O empresário cearense Geovanni Rodrigues, de 43 anos, está entre os milhões de clientes que perderam temporariamente o acesso ao dinheiro depositado no Ueno Bank após a intervenção da instituição pelo Banco Central do Paraguai.
Com cerca de 2 milhões de guaranis — aproximadamente R$ 1,8 mil — na conta, ele afirma que não consegue consultar o saldo nem realizar transferências desde que o banco entrou em processo de resolução.
Morador de Foz do Iguaçu, no Paraná, e proprietário de uma pizzaria em Ciudad del Este, no Paraguai, Geovanni relata que a crise desencadeou um ambiente de forte insegurança entre os paraguaios, com clientes retirando dinheiro de outras instituições por receio de novos problemas no sistema financeiro.
Até o momento, porém, as autoridades paraguaias não anunciaram intervenção ou fechamento de outros bancos.
A crise do Ueno começou depois que o Banco Central do Paraguai identificou um nível de solvência inferior à metade do mínimo legal exigido. As operações da instituição foram suspensas e milhões de contas ficaram temporariamente inacessíveis.
Cearense tinha cerca de R$ 1,8 mil na conta
Geovanni deixou o Ceará há oito anos para estudar Medicina no Paraguai.
Atualmente, além da atividade médica, administra uma pizzaria em Ciudad del Este e trabalha com importação de perfumes e relógios de luxo.
Ele conta que utilizava o Ueno Bank, mas mantinha relacionamento também com outras duas instituições financeiras.
Por isso, embora tenha dinheiro bloqueado, sua situação é diferente da de clientes que concentravam salários, economias ou recursos empresariais exclusivamente no banco.
Na conta do Ueno, Geovanni calcula ter aproximadamente 2 milhões de guaranis.
O aplicativo, entretanto, deixou de permitir até mesmo a visualização do valor.
Na tela, aparece apenas uma mensagem informando que não é possível exibir o saldo e pedindo que o usuário tente novamente mais tarde.
‘Todo mundo desesperado’, relata empresário
Segundo Geovanni, os sinais de desconfiança em relação ao Ueno já circulavam havia meses entre clientes no Paraguai.
Com o fechamento da instituição, o receio se espalhou para o restante do sistema financeiro.
O empresário afirma ter observado pessoas retirando dinheiro de outras instituições por medo de que novos bancos também enfrentem problemas.
Filas foram registradas em Ciudad del Este e em outras cidades do país.
Vídeos publicados nas redes sociais ampliaram a tensão ao mostrar clientes em agências, caixas eletrônicos e pontos de atendimento.
Parte das publicações também passou a espalhar rumores sobre supostos problemas em outras instituições.
Até a última atualização, não havia confirmação do Banco Central de que outros bancos paraguaios estivessem em situação semelhante à do Ueno.
Filas aparecem em diferentes bancos
A preocupação não ficou restrita aos antigos clientes do Ueno.
Filas também foram registradas em agências de bancos como Familiar e Itaú, além de pontos de grande circulação comercial em Ciudad del Este.
O movimento decorre principalmente do temor de correntistas que decidiram aumentar a quantidade de dinheiro mantida em espécie.
A crise também provocou sobrecarga em serviços digitais.
Em alguns momentos, clientes de outras instituições relataram dificuldade de acesso a aplicativos, o que alimentou novos rumores.
Especialistas e autoridades, no entanto, alertam que instabilidades de aplicativos não significam necessariamente problemas de solvência.
Ueno tinha quase 3 milhões de clientes
O tamanho da instituição explica a dimensão do impacto.
O Ueno Bank informava possuir aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes.
Nos últimos anos, tornou-se um dos principais bancos digitais do Paraguai e ampliou rapidamente a participação no mercado.
O crescimento foi acompanhado também por forte presença de recursos de órgãos públicos.
A instituição administrava centenas de milhões de dólares relacionados a entidades estatais, incluindo fundos previdenciários e de saúde.
Quando o Banco Central anunciou a intervenção, a crise deixou de ser apenas um problema bancário e passou a produzir consequências econômicas e políticas em todo o país.
Banco Central encontrou insuficiência grave de capital
O processo de resolução foi determinado após uma análise da situação financeira do Ueno.
Segundo o Banco Central do Paraguai, o índice de solvência ficou abaixo de 50% do mínimo exigido pela regulamentação.
A solvência representa, em termos gerais, a capacidade de uma instituição financeira de possuir patrimônio suficiente para absorver perdas e continuar cumprindo suas obrigações.
Quando esse nível cai de forma acentuada, aumenta o risco para depositantes e para o próprio sistema financeiro.
O Banco Central afirmou que a medida foi necessária para proteger clientes e preservar a estabilidade do mercado.
Revisão encontrou problemas em ativos e créditos
Avaliações divulgadas depois da intervenção também apontaram fragilidades na qualidade de ativos da instituição.
A agência FIX SCR informou que a investigação do regulador identificou operações de crédito com empresas vinculadas ao grupo controlador que não teriam sido devidamente reveladas.
Também foram apontadas deficiências na documentação de determinadas operações.
Esses elementos passaram a integrar as investigações abertas depois da crise.
Dirigentes do banco são alvo de medidas judiciais.
A apuração ainda está em andamento, e as responsabilidades individuais serão definidas pelas autoridades paraguaias.
Clientes ficaram sem poder usar o próprio dinheiro
Na prática, a intervenção atingiu diretamente a vida cotidiana dos correntistas.
Salários, economias, valores utilizados por empresas e recursos pessoais ficaram temporariamente indisponíveis.
Clientes relatam não conseguir realizar transferências, pagamentos ou saques normalmente.
A situação levou milhares de pessoas a procurar informações sobre quando poderão receber os valores.
Para quem utilizava o Ueno como único banco, o problema foi ainda maior.
Cerca de 260 mil usuários não possuíam conta ativa em outra instituição, segundo informações divulgadas no Paraguai.
Banco Central começa a devolver parte dos recursos
O Banco Central anunciou nesta semana o início do pagamento das garantias de depósitos.
Nesta primeira etapa, clientes elegíveis poderão receber até 10 milhões de guaranis, equivalentes a aproximadamente US$ 1,5 mil.
Quem possuir depósitos inferiores a esse limite poderá receber integralmente o saldo, desde que cumpra os critérios definidos.
Para facilitar a operação, o Banco Central começou a transferir recursos para contas que os clientes possuam em outras instituições.
Pessoas que não têm outro banco precisam seguir procedimentos específicos para viabilizar o recebimento.
Geovanni pode recuperar todo o valor nesta fase
No caso do empresário cearense, o saldo relatado é inferior ao teto de 10 milhões de guaranis previsto para o primeiro pagamento.
Em princípio, portanto, os aproximadamente 2 milhões de guaranis mantidos por ele no Ueno estão dentro do limite divulgado pelo Banco Central.
O recebimento efetivo dependerá da confirmação dos dados e dos procedimentos estabelecidos pelas autoridades paraguaias.
O empresário possui contas em outros bancos, o que pode facilitar a transferência.
Fundo de garantia deve cobrir maioria dos clientes
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos destinado a proteger correntistas em casos de intervenção ou quebra de instituições financeiras.
Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades, cerca de 97% dos clientes do Ueno possuem valores que podem ser integralmente cobertos dentro dos limites legais de garantia.
A situação é mais complexa para quem mantinha quantias superiores ao teto protegido.
Esses clientes poderão depender da recuperação de ativos e do processo de resolução do banco para receber o restante.
Crise já provoca temor de efeito dominó
Embora não exista indicação oficial de quebra generalizada de bancos, o comportamento dos correntistas mostra como a confiança pode se tornar um problema para o sistema financeiro.
Bancos normalmente não mantêm todo o dinheiro dos clientes disponível fisicamente ao mesmo tempo.
Parte relevante dos recursos é utilizada em empréstimos e outras operações financeiras.
Quando grande número de correntistas decide retirar dinheiro simultaneamente por medo, pode ocorrer uma chamada corrida bancária.
Mesmo instituições saudáveis podem enfrentar dificuldades temporárias de liquidez diante de saques muito acima do normal.
É por isso que autoridades vêm tentando conter rumores sobre outras instituições.
Redes sociais ampliam ansiedade
Geovanni afirma que mensagens e vídeos circulando nas redes sociais aumentaram significativamente o nervosismo.
Alguns conteúdos apresentam filas em bancos como se fossem prova de novas quebras.
Outros afirmam, sem confirmação, que instituições diferentes do Ueno estariam com dificuldades financeiras.
O Banco Central tem reforçado que informações sobre a saúde das instituições devem ser verificadas pelos canais oficiais.
Até o momento, o Ueno continua sendo o banco submetido ao processo de resolução que desencadeou a crise atual.
Caso atingiu diretamente a política do Paraguai
O colapso bancário também mergulhou o país em uma grave crise política.
O presidente Santiago Peña apresentou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao Congresso em meio à pressão relacionada ao caso.
Peña teve participação societária no Grupo Vázquez, conglomerado ligado ao antigo controlador do Ueno, embora afirme ter vendido suas ações em março de 2025.
Ele nega ter favorecido a instituição.
A renúncia, entretanto, ainda não produziu efeitos definitivos.
A sessão do Congresso convocada para apreciá-la ficou sem quórum depois que parlamentares deixaram o plenário.
Com isso, Peña permanecia formalmente presidente até a última atualização.
Paralelamente, avança no Senado um processo de julgamento político contra ele.
Presidente do Banco Central também deixou cargo
A crise já havia provocado a saída do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo.
O vínculo profissional anterior de Carvallo com o próprio Ueno passou a ser questionado depois da intervenção.
Antes de assumir o Banco Central, ele havia exercido funções na instituição financeira.
A oposição levantou dúvidas sobre a independência da fiscalização exercida durante o período de rápido crescimento do banco.
As responsabilidades administrativas e legais ainda estão sendo investigadas.
Recursos públicos aumentaram dimensão do escândalo
Outro ponto de forte repercussão é o volume de dinheiro público relacionado à instituição.
O Ueno administrava aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em depósitos de entidades estatais.
Parte relevante estava relacionada ao Instituto de Previsión Social, responsável por aposentadorias, pensões e serviços de saúde.
A possibilidade de perda ou bloqueio prolongado desses recursos aumentou a pressão sobre o governo e o Banco Central.
As autoridades afirmam que trabalham para preservar o patrimônio público.
Executivos são investigados
A crise também entrou na esfera criminal.
Executivos e pessoas ligadas à administração do Ueno passaram a ser investigados por promotores paraguaios.
Medidas cautelares foram impostas contra dirigentes e empresas vinculadas ao banco.
O Banco Central conseguiu ainda bloqueios preventivos de bens para tentar impedir a dissipação de patrimônio que eventualmente possa ser usado na recomposição de perdas.
As investigações analisam operações de crédito, registros contábeis e relações entre empresas do grupo.
Ciudad del Este sente crise de forma particular
O impacto é especialmente perceptível em Ciudad del Este, onde Geovanni mantém sua empresa.
A cidade é um dos principais centros comerciais do Paraguai e possui forte integração econômica com o Brasil.
Milhares de brasileiros atravessam diariamente a fronteira por turismo, compras, trabalho ou estudo.
Empresas locais dependem intensamente do sistema bancário para pagamentos, importações e movimentação de mercadorias.
Uma crise financeira dessa dimensão afeta, portanto, não apenas correntistas individuais, mas também a atividade econômica da região da tríplice fronteira.
Brasileiros também estão entre os atingidos
O caso de Geovanni mostra que os efeitos do Ueno ultrapassam a população paraguaia.
Brasileiros que vivem, estudam, trabalham ou mantêm negócios no país também utilizavam os serviços da instituição.
Ciudad del Este concentra uma numerosa comunidade brasileira e possui relações comerciais intensas com Foz do Iguaçu.
Ainda não existe um levantamento público sobre quantos brasileiros possuem dinheiro bloqueado no banco.
Empresário diz que já desconfiava da instituição
Geovanni afirma que havia percebido sinais de desconfiança entre clientes cerca de seis meses antes da intervenção.
Segundo ele, comentários sobre o banco já circulavam entre moradores e empresários.
Mesmo assim, continuou mantendo uma pequena parcela de seus recursos na instituição.
O fato de utilizar outros bancos reduziu o impacto financeiro imediato.
Para clientes que dependiam exclusivamente do Ueno, porém, a situação é mais delicada.
Crise é também uma crise de confiança
A tentativa das autoridades agora é impedir que o problema de uma instituição contamine a percepção sobre todo o sistema financeiro.
O início do pagamento das garantias é considerado uma das ferramentas mais importantes nesse processo.
Ao mostrar que os clientes protegidos conseguirão recuperar o dinheiro, o Banco Central tenta reduzir o incentivo para que correntistas de outros bancos façam retiradas precipitadas.
Para empresários como Geovanni, entretanto, a normalização ainda depende de algo básico: voltar a ter acesso ao saldo que aparece bloqueado desde o início da semana.
Enquanto isso, a cena relatada por ele resume a dimensão da crise no Paraguai: um banco com milhões de clientes deixa de liberar os depósitos e, em poucos dias, o medo leva correntistas a formar filas também diante de instituições que não estão sob intervenção.

