A população de baleias-jubarte no Brasil passou de aproximadamente 1,5 mil indivíduos, no início da década de 1990, para mais de 35 mil, segundo estimativa realizada em 2022. A recuperação é resultado de um processo de conservação que teve participação fundamental do Instituto Baleia Jubarte, criado para estudar e proteger a espécie.
A caça às jubartes, realizada principalmente para a extração de gordura utilizada na produção de óleo para iluminação, foi proibida em 1987. No ano seguinte, pesquisadores identificaram uma pequena população sobrevivente no arquipélago de Abrolhos, na Bahia. A descoberta motivou a criação do Projeto Baleia Jubarte, por Enrique Marcovaldi e pela bióloga Márcia Engel.
Formalizado como instituto em 1996, o projeto ampliou as ações de pesquisa e monitoramento. Em 2014, a baleia-jubarte deixou a lista de animais ameaçados de extinção.
O crescimento da população é celebrado por quem acompanhou o processo desde o início. “Na primeira estimativa populacional nossa, que foi no princípio da década de 90, tinha de 1,5 mil a 2 mil baleias. Hoje estamos com mais de 35 mil. O sentimento é de dever cumprido. A população se recuperou de verdade”, afirma Marcovaldi.
Monitoramento e pesquisas acompanham as baleias
Todos os anos, as baleias-jubarte migram das áreas de alimentação em regiões polares para zonas tropicais, onde acasalam e dão à luz. No Brasil, o arquipélago de Abrolhos, na Bahia, é o principal ponto de reprodução da espécie.
O Instituto acompanha a passagem dos animais por meio de expedições científicas, com registros fotográficos e coleta de amostras de pele e gordura. As imagens das nadadeiras caudais já permitiram identificar mais de 10 mil baleias e, atualmente, são analisadas também com o auxílio de inteligência artificial.
A estimativa populacional é feita principalmente por sobrevoos no litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte. Em 2022, o levantamento registrou mais de 35 mil indivíduos. O cálculo referente a este ano ainda está em andamento e, segundo Enrico Marcovaldi, deve ficar um pouco abaixo do resultado anterior. A variação, no entanto, não representa necessariamente uma regressão na conservação da espécie.
“As temporadas são cíclicas. Em algumas você vê mais baleias, em outras você vê menos. Tem anos que elas ficam mais no Sul, outros que elas avançam mais pro Nordeste”, explica.

As pesquisas também permitiram identificar rotas migratórias e relações entre populações de diferentes regiões. Em 2006, a comparação de fotografias de baleias registradas no Brasil e nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártida, revelou correspondências entre os animais.
“Uma das biópsias que a gente fez, a gente identificou um parente de outra baleia que a gente já tinha biopsiado aqui. E era um parentesco tipo mãe e filho”, explica o médico-veterinário Milton Marcondes, diretor de Pesquisas do Instituto.
Os estudos confirmaram que o litoral brasileiro é utilizado como área de reprodução, enquanto a região próxima às ilhas funciona como área de alimentação.
Poluição e mudanças climáticas estão entre as ameaças
Apesar da recuperação populacional, as baleias-jubarte continuam expostas a ameaças como a poluição dos oceanos e as mudanças climáticas. Para o diretor-executivo do Instituto, Eduardo Camargo, o principal desafio atualmente é “harmonizar a atividade humana com a conservação das baleias-jubartes e outros cetáceos”.
Entre as preocupações estão a presença de microplásticos no ambiente marinho e possíveis alterações na disponibilidade de alimento para os animais.
“O lixo impacta o oceano inteiro, que está coberto de microplástico. A questão climática afeta a disponibilidade de alimento, que rege todo o ciclo de vida dos animais”, afirma Camargo.
O Instituto também desenvolve estudos sobre o comportamento das baleias para compreender os possíveis efeitos de atividades humanas, como navegação, turismo e exploração sísmica.
Instituto contribuiu para formação de pesquisadores
Ao longo de sua trajetória, o Instituto Baleia Jubarte também participou da formação de profissionais e da produção de conhecimento científico. Mais de 700 estudantes de graduação passaram pelo programa de estágio da instituição, enquanto cerca de 60 pesquisas de mestrado e doutorado foram concluídas em parceria com o Instituto.
A atuação também resultou na publicação de mais de 130 artigos científicos, ampliando o conhecimento sobre a espécie e contribuindo para as estratégias de conservação.

