Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) alcançou um novo marco na medicina brasileira. Pela primeira vez no Nordeste, a pele de tilápia foi utilizada em cirurgias de afirmação de gênero para ampliar e reconstruir o canal vaginal de mulheres trans.
Os procedimentos foram realizados nos dias 27 e 28 de outubro no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE), no Recife, em parceria com pesquisadores cearenses.
Três pacientes atendidas pelo Espaço de Acolhimento e Cuidado de Pessoas Trans e Travestis do hospital passaram pela técnica.
Duas realizaram cirurgias primárias, quando o canal vaginal é construído pela primeira vez. A terceira passou por uma cirurgia secundária para corrigir uma estenose — estreitamento ou fechamento do canal decorrente de uma operação anterior.
A pele de tilápia utilizada não é aplicada diretamente como retirada do peixe. Ela passa por uma série de processos laboratoriais de preparação, esterilização e liofilização até se transformar em um biomaterial seguro para utilização médica.
O objetivo da pesquisa é verificar se esse material pode proporcionar uma neovagina com maior profundidade, calibre, elasticidade e funcionalidade.
Três pacientes foram operadas
Duas cirurgias primárias
Uma cirurgia para correção de estenose
Procedimentos realizados no Recife
Tecnologia desenvolvida pela UFC
Acompanhamento clínico previsto por pelo menos um ano
Pele funciona como uma espécie de estrutura biológica
O princípio da técnica é diferente do que o nome pode sugerir.
A pele da tilápia funciona como uma espécie de arcabouço biológico.
Ela é colocada na região reconstruída e serve de suporte para o crescimento e a proliferação das células da própria paciente.
Com o passar do tempo, o organismo vai formando tecido sobre essa estrutura.
O professor Leonardo Bezerra, ginecologista da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand e da UFC, explica que o biomaterial permite criar ou ampliar o canal vaginal.
Ele é um dos pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento da técnica e participou das cirurgias realizadas em Pernambuco.
Técnica busca superar limitações da cirurgia tradicional
Uma das técnicas mais utilizadas nas cirurgias de afirmação de gênero para mulheres trans é a inversão da pele peniana.
Nesse procedimento, tecidos da própria genitália são utilizados para construir o canal vaginal.
Apesar de consolidada, a técnica pode apresentar limitações anatômicas em algumas pacientes, principalmente relacionadas à quantidade de tecido disponível para produzir um canal com profundidade e largura adequadas.
É justamente nesse ponto que os pesquisadores estudam o uso da pele de tilápia.
O biomaterial pode complementar a técnica tradicional e permitir um canal mais longo e largo.
A hipótese dos pesquisadores é que isso possa melhorar também elasticidade e funcionalidade para relações sexuais.
Esses benefícios, porém, ainda estão sendo avaliados cientificamente.
Técnica ainda está em pesquisa clínica
Apesar dos resultados iniciais considerados positivos pela equipe, o uso da pele de tilápia nessa aplicação continua em fase de investigação clínica.
As pacientes serão acompanhadas durante pelo menos um ano.
Os médicos avaliarão a adaptação do tecido, possíveis complicações, profundidade e calibre do canal vaginal e a satisfação das pacientes.
A pesquisa pretende comparar os resultados com aqueles obtidos pelas técnicas tradicionais.
Somente esse acompanhamento permitirá avaliar de maneira mais ampla a segurança e os benefícios da técnica para cirurgias de afirmação de gênero.
Cirurgias duram entre três e quatro horas
De acordo com Leonardo Bezerra, o procedimento dura aproximadamente três a quatro horas.
Além do pesquisador da UFC, participaram das cirurgias a ginecologista Aleide Tavares, o urologista Luiz Simões e o ginecologista Artur Rangel.
O tratamento, entretanto, não começa nem termina na sala de cirurgia.
As pacientes são acompanhadas por uma equipe multidisciplinar formada também por endocrinologistas, clínicos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.
Esse acompanhamento é parte importante do protocolo de cuidados oferecido pelo Espaço Trans do Hospital das Clínicas da UFPE.
Uma paciente precisava corrigir fechamento do canal
Entre as três mulheres operadas, uma já havia realizado anteriormente uma cirurgia de afirmação de gênero.
Ela desenvolveu estenose vaginal.
A complicação ocorre quando há estreitamento significativo ou fechamento do canal construído cirurgicamente.
Nesse caso, a pele de tilápia foi utilizada para reconstruir e ampliar novamente o espaço.
Os pesquisadores acreditam que o biomaterial poderá ter aplicação tanto em casos de complicações de cirurgias anteriores quanto nas primeiras cirurgias.
Nas duas outras pacientes, a pele de tilápia foi utilizada já na confecção inicial da neovagina.
Pele não é usada diretamente do peixe
Antes de chegar à sala de cirurgia, a pele passa por um complexo processamento no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC.
Ela é limpa e preparada em ambiente controlado.
Depois, passa por procedimentos de esterilização química e por radioesterilização.
O material também é liofilizado — técnica de conservação que retira a água do tecido por meio de congelamento e sublimação.
O resultado é um biomaterial estéril preparado especificamente para utilização clínica.
A pele usada na cirurgia:
• não é aplicada crua;
• passa por processamento laboratorial;
• é esterilizada;
• passa por radioesterilização;
• é liofilizada;
• funciona como suporte para crescimento das células da própria paciente.
Pesquisadores apontam baixo custo como vantagem
Outro aspecto estudado é o custo do biomaterial.
A tilápia é um dos peixes mais produzidos comercialmente no Brasil e sua pele normalmente seria descartada pela indústria.
Ao transformar esse subproduto em material médico, os pesquisadores buscam desenvolver uma alternativa mais acessível que outros tipos de enxertos ou próteses biológicas.
Leonardo Bezerra destaca que a esterilização também reduz o risco de contaminação e infecção cruzada.
A segurança continuará sendo acompanhada durante a pesquisa clínica.
Pesquisa nasceu no Ceará
A utilização médica da pele de tilápia começou a ser pesquisada no Ceará há mais de uma década.
O Projeto Pele de Tilápia foi iniciado em 2014 por pesquisadores ligados à UFC.
Um dos primeiros grandes objetivos foi desenvolver um curativo biológico para pessoas com queimaduras.
A pele do peixe chamou atenção devido às suas características estruturais e à possibilidade de aproveitamento como biomaterial.
Os estudos avançaram posteriormente para outras áreas da medicina regenerativa.
Mais de 50 reconstruções vaginais já utilizaram técnica
A aplicação ginecológica da tecnologia começou antes de sua utilização em mulheres trans.
Desde 2017, pesquisadores da UFC estudam o uso da pele de tilápia na reconstrução vaginal de pacientes com síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, conhecida como síndrome de Rokitansky.
A condição provoca ausência ou desenvolvimento incompleto do canal vaginal.
Segundo a equipe de pesquisa, mais de 50 procedimentos de correção de agenesia vaginal já foram realizados utilizando a tecnologia.
A experiência acumulada permitiu que os pesquisadores começassem a estudar novas aplicações.
Pesquisa atua em três frentes
Atualmente, o estudo desenvolvido pela UFC possui três grandes vertentes.
Agenesia vaginal
Reconstrução do canal vaginal de pacientes que nasceram sem a estrutura ou com formação incompleta.
Após radioterapia
Reconstrução em mulheres que desenvolveram alterações ou estreitamento vaginal depois de tratamentos contra o câncer.
Afirmação de gênero
Construção ou ampliação do canal vaginal em mulheres trans.
A expectativa é descobrir em quais situações o biomaterial oferece maior benefício e como os resultados se comparam às técnicas tradicionais.
Primeira cirurgia em paciente trans ocorreu em 2024
Embora seja a primeira utilização da técnica no Nordeste em cirurgias de afirmação de gênero, não é a primeira experiência desse tipo no Brasil.
Em dezembro de 2024, uma paciente trans passou por uma neovaginoplastia com pele de tilápia no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, em São Paulo.
O procedimento adaptou conhecimentos que já vinham sendo utilizados para pacientes com síndrome de Rokitansky e em reconstruções vaginais.
Essa experiência abriu caminho para a ampliação da pesquisa.
Mais de 100 procedimentos foram realizados na Colômbia
A equipe cearense também desenvolveu parceria com médicos de Cali, na Colômbia.
A partir dessa cooperação, foi aprimorada uma técnica que combina a inversão da pele peniana com o uso da pele de tilápia.
Segundo os pesquisadores, mais de 100 procedimentos utilizando a técnica combinada já foram realizados na Colômbia.
A experiência internacional também contribuiu para o desenvolvimento do protocolo que agora começa a ser estudado de maneira mais ampla no Brasil.
Pernambuco tem serviço especializado há mais de dez anos
A realização dos procedimentos no Recife aconteceu porque o Hospital das Clínicas da UFPE já possui uma estrutura especializada para atendimento de pessoas trans.
O Espaço de Acolhimento e Cuidado de Pessoas Trans e Travestis funciona há mais de uma década e realiza cirurgias de afirmação de gênero.
O hospital é considerado uma das referências nacionais na área.
A parceria permitiu unir essa experiência cirúrgica ao conhecimento desenvolvido pelos pesquisadores cearenses sobre a pele de tilápia.
Ceará desenvolveu tecnologia, mas ainda não faz esse tipo de cirurgia
Existe uma contradição destacada pelos próprios pesquisadores.
Embora a tecnologia tenha sido desenvolvida no Ceará, o Estado ainda não possui um centro terciário habilitado para realizar esse tipo de cirurgia de afirmação de gênero.
Por isso, os primeiros procedimentos nordestinos tiveram de acontecer em Pernambuco.
A UFC já realiza desde 2017 reconstruções vaginais na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand em pacientes com agenesia vaginal ou que sofreram alterações após radioterapia.
Para ampliar o serviço às cirurgias de afirmação de gênero, porém, é necessária uma estrutura específica e a respectiva habilitação.
Pesquisadores querem trazer serviço para Fortaleza
Leonardo Bezerra afirma que a equipe tenta há anos viabilizar a criação de um serviço terciário no Ceará.
A expectativa é de que os resultados da parceria com Pernambuco ajudem a demonstrar a necessidade e a viabilidade da implantação dessa estrutura em Fortaleza.
Enquanto isso, UFC e UFPE continuarão trabalhando conjuntamente na pesquisa.
A intenção é ampliar o número de pacientes acompanhadas e reunir evidências que permitam comparar os resultados da pele de tilápia com os procedimentos convencionais.
Pesquisa cearense começou com queimaduras
A história da tecnologia nasceu longe das cirurgias de afirmação de gênero.
Pesquisadores começaram a estudar a pele do peixe como curativo biológico para pacientes queimados.
O objetivo inicial era reduzir dor e facilitar a cicatrização.
O material apresentou características interessantes por possuir grande quantidade de colágeno e resistência adequada para funcionar como cobertura temporária de feridas.
A experiência levou ao desenvolvimento de uma plataforma de pesquisa sobre regeneração de tecidos.
Tecnologia já recebeu premiações
O Projeto Pele de Tilápia conquistou reconhecimento científico no Brasil e no exterior.
Ao longo dos últimos anos, a pesquisa acumulou dezenas de premiações e passou a ser apresentada em congressos nacionais e internacionais.
Entre os reconhecimentos está o Prêmio Eurofarma de Inovação.
A UFC também avançou no licenciamento da tecnologia para permitir sua produção em maior escala.
Pele que seria descartada ganha uso médico
Um dos aspectos mais peculiares da pesquisa é a origem do material.
A tilápia é amplamente criada para alimentação, mas a pele representa uma parcela do peixe que frequentemente possui baixo valor comercial ou é descartada.
A pesquisa transforma esse subproduto em matéria-prima para biomateriais.
Para isso, porém, existe uma cadeia rigorosa de processamento.
O fato de ser pele de peixe não significa que qualquer pele de tilápia possa ser utilizada em um paciente.
Somente material produzido e esterilizado dentro de protocolos específicos pode ser empregado nos estudos clínicos.
Técnica busca impacto também na qualidade de vida
A funcionalidade do canal vaginal não é o único desfecho analisado.
A equipe acompanha também fatores relacionados à autoimagem genital e corporal, sexualidade, satisfação pessoal e qualidade de vida das pacientes.
Esses indicadores serão comparados ao longo dos próximos meses.
A ginecologista Aleide Tavares, do HC-UFPE, afirma que o hospital utilizará a técnica nas próximas cirurgias incluídas na pesquisa e acompanhará a evolução das pacientes durante um ano.
Resultado inicial é considerado positivo, mas acompanhamento continua
As três cirurgias realizadas no Recife foram consideradas bem-sucedidas pela equipe responsável.
Isso significa que os procedimentos transcorreram como planejado no período imediato.
Ainda não é possível, porém, concluir que a nova técnica produz resultados superiores aos métodos tradicionais.
Essa resposta depende justamente do acompanhamento clínico e dos dados coletados ao longo do estudo.
Profundidade, largura, elasticidade, cicatrização, complicações e satisfação serão alguns dos parâmetros analisados.
Marco une pesquisas do Ceará e estrutura de Pernambuco
O primeiro uso da técnica em cirurgias de afirmação de gênero no Nordeste une dois centros públicos de pesquisa e assistência.
De um lado está a Universidade Federal do Ceará, onde o biomaterial começou a ser desenvolvido e onde funciona o núcleo responsável pelo processamento da pele de tilápia.
Do outro está o Hospital das Clínicas da UFPE, que possui experiência consolidada no atendimento de pessoas trans.
A parceria permite que uma tecnologia nascida nos laboratórios cearenses avance para uma nova etapa de avaliação clínica.
E, embora a pesquisa ainda precise de acompanhamento para determinar seus resultados em longo prazo, os três procedimentos realizados no Recife marcam mais uma expansão de uma tecnologia que começou há mais de uma década no Ceará com uma proposta aparentemente simples: transformar uma pele de peixe que seria descartada em um biomaterial capaz de auxiliar na reconstrução de tecidos humanos.

