Impedido de frequentar a escola quando criança por causa de uma paralisia que afetou seus movimentos e a fala, Paulo Ricardo Garcia realizou, aos 63 anos, um sonho que atravessou décadas: concluir o Ensino Superior. Ele se formou em Educação Física em uma cerimônia realizada no último domingo (6), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
A conquista encerra uma trajetória marcada pela exclusão escolar ainda na infância. Quando a mãe tentou matriculá-lo, a diretora da instituição recusou a entrada do menino sob a justificativa de que sua presença poderia chamar atenção e assustar as outras crianças, segundo relato de Paulo.
Sem acesso à educação formal naquele período, ele encontrou dentro de casa uma forma de aprender. Caçula de dez irmãos, Paulo acompanhava as aulas que a irmã, Carmen Beatriz Garcia, hoje professora aposentada, dava aos sobrinhos.
Carmen conta que colocava uma criança em cada ponta da mesa para ensinar, enquanto Paulo permanecia no chão observando. Foi dessa forma, prestando atenção às explicações, que ele começou a aprender a ler.
Vontade de estudar acompanhou Paulo durante a vida
A sobrinha Sandra Cella lembra que o tio sempre demonstrou interesse pelos estudos. Enquanto irmãos, primos e sobrinhos faziam as atividades escolares, ele permanecia por perto para aprender junto com a família.
Décadas depois de ter o acesso à escola negado, Paulo conseguiu avançar na formação acadêmica e ingressou no curso de Educação Física. Durante a graduação, a dedicação chamou a atenção dos professores.
Segundo Guilherme Gonçalves, professor do curso, Paulo manteve o comprometimento tanto nas disciplinas teóricas quanto nas atividades práticas e se tornou um exemplo para colegas e docentes.
A escolha pela Educação Física também se transformou em profissão. Antes mesmo da formatura, Paulo já trabalhava como instrutor de academia.
Formatura emocionou a família
A cerimônia de conclusão do curso ocorreu na Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre.
Para os familiares, o diploma tem um significado que ultrapassa a conclusão da faculdade. O irmão Jorge Augusto Garcia destacou que a conquista foi resultado do esforço de Paulo ao longo da vida e pode servir de incentivo para outras pessoas que enfrentam dificuldades.
Sandra também descreveu a formatura como um momento especial para toda a família. Para ela, acompanhar Paulo recebendo o diploma teve um peso diferente das demais conquistas acadêmicas familiares, justamente pelas barreiras que ele precisou enfrentar desde criança.
A história de Paulo também expõe uma realidade que ainda desafia a inclusão de pessoas com deficiência. Pesquisas recentes apontam que barreiras ambientais, sociais e pessoais continuam limitando o acesso desse público às atividades físicas e esportivas. Um estudo realizado no Rio Grande do Sul identificou, por exemplo, dificuldades relacionadas à falta de espaços adequados, oportunidades gratuitas, transporte e experiências negativas anteriores.
“Eu consegui superar muitas coisas”
Com o diploma conquistado aos 63 anos, Paulo atribui o resultado à persistência.
Ele afirma ter superado diferentes obstáculos ao longo da vida e defende que alcançar um objetivo exige disposição para enfrentar as dificuldades, em vez de esperar que as oportunidades simplesmente apareçam.
A graduação em Educação Física representa, assim, uma inversão simbólica na trajetória de Paulo Ricardo Garcia: o menino que teve negado o direito de entrar em uma sala de aula por causa de sua deficiência tornou-se, seis décadas depois, profissional de uma área dedicada ao movimento, à atividade física e à qualidade de vida.

