A Polícia Federal identificou uma estrutura montada dentro do Banco Master para produzir, alterar e organizar em grande escala documentos que teriam sido usados para dar aparência de regularidade a operações de crédito vendidas ao Banco de Brasília (BRB). A investigação aponta o uso de ferramentas comuns, como Microsoft Word e arquivos PDF, além de códigos desenvolvidos pela própria equipe de tecnologia do banco.
O material faz parte das investigações sobre as operações entre Master e BRB e veio a público após a retirada do sigilo de documentos do caso pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Segundo a PF, funcionários de diferentes áreas do Master participaram de uma cadeia que envolvia extração de dados de clientes, produção de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), criação de procurações, manipulação de páginas de assinaturas e montagem dos arquivos posteriormente apresentados como comprovação das carteiras de crédito.
Word foi usado para gerar 2,7 mil procurações
Um dos episódios identificados pelos investigadores envolve o gerente Allan da Silva Machado.
De acordo com a PF, ele teria utilizado uma planilha com informações de clientes e a ferramenta de mala direta do Microsoft Word para produzir 2.700 procurações de forma automatizada.
Os documentos ficaram armazenados em uma pasta denominada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. A polícia considera provável que desse conjunto tenham saído parte das 1.785 procurações posteriormente encaminhadas ao BRB como comprovação de créditos supostamente originados pela Tirreno.
A Tirreno aparece nas investigações como empresa utilizada para originar grandes volumes de créditos consignados posteriormente negociados com o Master e revendidos ao BRB. Para a PF, a empresa não possuía estrutura compatível com o volume bilionário das operações.
Programas extraíam páginas de assinatura de PDFs
A investigação também encontrou ferramentas desenvolvidas pela área de tecnologia do Master para manipular arquivos digitais.
Um dos programas, identificado como “API Formalização PDF”, teria sido utilizado para extrair páginas de assinatura de documentos em PDF. Segundo a PF, essas páginas poderiam posteriormente ser reunidas a novas CCBs e outros documentos produzidos dentro da estrutura do banco.
Funcionários da área de tecnologia aparecem nas investigações como responsáveis por extrair CPFs dos sistemas internos, organizar informações em planilhas e desenvolver códigos para processar grandes quantidades de arquivos.
Em determinado momento, um funcionário chegou a encaminhar um arquivo contendo 1.833 PDFs com páginas de assinaturas isoladas de termos de consentimento.
“Precisamos excluir a data”
As mensagens encontradas pelos investigadores também mostram preocupação com datas e horários presentes nos documentos.
Em uma das conversas, funcionários discutem a necessidade de remover essas informações antes que os arquivos fossem apresentados. A expressão “precisamos excluir a data” aparece no material analisado pela PF.
A investigação relata ainda pedidos para que datas fossem apagadas visualmente de documentos e conversas sobre possíveis alterações em comprovantes de transferências bancárias.
Para a Polícia Federal, esses episódios reforçam a suspeita de que não se tratava apenas de erros administrativos, mas de uma produção deliberada de documentos destinados a justificar operações que já estavam sendo questionadas.
Auditoria da Deloitte pressionava por comprovações
A produção dos documentos ganhou força à medida que o BRB e a Deloitte, responsável por auditorias relacionadas às operações, passaram a cobrar provas da existência dos créditos.
As inconsistências detectadas pela auditoria geraram conversas internas no Master sobre como responder aos questionamentos.
Em um dos diálogos, o diretor Alberto Felix de Oliveira Neto teria orientado o coordenador Fabrizio Pereira Alencar a atribuir divergências encontradas pela Deloitte a um “erro operacional” na seleção dos documentos.
Os investigadores sustentam que a estrutura do banco passou então a produzir os chamados “kits”, reunindo CCB, procuração e termo de consentimento para apresentar como comprovação dos empréstimos.
PF aponta participação de diferentes áreas do banco
A investigação não trata o episódio como uma ação isolada de um funcionário.
Documentos internos apreendidos pela PF descrevem a participação de diretores, gerentes, equipes de back office e profissionais de tecnologia no fluxo de produção dos arquivos.
Segundo o material, havia divisão de tarefas: enquanto alguns funcionários retiravam dados dos sistemas, outros geravam documentos em massa, manipulavam PDFs, organizavam assinaturas digitais e preparavam os arquivos para envio.
Daniel Vorcaro também aparece nas mensagens. De acordo com a investigação, o então controlador do Master cobrou a preparação de um “kit” envolvendo centenas de operações e recebeu arquivos relacionados às CCBs, procurações e assinaturas.
Operações entre Master e BRB chegaram a bilhões de reais
A fabricação dos documentos está inserida em uma investigação muito mais ampla sobre as operações financeiras realizadas entre Banco Master e BRB.
Segundo relatório da PF, o BRB transferiu cerca de R$ 17 bilhões ao Master pela aquisição de carteiras de crédito. Os investigadores sustentam que aproximadamente R$ 12,2 bilhões estavam relacionados a créditos fictícios ou sem lastro adequado.
A PF afirma que as carteiras eram vendidas em operações feitas muitas vezes de maneira acelerada, mesmo diante de alertas internos e questionamentos sobre a documentação.
Em diferentes momentos, pareceres jurídicos, auditorias e o próprio Banco Central teriam apontado problemas na qualidade e na comprovação dos créditos negociados.
Apresentação interna do próprio Master virou prova
Um dos documentos mais relevantes encontrados pela PF foi produzido pelo próprio Banco Master.
Intitulada “Investigações internas – Banco Master”, a apresentação registrava condutas consideradas inadequadas dentro da instituição e descrevia quem teria participado das etapas de geração e manipulação dos documentos.
O arquivo foi localizado no acervo digital entregue pelo liquidante do banco e passou a integrar o conjunto de evidências da investigação.
Para a Polícia Federal, o material reforça a tese de que a fabricação e a alteração dos documentos faziam parte de um processo estruturado dentro da instituição, e não de episódios independentes.
As responsabilidades individuais ainda são objeto de investigação. Os envolvidos têm direito de apresentar defesa, e as conclusões da Polícia Federal ainda deverão ser analisadas pelo Ministério Público e pelo Judiciário.

