mensagem divulgada nas redes sociais, Santiago Peña afirmou que decidiu deixar a Presidência pensando na estabilidade política e social do Paraguai.
O mandatário pediu desculpas à população caso tenha falhado durante o governo e disse que sua principal preocupação neste momento é garantir segurança aos paraguaios que mantinham economias no sistema financeiro.
Peña também defendeu que os depositantes do Ueno recebam os recursos previstos pelo sistema de garantia bancária e que o dinheiro pertencente a órgãos públicos seja preservado.
Ele não admitiu responsabilidade pelas irregularidades investigadas no banco.
Peña havia assumido a Presidência em agosto de 2023 e tinha mandato previsto até 2028.
Câmara aprova julgamento político por 78 votos a 0
Mesmo depois do anúncio da renúncia, a Câmara dos Deputados decidiu avançar com o processo de julgamento político.
Os 78 parlamentares presentes votaram a favor da acusação.
O documento atribui a Peña, entre outros pontos, possível conflito de interesses relacionado à antiga participação no grupo empresarial que controlava o Ueno Bank e questiona decisões tomadas durante sua administração que teriam favorecido a expansão da instituição.
A acusação agora segue ao Senado, responsável constitucionalmente por julgar o presidente.
O desfecho do processo também deverá ser coordenado com a formalização da renúncia apresentada por Peña.
A situação é incomum porque o mandatário anunciou sua saída praticamente ao mesmo tempo em que o Congresso avançava no procedimento para afastá-lo.
Pedido contra vice-presidente é rejeitado
Os deputados também analisaram uma tentativa de abrir julgamento político contra o vice-presidente Pedro Alliana.
Nesse caso, a acusação não alcançou os dois terços de votos necessários.
Foram:
30 votos favoráveis ao processo
48 votos contrários
O pedido foi arquivado.
Com isso, Alliana permanece na linha de sucessão e deverá assumir a Presidência quando a saída de Peña for formalizada de acordo com o procedimento constitucional.
Setores da oposição acusavam o vice de omissão diante da crise do Ueno Bank.
Os parlamentares que rejeitaram o processo afirmaram, por outro lado, que não havia elementos suficientes para atribuir a ele participação direta nas decisões que levaram à crise financeira.
Ueno Bank tinha quase 3 milhões de clientes
O centro da crise é o Ueno Bank, uma instituição que cresceu rapidamente no mercado financeiro paraguaio.
Criado como banco digital em 2021, o Ueno passou em poucos anos de uma operação relativamente pequena para uma das maiores instituições financeiras do país.
O banco afirmava ter aproximadamente 3 milhões de clientes.
O Paraguai possui pouco mais de 6 milhões de habitantes.
Isso significa que uma parcela extremamente elevada da população adulta mantinha algum tipo de relação com a instituição.
O rápido crescimento chamou atenção também pelo volume de recursos públicos depositados no banco.
Banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos
Segundo informações divulgadas durante a investigação, o Ueno mantinha aproximadamente US$ 850 milhões em recursos de instituições públicas.
Uma das maiores exposições era do Instituto de Previsión Social, o IPS, responsável por aposentadorias, pensões e serviços de saúde de trabalhadores paraguaios.
Cerca de US$ 380 milhões relacionados ao instituto estavam vinculados ao banco.
A concentração desses recursos tornou a crise financeira também uma questão de interesse público.
A oposição passou a questionar por que uma instituição de crescimento tão recente havia recebido tamanha quantidade de dinheiro de órgãos estatais.
Banco Central encontrou problema grave de solvência
A intervenção foi determinada depois que o Banco Central do Paraguai identificou uma deterioração significativa da situação financeira do Ueno.
Segundo o órgão regulador, o índice de solvência do banco havia caído para menos de 50% do mínimo legal exigido.
A situação foi identificada depois de ajustes realizados nos demonstrativos financeiros da instituição.
Também surgiram questionamentos sobre empréstimos concedidos a empresas relacionadas aos proprietários do banco.
Reguladores analisam se algumas dessas operações apresentavam riscos excessivos ou documentação insuficiente.
Diante do quadro, o Banco Central assumiu o controle da instituição e iniciou um processo de resolução.
Clientes ficaram sem acesso ao dinheiro
A intervenção provocou impacto imediato.
Milhões de clientes tiveram dificuldades ou ficaram temporariamente impossibilitados de movimentar suas contas.
Aplicativo, cartões e outros serviços foram afetados.
Filas se formaram em frente a agências e pontos de atendimento.
Em Assunção, correntistas e trabalhadores participaram de protestos exigindo a liberação dos depósitos e responsabilização de dirigentes do banco e autoridades públicas.
A paralisação também afetou pagamentos de salários e outras operações financeiras.
Governo aprova mecanismo para devolver depósitos
Em resposta à crise, o Congresso aprovou em caráter de urgência uma legislação para acelerar a devolução de parte dos depósitos.
Peña sancionou a medida antes de anunciar sua renúncia.
O Banco Central informou que correntistas deverão receber inicialmente até 10 milhões de guaranis, valor próximo de R$ 9 mil, pelo mecanismo de garantia.
Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades paraguaias, o sistema de proteção de depósitos é suficiente para cobrir integralmente cerca de 97% dos clientes, considerando os limites previstos.
Clientes com valores superiores ao teto dependerão do processo de liquidação e recuperação dos ativos do banco.
Relação de Peña com antigo controlador virou foco da crise
A situação política se agravou devido aos vínculos empresariais anteriores do presidente.
Peña foi acionista do Grupo Vázquez, conglomerado ligado ao empresário Miguel Vázquez e antigo controlador do Ueno.
O presidente afirma que nunca foi acionista direto do banco.
Ele reconhece, porém, que tinha participação no grupo empresarial e diz que vendeu suas ações em março de 2025.
A oposição sustenta que essa relação criou um potencial conflito de interesses, principalmente porque o Ueno cresceu significativamente e passou a receber grandes volumes de recursos públicos durante o governo Peña.
Essas acusações ainda estão sendo investigadas.
Peña nega favorecimento ao banco
O presidente rejeitou as acusações de que tenha favorecido a instituição.
Antes de renunciar, Peña afirmou repetidamente que não era proprietário nem investidor direto do Ueno Bank.
Também negou ter interferido em decisões do Banco Central ou de órgãos públicos para beneficiar a instituição.
A defesa do então presidente argumenta que a venda de sua participação no Grupo Vázquez eliminou qualquer vínculo econômico com o conglomerado.
Os parlamentares que apoiaram o julgamento político afirmam, porém, que o tema precisa ser esclarecido por meio das investigações.
Presidente do Banco Central também renunciou
A crise já havia provocado outra saída de alto nível antes da renúncia presidencial.
Carlos Carvallo deixou a presidência do Banco Central do Paraguai.
Sua atuação passou a ser questionada devido à relação profissional anterior com o próprio Ueno.
Carvallo havia presidido a Financiera Ueno antes de assumir o comando da autoridade monetária.
O vínculo alimentou questionamentos sobre a capacidade de fiscalização independente do banco durante sua rápida expansão.
Peña havia solicitado a saída de Carvallo quando a crise se aprofundou.
Executivos do banco são alvo da Justiça
A investigação criminal também avançou sobre dirigentes e pessoas ligadas ao Ueno.
Promotores paraguaios abriram processos contra executivos e associados da instituição.
Mandados de prisão foram expedidos contra integrantes da administração do banco, enquanto ativos de investigados passaram a ser alvo de medidas judiciais.
Entre os pontos investigados estão operações financeiras, concessões de crédito e possíveis irregularidades na administração.
As responsabilidades individuais ainda serão determinadas pela Justiça.
Protestos aumentaram pressão sobre governo
A crise bancária rapidamente se transformou em crise política.
Manifestantes ocuparam ruas de Assunção cobrando acesso ao dinheiro e explicações sobre o relacionamento entre o governo e o Ueno.
Os protestos foram alimentados principalmente pelo fato de milhões de pessoas não conseguirem movimentar normalmente suas economias.
A pressão chegou também ao Partido Colorado, legenda de Peña e principal força política do Paraguai.
Parte dos próprios aliados passou a apoiar a abertura do julgamento político.
A perda de sustentação dentro do partido tornou a permanência do presidente cada vez mais difícil.
Partido Colorado abandona presidente
Peña chegou ao poder apoiado por uma ampla maioria colorada no Congresso.
Essa base havia garantido relativa estabilidade ao governo desde 2023.
Com a crise do Ueno, entretanto, parlamentares governistas começaram a se afastar.
O julgamento político recebeu apoio de integrantes do próprio Partido Colorado.
A votação de 78 a 0 na Câmara mostrou o grau de isolamento alcançado pelo presidente nos últimos dias.
Acusações incluem conflito de interesses
O documento aprovado pelos deputados reúne diferentes acusações.
Entre os principais questionamentos estão:
- possível conflito de interesses relacionado à participação de Peña no Grupo Vázquez;
- concentração de recursos do Instituto de Previsión Social no Ueno Bank;
- nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central após sua passagem pela instituição financeira;
- possíveis falhas de supervisão sobre o banco;
- alterações legislativas relacionadas às regras de conflito de interesses;
- questionamentos sobre a evolução patrimonial do presidente.
Esses pontos constituem acusações políticas e elementos de investigações em andamento, não condenações judiciais.
Crise atinge imagem econômica do Paraguai
A intervenção também provocou preocupação nos mercados.
O Paraguai vinha construindo nos últimos anos uma imagem de estabilidade macroeconômica e disciplina fiscal.
A crise de uma instituição com milhões de clientes e elevado volume de recursos públicos levantou dúvidas sobre a supervisão financeira.
Os preços de títulos soberanos paraguaios sofreram pressão depois do agravamento da crise.
Autoridades tentam transmitir a mensagem de que o problema está concentrado no Ueno e não representa uma fragilidade generalizada do sistema bancário.
Banco cresceu rapidamente em poucos anos
O Ueno tornou-se um dos símbolos da digitalização bancária paraguaia.
Com estratégia voltada para aplicativos, pagamentos digitais e serviços simplificados, conquistou rapidamente uma grande base de clientes.
A expansão tornou-se ainda maior depois de operações societárias que transformaram a empresa em um dos principais grupos financeiros do país.
Esse crescimento, porém, passou a ser reavaliado diante das informações reveladas pela intervenção.
Reguladores agora analisam se a expansão ocorreu sem níveis adequados de capital e controles de risco.
Recursos previdenciários são uma das maiores preocupações
A presença de dinheiro do IPS entre os recursos vinculados ao banco tornou-se um dos aspectos mais sensíveis do caso.
O instituto administra fundos ligados às aposentadorias e à assistência de trabalhadores paraguaios.
A oposição afirma que houve concentração excessiva desses recursos em uma única instituição financeira.
A eventual perda de dinheiro previdenciário teria consequências que ultrapassariam os correntistas privados.
O governo e o Banco Central afirmam que trabalham para proteger esses ativos.
Renúncia não encerra investigações
A saída de Santiago Peña não interrompe os processos administrativos, parlamentares ou criminais relacionados ao caso.
As investigações sobre o Ueno continuarão.
Também permanecerão sob análise as decisões de órgãos públicos que transferiram ou mantiveram recursos na instituição.
O Ministério Público poderá continuar investigando possíveis responsabilidades de Peña independentemente de ele permanecer ou não na Presidência.
A evolução do julgamento político no Senado também deverá definir consequências institucionais adicionais.
Pedro Alliana deve assumir governo
Com o arquivamento do pedido de julgamento político contra o vice-presidente, Pedro Alliana está em posição de assumir a Presidência.
Alliana também pertence ao Partido Colorado.
Ele já ocupou a presidência da Câmara dos Deputados e é uma das principais lideranças da legenda.
A expectativa é que conduza o governo até o término do mandato constitucional, previsto para 2028, caso a sucessão seja formalizada sem novos obstáculos.
Sua primeira tarefa será administrar simultaneamente uma crise financeira, política e de confiança nas instituições.
Senado terá papel decisivo
O Congresso ainda precisa concluir os procedimentos relacionados à saída presidencial.
Como a Câmara decidiu avançar com o julgamento político mesmo após o anúncio da renúncia, o Senado terá papel central na definição do desfecho.
A Constituição paraguaia determina que a Câmara formule a acusação e que o Senado atue como tribunal no processo.
São necessários dois terços dos senadores para uma eventual condenação.
Ao mesmo tempo, a renúncia precisa produzir seus efeitos institucionais para que a sucessão presidencial seja concluída.
Uma crise bancária que derrubou um presidente
Santiago Peña chegou ao poder em 2023 como economista e representante de uma das organizações políticas mais tradicionais da América Latina.
Três anos depois, sua Presidência termina antecipadamente em meio a uma crise iniciada no sistema financeiro.
O colapso do Ueno Bank reuniu elementos particularmente sensíveis: quase três milhões de clientes, centenas de milhões de dólares em recursos públicos, fundos previdenciários, antigos vínculos empresariais do presidente e dúvidas sobre a atuação do Banco Central.
A combinação transformou rapidamente um problema bancário em uma crise de governo.
Em poucos dias, o presidente do Banco Central deixou o cargo, executivos do Ueno passaram a ser alvo da Justiça, milhares de pessoas foram às ruas e Peña perdeu o apoio necessário para continuar no poder.
Nesta quinta-feira, a crise alcançou seu ponto mais alto.
Santiago Peña apresentou a renúncia, a Câmara aprovou por unanimidade o julgamento político e o Paraguai iniciou uma transição que deverá levar Pedro Alliana à Presidência.
O desafio imediato do próximo governo será restaurar a confiança no sistema financeiro e responder à principal preocupação de milhões de paraguaios: quando e em que condições conseguirão recuperar o dinheiro que mantinham no Ueno Bank.

