A médium cearense Máira Rocha tornou-se alvo de denúncias de famílias que afirmam ter encontrado, em cartas apresentadas como psicografadas, informações que já estavam disponíveis em redes sociais, reportagens e outras fontes na internet. Natural de Jati, no interior do Ceará, ela também é advogada e servidora do Ministério da Saúde e ganhou projeção nacional com as chamadas “cartas consoladoras”.
As acusações ganharam repercussão após uma investigação exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (6). O programa ouviu famílias que procuraram Máira após a morte de parentes e passaram a questionar a origem das informações apresentadas nas mensagens. Há ainda registros de denúncias envolvendo suspeitas de charlatanismo, estelionato e ameaças. As acusações estão sob apuração e não representam condenação da médium.
Máira não concedeu entrevista ao Fantástico. Após a exibição da reportagem, manifestou-se pelas redes sociais, questionou a abordagem da emissora e pediu que o público ouvisse os dois lados.
Cearense relata experiências mediúnicas desde a infância
Máira Alexandrina Rocha nasceu em Jati, município do Cariri cearense. Em palestras e aparições públicas, afirma que suas experiências com a mediunidade começaram ainda na infância.
Em um evento realizado em Franca, no interior de São Paulo, em 2019, ela contou que se comunica com espíritos desde os sete anos. Segundo seu próprio relato, cresceu em uma família formada por católicos e evangélicos e, naquele período, ainda não compreendia as experiências que dizia vivenciar.
Além da atuação como médium, Máira é formada em Direito, exerce a advocacia e é servidora do Ministério da Saúde. Com o crescimento de sua presença nas redes sociais e a realização de sessões em diferentes locais, passou a reunir um grande público interessado nas cartas atribuídas a pessoas falecidas.
No início de 2026, fundou a Casa da Caridade Inácio Daniel, em Águas Claras, no Distrito Federal. Segundo as reportagens sobre o caso, o espaço chega a atender cerca de 5 mil pessoas por mês e desenvolve atividades assistenciais e espirituais.
Famílias começaram a desconfiar das cartas
Uma das denúncias envolve a comerciante Marcela Magalhães, que perdeu o filho Henrique, de 18 anos, em um acidente de carro.
Durante uma transmissão ao vivo, Máira teria se referido ao jovem como um jogador de futebol que morreu muito cedo. A família, entretanto, afirma que Henrique nunca foi jogador profissional.
Posteriormente, Marcela encontrou uma reportagem publicada após o acidente na qual o filho aparecia usando uniforme esportivo e era descrito, de forma equivocada, justamente como jogador de futebol. Para a família, a repetição do mesmo erro na suposta mensagem psicografada levantou suspeitas de que a informação teria sido retirada da internet.
Outro caso relatado é o da empresária Marina Escames, que procurou Máira depois da morte do marido, Thiago, vítima de leucemia. Espírita kardecista, ela esperava receber uma mensagem que também pudesse ajudar o filho caçula a lidar com a perda do pai.
Com o tempo, Marina também passou a questionar a autenticidade das informações apresentadas.
Erros encontrados na internet teriam aparecido nas mensagens
Outras famílias relataram situações semelhantes. Segundo as denúncias, algumas cartas traziam nomes, profissões, apelidos, fotografias e informações familiares que podiam ser encontradas publicamente na internet.
Em determinados casos, erros presentes nas fontes on-line também teriam sido reproduzidos nas mensagens atribuídas aos mortos.
Há relatos ainda de cartas que deixavam de citar parentes próximos e mencionavam pessoas que não pertenciam à família ou relações de parentesco incorretas. Para os denunciantes, essas inconsistências reforçaram a suspeita de utilização de informações obtidas por pesquisas prévias.
Uma investigação publicada pelo Metrópoles também aponta que algumas famílias entregavam previamente informações pessoais ao centro e aguardavam semanas até receber as mensagens. Segundo relatos reunidos pelo veículo, o intervalo registrado em casos analisados variou de 21 a 68 dias. Os denunciantes suspeitam que esse período teria sido utilizado para pesquisas, hipótese que ainda precisa ser comprovada pelas investigações.
Denúncias chegaram à Federação Espírita e à polícia
As suspeitas não ficaram restritas às famílias. Denúncias foram apresentadas à Federação Espírita do Distrito Federal e também às autoridades policiais.
O presidente da Federação Espírita do Distrito Federal, Paulo Costa, confirmou ao Fantástico ter recebido relatos de pessoas que procuraram as cartas em busca de consolo e posteriormente identificaram que parte das informações poderia estar disponível em jornais, redes sociais ou outros conteúdos públicos.
Também foram registrados boletins de ocorrência relacionados a suspeitas de charlatanismo, ameaça, estelionato, calúnia e difamação. Reportagens sobre o caso mencionam ocorrências em diferentes estados.
A Polícia Civil do Distrito Federal apura denúncias relacionadas ao caso. Até o momento, as suspeitas divulgadas não equivalem a uma conclusão judicial de que Máira tenha cometido os crimes apontados.
Federação Espírita Brasileira critica comercialização ligada à mediunidade
Outro ponto levantado pelas reportagens envolve atividades realizadas pela Casa da Caridade Inácio Daniel.
Além das cartas, a instituição desenvolve ações de assistência social e recebe doações. Segundo o Fantástico, também eram realizados leilões de roupas e objetos usados por Máira durante sessões mediúnicas.
A prática foi criticada pelo presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), Jorge Godinho. Ele afirmou que a doutrina espírita não ensina nem autoriza esse tipo de leilão e defendeu que a atividade mediúnica seja exercida de maneira desinteressada.
Há também pessoas que defendem a médium
Apesar das acusações, Máira reúne seguidores e pessoas que defendem a autenticidade de seu trabalho.
Vídeos divulgados em suas redes sociais apresentam depoimentos de familiares que afirmam ter recebido mensagens contendo informações que, segundo eles, não seriam de conhecimento público.
Entre os relatos estão referências a apelidos, objetos pessoais, acontecimentos familiares e lembranças que os destinatários consideraram particulares. Esses testemunhos, porém, são relatos pessoais e não permitem, isoladamente, comprovar a origem das informações contidas nas cartas.
A controvérsia agora deverá avançar no âmbito das investigações e das denúncias apresentadas às autoridades e entidades espíritas. Enquanto famílias acusam a médium de utilizar informações disponíveis publicamente para produzir as mensagens, Máira contesta a abordagem das reportagens e mantém defensores que atribuem legitimidade ao trabalho realizado por ela.

