O cinema cearense alcançou um feito inédito. “Feito Pipa”, dirigido pelo cineasta Allan Deberton e rodado em Quixadá, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.
É a primeira vez que uma produção cearense é selecionada oficialmente para defender o País na corrida pela principal premiação do cinema mundial. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (16).
A escolha coloca o longa na sequência de dois títulos brasileiros que tiveram forte repercussão internacional: “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, representantes do Brasil nas duas edições anteriores.
Filme foi escolhido entre seis finalistas
Ao todo, 15 longas brasileiros foram inscritos e habilitados para participar do processo de seleção realizado pela Academia Brasileira de Cinema. Seis chegaram à etapa final.
Além de “Feito Pipa”, estavam na disputa:
- “100 Dias”, de Carlos Saldanha;
- “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai;
- “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo;
- “Nosso Segredo”, de Grace Passô;
- “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.
A decisão ficou a cargo de uma comissão formada por 15 profissionais do audiovisual, incluindo diretores, produtores, atores, músicos, curadores e distribuidores.
História nasce no interior do Ceará
“Feito Pipa” acompanha Gugu, menino de 11 anos interpretado por Yuri Gomes, que vive com a avó Dilma, personagem de Teca Pereira, no sertão cearense.
Quando a saúde da avó começa a se fragilizar, Gugu tenta esconder a situação para evitar ser separado dela e enviado para morar com o pai, Batista, vivido por Lázaro Ramos. O elenco também conta com Carlos Francisco.
O filme aborda amadurecimento, relações familiares, pertencimento, afeto e preconceito a partir da experiência de uma criança que tenta preservar o espaço onde se sente acolhida.
O roteiro, escrito por Allan Deberton e André Araújo, nasceu também de lembranças da infância dos dois em Russas, no interior do Ceará. A produção foi filmada em Quixadá, utilizando a paisagem do Sertão Central como parte fundamental de sua identidade visual e narrativa.
Allan Deberton consolida trajetória no cinema nacional
A escolha também representa um novo marco na carreira do diretor cearense Allan Deberton.
O cineasta já havia alcançado projeção nacional e internacional com produções ambientadas no Ceará e construiu uma filmografia marcada por histórias ligadas ao território, à diversidade e às relações familiares.
Com “Feito Pipa”, Deberton leva agora uma produção rodada no Sertão Central para a principal corrida cinematográfica do mundo.
Filme já conquistou prêmios internacionais
A trajetória de “Feito Pipa” antes mesmo da estreia comercial brasileira ajuda a explicar a força da candidatura.
O longa teve sua estreia mundial em fevereiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, um dos eventos cinematográficos mais importantes do mundo.
Na Alemanha, venceu o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem, além do Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus.
Depois, o ator Yuri Gomes conquistou o prêmio de Melhor Interpretação no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia.
A produção também recebeu dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México.
Destaque também no Festival de Gramado
Em agosto, “Feito Pipa” chegou ao Festival de Gramado como uma das produções mais aguardadas da edição e saiu como o filme mais premiado da competição brasileira.
Entre os reconhecimentos obtidos estava o prêmio de direção para Allan Deberton, ampliando a trajetória de premiações construída desde a estreia em Berlim.
Com isso, o longa chegou à seleção brasileira para o Oscar já respaldado por uma carreira sólida em festivais nacionais e internacionais.
Escolha brasileira ainda não significa indicação ao Oscar
Apesar da importância do anúncio, “Feito Pipa” ainda não está oficialmente indicado ao Oscar.
Cada país pode escolher um filme para disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional. A produção brasileira será agora submetida à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pelo Oscar.
Depois da avaliação das produções enviadas por diferentes países, a Academia norte-americana selecionará os títulos que avançam na disputa até chegar aos indicados oficiais.
A lista definitiva de indicados ao Oscar 2027 está prevista para ser anunciada em 21 de janeiro de 2027. A cerimônia da 99ª edição do prêmio será realizada em 14 de março de 2027.
Exibições no Ceará ajudam a cumprir exigência do Oscar
Embora a estreia nacional de “Feito Pipa” esteja marcada apenas para 5 de novembro, o longa começou a ser exibido antecipadamente em cidades cearenses.
A produção está em cartaz em Quixadá, onde foi filmada, e passou a ter sessões também em Juazeiro do Norte.
As exibições fazem parte da estratégia necessária para cumprir as regras de elegibilidade do Oscar. Para participar da disputa, o filme precisa ter uma temporada comercial mínima dentro do prazo estabelecido pela Academia.
Distribuição internacional já avança
A carreira internacional da produção também vem sendo ampliada.
Nesta semana, “Feito Pipa” fechou acordo de vendas internacionais com a M-Appeal e já tem distribuição garantida em mercados como Dinamarca, Bélgica, Holanda, Espanha, Indonésia, Argentina e Colômbia.
Um dos próximos desafios será ampliar a presença do filme nos Estados Unidos. A produção ainda busca uma estrutura de distribuição no mercado norte-americano, considerada importante para sustentar uma campanha competitiva junto aos votantes do Oscar.
Produção teve apoio de políticas públicas para o audiovisual
“Feito Pipa” também contou com recursos e mecanismos públicos de incentivo ao audiovisual.
Segundo o Ministério da Cultura, o projeto recebeu apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), da PNAB Ceará, do Governo do Ceará, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Ministério da Cultura.
A participação desses mecanismos reforça o papel das políticas de financiamento e fomento na viabilização de produções brasileiras capazes de alcançar festivais e mercados internacionais.
Um marco para o audiovisual cearense
Independentemente do resultado da próxima etapa, a escolha já representa um momento histórico para o cinema produzido no Ceará.
Pela primeira vez, uma obra cearense ocupa oficialmente a posição de representante brasileiro na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional.
Filmado no Sertão Central, construído a partir de referências e memórias do interior cearense e conduzido por profissionais do Estado, “Feito Pipa” chega à disputa depois de passar por Berlim, Cartagena, Guadalajara e Gramado.
Agora, o longa tenta transformar uma trajetória já premiada em mais um capítulo histórico: colocar uma produção cearense entre os indicados ao Oscar.

