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    Na ONU, Lula defende soberania brasileira, rejeita interferência nas eleições e cobra reforma do sistema internacional

    By Agência Cearensesetembro 22, 2026 Brasil
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    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) utilizou o discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), em Nova York, para defender a soberania brasileira, rejeitar interferências estrangeiras nas eleições de outubro e cobrar maior respeito ao multilateralismo.

    A fala ocorreu em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos e a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro. Lula é candidato à reeleição.

    Sem citar diretamente o presidente norte-americano Donald Trump em boa parte das críticas, Lula afirmou que nenhum país deve tentar influenciar processos eleitorais de outras nações e ressaltou a capacidade do Brasil de conduzir suas próprias escolhas políticas.

    O presidente resumiu essa posição ao afirmar que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, declaração utilizada para reforçar a rejeição brasileira a qualquer forma de tutela externa.

    Lula alerta contra interferência estrangeira na eleição brasileira

    A soberania e a defesa do sistema eleitoral brasileiro estiveram entre os pontos centrais do discurso.

    Lula afirmou que o País realizará em outubro mais uma eleição democrática e sustentou que os brasileiros devem poder escolher seus representantes sem pressões externas.

    Segundo o presidente, tentativas de influenciar eleições de outros países ameaçam tanto a soberania nacional quanto a própria democracia.

    A mensagem ocorre em meio às preocupações manifestadas pelo governo brasileiro sobre a atuação internacional em torno da eleição presidencial deste ano.

    O governo Trump mantém relações políticas com setores da oposição brasileira, e o cenário eleitoral também passou a fazer parte das divergências recentes entre Brasília e Washington.

    A Associated Press destacou que o discurso ocorreu em um contexto no qual o governo norte-americano demonstra apoio político ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário eleitoral de Lula neste momento.

    Lula, entretanto, não transformou o discurso na ONU em uma manifestação eleitoral direta contra o candidato.

    A abordagem foi construída em torno da defesa geral de eleições livres e da não interferência de governos estrangeiros em processos políticos domésticos.

    Presidente diz que sistema eleitoral brasileiro é seguro

    Lula também reiterou sua confiança no sistema de votação brasileiro.

    Segundo o presidente, o Brasil possui instituições capazes de assegurar eleições livres, transparentes e legítimas e não precisa de tutela externa sobre seu processo democrático.

    Ele também associou ameaças à democracia à disseminação de desinformação e ao uso de novas tecnologias para manipular a opinião pública.

    A Reuters registrou que Lula caracterizou a eleição deste ano como um momento de escolha política importante para o País e alertou contra campanhas de desinformação e ações externas destinadas a influenciar o eleitorado.

    Discurso ocorre em meio à tensão com Trump

    A fala brasileira ganhou peso adicional porque Lula foi seguido na tribuna justamente por Donald Trump.

    Pela tradição da Assembleia Geral, mantida desde 1955, o Brasil é o primeiro país a discursar na abertura do debate geral. Em seguida, fala o presidente dos Estados Unidos, país anfitrião da sede da ONU.

    Nos últimos meses, os governos brasileiro e norte-americano acumulam divergências em temas comerciais, políticos e diplomáticos.

    Entre os pontos de tensão estão medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos, críticas do governo Trump a decisões tomadas por instituições brasileiras e divergências sobre a condução de questões políticas internas do Brasil.

    Na véspera do discurso, Lula já havia pedido publicamente que os Estados Unidos não interferissem nas eleições brasileiras e defendido uma relação internacional baseada em respeito recíproco.

    Crime organizado também entra no discurso

    Lula dedicou parte de sua fala ao combate ao crime organizado.

    O tema ganhou relevância nas relações entre Brasília e Washington após os Estados Unidos adotarem medidas relacionadas à classificação de organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.

    Lula rejeitou a ideia de que o enfrentamento às facções brasileiras justifique algum tipo de intervenção externa.

    Segundo ele, o Brasil possui instituições e forças de segurança responsáveis por combater as organizações criminosas dentro do território nacional.

    O presidente defendeu, porém, maior cooperação internacional.

    Entre as medidas mencionadas estão o bloqueio do fluxo internacional de dinheiro ilícito, o combate ao tráfico de armas e a troca de informações entre autoridades de diferentes países.

    A posição defendida por Lula é de que o crime organizado possui redes transnacionais e precisa de cooperação internacional, mas sem que isso seja utilizado como justificativa para intervenção sobre a soberania dos países.

    Lula critica imobilismo do Conselho de Segurança

    Outro eixo importante do discurso foi a crise do sistema multilateral.

    Lula afirmou que a Organização das Nações Unidas enfrenta perda de credibilidade diante da incapacidade de impedir ou encerrar conflitos armados.

    O presidente voltou a defender uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, argumento apresentado pelo Brasil há anos.

    Na avaliação brasileira, a atual composição do órgão ainda reflete a configuração política surgida após a Segunda Guerra Mundial e não representa adequadamente o equilíbrio econômico e geopolítico do século XXI.

    Lula defende a ampliação do número de membros permanentes, com maior presença de países da América Latina, África e outras regiões atualmente sem representação permanente.

    O Brasil também reivindica historicamente um assento permanente no Conselho.

    Presidente diz que diplomacia deve substituir guerras

    Ao tratar dos conflitos internacionais, Lula voltou a apresentar a diplomacia e a negociação como alternativas às soluções militares.

    O presidente afirmou que o aumento do número de guerras demonstra uma crise da política internacional e uma perda de capacidade das instituições multilaterais.

    Para ele, a guerra representa o fracasso do diálogo e da própria política.

    Lula também mencionou iniciativas diplomáticas apoiadas pelo Brasil, incluindo o chamado Grupo de Amigos da Paz, criado para tentar estimular uma solução negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia.

    Gaza volta a ser tema do discurso brasileiro

    A guerra no Oriente Médio também ocupou espaço na fala.

    Lula voltou a fazer críticas à atuação de Israel na Faixa de Gaza, denunciou a situação humanitária da população palestina e defendeu a criação de um Estado palestino independente ao lado de Israel.

    O presidente também criticou os ataques à atuação de organismos internacionais, incluindo o Tribunal Penal Internacional.

    Para o governo brasileiro, uma solução política baseada em dois Estados continua sendo a alternativa para uma paz duradoura entre israelenses e palestinos.

    A posição brasileira sobre Gaza tem sido alvo de críticas do governo israelense, enquanto Lula mantém o argumento de que violações do direito internacional precisam ser denunciadas independentemente do país responsável.

    Cuba e sanções internacionais

    Lula também voltou a criticar as sanções aplicadas a Cuba.

    O Brasil defende há anos o fim do embargo econômico norte-americano à ilha e costuma votar nas Nações Unidas contra a manutenção das restrições.

    No discurso desta terça, o presidente voltou a questionar a utilização de sanções unilaterais como ferramenta de pressão política internacional.

    Para Lula, medidas desse tipo frequentemente atingem mais a população dos países sancionados do que seus governos.

    Regulação das redes sociais e inteligência artificial

    Outro tema abordado foi a transformação provocada pelas plataformas digitais e pela inteligência artificial.

    Lula defendeu que as grandes empresas de tecnologia estejam sujeitas às legislações nacionais e não funcionem acima das regras definidas democraticamente por cada país.

    O presidente voltou a relacionar a falta de regulamentação do ambiente digital a problemas como desinformação, violência contra mulheres, exposição de crianças e adolescentes e uso indevido de conteúdos produzidos por artistas e criadores.

    A inteligência artificial também entrou no discurso.

    Lula defendeu mecanismos de governança que permitam aproveitar os benefícios dessas tecnologias sem deixar decisões estratégicas concentradas exclusivamente nas grandes empresas privadas.

    Meio ambiente e redução do desmatamento

    Na área ambiental, Lula apresentou resultados do Brasil no combate ao desmatamento e voltou a cobrar maior responsabilidade dos países desenvolvidos no financiamento da transição climática.

    O governo brasileiro tem defendido que as economias historicamente responsáveis pela maior parcela das emissões de gases de efeito estufa contribuam financeiramente para que países em desenvolvimento possam preservar florestas e substituir fontes poluentes de energia.

    Lula também ressaltou a posição brasileira na produção de energia renovável e biocombustíveis.

    A preservação da Amazônia voltou a ser apresentada como compromisso brasileiro, mas o presidente também reforçou que o País não abre mão da soberania sobre seu território e seus recursos naturais.

    Lula destaca inclusão social e combate à desigualdade

    O presidente também levou à ONU algumas das principais bandeiras sociais de seu governo.

    Lula associou o fortalecimento da democracia à capacidade de reduzir desigualdades e ampliar direitos básicos como alimentação, emprego, saúde, educação e moradia.

    Segundo ele, instituições democráticas perdem legitimidade quando parcelas expressivas da população não conseguem ter acesso às condições mínimas de uma vida digna.

    O presidente também mencionou instrumentos de inclusão financeira brasileiros, incluindo o Pix, ao defender políticas capazes de democratizar o acesso ao sistema econômico.

    Brasil faz tradicional abertura do debate geral

    A Assembleia Geral reúne representantes dos 193 países integrantes das Nações Unidas.

    O debate geral da 81ª sessão ocorre entre os dias 22 e 28 de setembro, em Nova York. O tema escolhido para este ano é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

    O Brasil tradicionalmente abre a sequência de discursos dos chefes de Estado e de governo.

    Depois de Lula, Donald Trump subiu à tribuna representando os Estados Unidos.

    A proximidade dos dois discursos ganhou atenção especial diante das atuais divergências entre os dois governos e do contexto eleitoral brasileiro.

    Trump faz discurso logo depois de Lula

    Trump utilizou sua fala para apresentar as prioridades de sua política externa e voltou a defender uma atuação internacional fortemente baseada nos interesses norte-americanos.

    Entre os temas abordados pelo presidente dos Estados Unidos estiveram a situação do Irã, o combate ao narcotráfico e às organizações criminosas da América Latina, Cuba e Venezuela.

    As diferenças entre as duas falas ficaram especialmente evidentes na forma de abordar soberania e segurança.

    Enquanto Lula defendeu cooperação internacional sem intervenção externa, Trump ressaltou a disposição dos Estados Unidos de utilizar seus próprios instrumentos — inclusive militares, quando considerar necessário — para proteger os interesses do país.

    Eleição brasileira amplia dimensão política do discurso

    O pronunciamento desta terça tem um contexto diferente das participações anteriores de Lula na ONU.

    O primeiro turno das eleições brasileiras ocorrerá em 4 de outubro, apenas 12 dias depois da abertura da Assembleia Geral.

    Por isso, embora grande parte da fala tenha abordado temas tradicionais da política externa brasileira, como reforma da ONU, combate à desigualdade, meio ambiente e solução pacífica de conflitos, a defesa da soberania ganhou uma ligação direta com o processo eleitoral em andamento.

    A Reuters e a Associated Press destacaram justamente esse aspecto ao analisar o discurso: Lula procurou enviar uma mensagem de que a eleição brasileira deve ser decidida pelos eleitores do País, sem interferência de governos estrangeiros.

    Ao final, a mensagem central apresentada pelo presidente combinou dois conceitos recorrentes na política externa brasileira: soberania e multilateralismo.

    Lula defendeu que o Brasil preserve autonomia para tomar suas próprias decisões internas ao mesmo tempo em que participe de instituições internacionais e procure soluções coletivas para problemas que ultrapassam fronteiras, como guerras, mudanças climáticas, inteligência artificial e crime organizado.

    No momento em que o País entra na reta final da disputa presidencial e enfrenta divergências com Washington, a defesa de que as eleições brasileiras sejam decididas exclusivamente pelos brasileiros tornou-se um dos principais recados de sua décima participação na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas.

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