Uma operação realizada em São Paulo revelou a dimensão de uma cadeia criminosa especializada em transformar celulares roubados e furtados em aparelhos aparentemente regulares para serem revendidos no mercado. Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), os investigados movimentaram cerca de R$ 460 milhões em cinco anos.
A chamada “máfia dos celulares” atuava de forma estruturada, com diferentes núcleos responsáveis pela receptação dos aparelhos, acesso a dados das vítimas, desbloqueio e adulteração dos dispositivos e, por fim, revenda dos equipamentos ou de suas peças.
A investigação ganhou força com a Operação Frank Mobile, deflagrada na quinta-feira (10), em uma ação conjunta do Ministério Público e das forças de segurança de São Paulo. Ao todo, 15 suspeitos acabaram presos. A ofensiva mobilizou cerca de 1.700 agentes e cumpriu dezenas de mandados.
Brasil registra mais de 830 mil celulares roubados ou furtados
Dados apresentados na investigação mostram que mais de 830 mil celulares foram roubados ou furtados no Brasil em um ano, o equivalente a aproximadamente um aparelho a cada 38 segundos.
Na cidade de São Paulo, apenas cerca de 6% dos dispositivos levados pelos criminosos conseguem ser recuperados.
Para os investigadores, a baixa taxa de recuperação está diretamente relacionada à velocidade com que os aparelhos desaparecem dentro de uma cadeia de receptação e adulteração.
Rua Guaianases funcionava como ponto de receptação
Um dos principais locais identificados pelos investigadores foi a Rua Guaianases, no centro de São Paulo.
Segundo o Ministério Público, a região funcionava como uma espécie de entreposto para os primeiros receptadores. Mais de 500 boletins de ocorrência registrados em pouco mais de dois anos apresentavam alguma referência à rua ou às proximidades.
Diversas vítimas também acompanhavam a localização dos aparelhos e percebiam que o sinal terminava naquela região.
O problema era descobrir exatamente em qual imóvel ou estabelecimento o celular estava escondido.
Criminosos tentavam acessar contas bancárias
A investigação mostrou que o interesse da quadrilha não se limitava ao valor do aparelho.
Logo depois do roubo ou furto, integrantes do esquema tentavam acessar aplicativos bancários, contas digitais, redes sociais e outros dados armazenados nos celulares.
Uma testemunha protegida que participou do esquema relatou aos investigadores que muitos aparelhos já tinham destino definido assim que eram subtraídos.
Depois dessa primeira etapa, os dispositivos eram enviados para pessoas com conhecimento técnico, responsáveis por tentar desbloqueá-los e prepará-los para a revenda.
“Icloudeiros” faziam desbloqueio dos aparelhos
Entre os integrantes da estrutura estavam os chamados “icloudeiros”, especialistas em tentar burlar os mecanismos de segurança dos celulares.
A investigação identificou lojas que cobravam valores a partir de R$ 300 para realizar procedimentos destinados a remover bloqueios dos aparelhos.
Áudios obtidos durante a investigação registraram negociações envolvendo desbloqueio de iCloud e até pedidos para retirar restrições impostas ao IMEI após registros de roubo ou furto.
O IMEI funciona como uma espécie de número de identidade do celular e pode ser bloqueado quando o proprietário comunica o crime.
IMEI de aparelhos roubados era alterado
Segundo o Ministério Público, outro núcleo da organização era especializado justamente em adulterar o IMEI.
Uma das técnicas investigadas consistia em substituir o número de identificação de um aparelho roubado pelo IMEI pertencente a outro celular que já não estava mais em uso.
Com isso, o equipamento poderia voltar a se conectar às redes de telefonia e passar pelos sistemas de controle sem ser imediatamente identificado como produto de crime.
Outra possibilidade era a substituição da placa-mãe ou a desmontagem completa dos aparelhos para venda das peças.
Notas fiscais davam aparência legal aos celulares
Depois de desbloqueados e adulterados, os aparelhos chegavam à última etapa da cadeia: a revenda.
A investigação aponta que empresas também eram utilizadas para emitir notas fiscais fraudulentas, criando uma aparência de origem regular para celulares que teriam sido roubados ou furtados.
Os investigadores localizaram conversas relacionadas à emissão dos documentos e ao uso dos números de IMEI nos registros fiscais.
Diante desse tipo de fraude, o governo de São Paulo passou a exigir que o IMEI conste nas notas fiscais eletrônicas emitidas na comercialização de celulares, ampliando a possibilidade de rastrear a origem dos aparelhos.
Operação apreendeu cerca de 60 toneladas
O volume de material encontrado durante a ofensiva surpreendeu os investigadores.
Foram apreendidos cerca de 10 mil itens, entre celulares, peças e acessórios. A quantidade era tão grande que o material precisou ser estimado pelo peso: aproximadamente 60 toneladas.
Cães farejadores treinados para detectar componentes eletrônicos também foram utilizados nas buscas. Os animais ajudaram as equipes a localizar aparelhos escondidos dentro dos imóveis investigados.
Todo o material deverá passar por perícia para que a polícia tente identificar a procedência dos dispositivos e localizar seus proprietários.
Esquema ligava ladrões, receptadores, técnicos e comerciantes
Para os investigadores, a operação revelou que o roubo na rua é apenas o início de um negócio muito mais amplo.
A estrutura identificada ligava autores de furtos e roubos a receptadores, técnicos capazes de modificar os dispositivos e comerciantes encarregados de devolver os celulares ao mercado com aparência de legalidade. Regiões comerciais do centro paulistano, como Guaianases, Santa Ifigênia e 25 de Março, aparecem nas apurações.
A Polícia e o Ministério Público também alertam que a procura por aparelhos muito abaixo do preço de mercado ajuda a sustentar esse tipo de estrutura criminosa.
Com as apreensões e prisões, a investigação entra agora em uma nova etapa: reconstruir o caminho dos aparelhos, identificar outras pessoas envolvidas e descobrir a extensão financeira de uma cadeia que movimentou centenas de milhões de reais apenas entre os grupos já investigados.

