A divulgação de novas mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ampliou a tensão dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). O material aponta contatos e possíveis encontros entre o ex-dono do Banco Master e o ministro Alexandre de Moraes nos meses anteriores à prisão do empresário, além de pedidos de Vorcaro para tentar evitar medidas que poderiam atingir a instituição financeira.
Um dos episódios que mais chamou atenção ocorreu dois dias antes da prisão do banqueiro. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a um interlocutor apontado pela investigação como Moraes se deveria deixar o Brasil. Dois dias depois, ele foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando se preparava para viajar em um jato particular com destino a Malta.
O relatório também reúne mensagens em que Vorcaro pergunta sobre a possibilidade de uma operação policial e menciona o juiz responsável pelo caso e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Em outros diálogos, o ex-banqueiro pede que fossem acionados o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Os documentos, porém, não demonstram que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos. Também não foi possível recuperar eventuais respostas do interlocutor, já que, segundo a investigação, eram utilizadas mensagens de visualização única com capturas de textos escritos em outro aplicativo.
Mendonça quer levar caso ao plenário
O ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo, retirou o sigilo do material e defendeu que os novos elementos sejam analisados pelo plenário do STF.
Segundo Mendonça, a Corte deverá discutir de forma pública e presencial as informações apresentadas pela Polícia Federal. Caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, definir quando o assunto será incluído na pauta.
A divulgação do relatório provocou divergências dentro da própria Corte. A Procuradoria-Geral da República questionou a legalidade da apuração e pediu a nulidade da investigação relacionada a Moraes.
Paulo Gonet argumenta que uma investigação envolvendo um ministro do Supremo não poderia ter sido aprofundada por determinação individual do relator sem autorização do plenário. Para o procurador-geral, eventual apuração contra Moraes deveria ser encaminhada ao presidente da Corte para posterior deliberação dos ministros.
PF aponta encontros entre Vorcaro e Moraes
O relatório da PF também reúne elementos que indicariam pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes. O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria aparece nas mensagens como intermediário dos primeiros contatos entre os dois.
As conversas mostram Faria compartilhando contatos e ajudando a organizar reuniões. Em uma das ocasiões, Moraes teria visitado o Six Senses Botanique, hotel de luxo na região de Campos do Jordão, em São Paulo.
O material também aborda as negociações entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Um dos contratos previa pagamentos que somariam cerca de R$ 131 milhões.
Segundo a PF, metadados de uma minuta encontrada no celular de Vorcaro indicam que Moraes realizou edições no documento antes da assinatura. O escritório afirmou que o ministro foi consultado, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar a existência de eventuais impedimentos legais à contratação.
Moraes já negou ter recebido mensagens
Alexandre de Moraes já havia se manifestado anteriormente sobre mensagens atribuídas a conversas com Vorcaro. Em março, após a divulgação de outro conjunto de conteúdos, o ministro negou ter recebido as mensagens e classificou como “ilação mentirosa” a associação de seu nome aos diálogos.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também se manifestou diante das novas revelações e afirmou acompanhar o episódio com preocupação. A entidade defendeu uma apuração rigorosa e imparcial, com respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e à presunção de inocência.
Com a divulgação do relatório e a divergência sobre a própria legalidade da investigação, a discussão deverá agora avançar para o plenário do Supremo, que poderá decidir se os novos elementos permitem a abertura ou continuidade de uma investigação envolvendo Moraes.

