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    Por que Mianmar está bombardeando o próprio território

    By Agência Cearenseabril 1, 2025 Mundo
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    A imagem mostra uma estrutura de madeira e metal com o telhado danificado, parcialmente desmoronado. O interior está desorganizado, com objetos espalhados e uma parede de tijolos visível. O ambiente ao redor parece desolado, com árvores ao fundo e um céu nublado.
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    A junta militar de Mianmar continuou a bombardear partes do país devastado pela guerra após o grande terremoto que matou mais de 2.000 pessoas, segundo as estimativas oficiais.

    A ONU (Organização das Nações Unidas) descreveu os ataques como “completamente ultrajantes e inaceitáveis“.

    O relator especial Tom Andrews disse à BBC ser inacreditável que os militares continuem a “lançar bombas” quando há tentativas de resgatar pessoas após o terremoto.

    Andrews apelou ao regime militar, que tomou o poder em um golpe há quase quatro anos, para interromper todas as operações militares.

    “Qualquer pessoa que tenha influência sobre os militares precisa aumentar a pressão e deixar bem claro que isso não é aceitável”, disse. “Estou pedindo à junta que pare, pare qualquer uma de suas operações militares.”

    A BBC mianmarense confirmou que sete pessoas foram mortas em um ataque aéreo em Naungcho, no norte do estado de Shan. Esse ataque ocorreu por volta das 15h30 locais (6h30 em Brasília), na sexta-feira (28), menos de três horas após o terremoto.

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    Os militares de Mianmar também realizaram ataques terrestres na região de Sagaing, atingida pelo terremoto, nesta segunda-feira (31), de acordo com os rebeldes.

    Um porta-voz das Forças de Defesa do Povo de Chaung U disse à BBC que eles foram alvos de pesados bombardeios de morteiros. Os rebeldes relataram cinco comboios militares na área.

    Isso ocorre em um momento em que os trabalhadores de socorro e resgate do terremoto na região estão lutando com uma séria falta de recursos.

    Grupos rebeldes pró-democracia que estão lutando para remover os militares leais ao governo também relataram bombardeios aéreos no município de Chang-U, na região noroeste de Sagaing, epicentro do terremoto. Também há relatos de ataques aéreos em regiões próximas à fronteira com a Tailândia.

    Os militares também continuaram a realizar ataques aéreos nesta segunda em outras partes do país em sua tentativa de esmagar a revolta nacional pró-democracia que está lutando para removê-los do poder.

    O Governo de Unidade Nacional (NUG), que representa a administração civil deposta, disse em comunicado que suas forças iniciariam uma pausa de duas semanas em “operações militares ofensivas, exceto para ações defensivas” em áreas afetadas pelo terremoto, a partir de domingo.

    O terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Sagaing também foi sentido em países vizinhos. Foi seguido por relatos de destruição vindos de Mandalay, a segunda maior cidade de Mianmar, bem como da capital, Nay Pyi Taw, que fica a mais de 241 km de distância.

    A junta diz que 2.056 pessoas morreram, mais de 3.900 ficaram feridas e ainda há 270 desaparecidos. A reportagem não pôde verificar esses números de forma independente.

    A BBC foi informada de que o forte cheiro dos cadáveres sob os escombros está impregnando as ruas enquanto as temperaturas atingem 40°C em Mandalay, na região central do país.

    O Serviço Geológico dos EUA disse na sexta (28) que “um número de mortos acima de 10 mil é uma forte possibilidade” com base na localização e no tamanho do terremoto.

    O terremoto ocorre após quatro anos de guerra civil em Mianmar, que se seguiram a um golpe militar em 2021. O golpe desencadeou enormes protestos, com milhares de pessoas indo às ruas diariamente, exigindo a restauração do governo civil.

    O que inicialmente começou como uma campanha de desobediência civil, logo evoluiu para uma insurgência generalizada envolvendo grupos rebeldes étnicos e pró-democracia —o que desencadeou uma guerra civil total.

    Quatro anos depois, os combates violentos continuaram entre os militares, de um lado, e os exércitos étnicos e grupos de resistência armada, do outro.

    A junta militar, que sofreu derrotas contínuas e humilhantes e perdeu vastas faixas de território, está cada vez mais contando com ataques aéreos para esmagar a resistência ao seu regime.

    Grandes partes da região de Sagaingue, o epicentro do terremoto, estão agora sob o controle de grupos de resistência pró-democracia.

    Uma investigação da BBC revelou que quase quatro anos após tomar o poder em um golpe, os militares agora controlam menos de um quarto do país.

    A investigação revelou que exércitos étnicos e uma colcha de retalhos de grupos de resistência agora controlam 42% do território, enquanto grande parte da área restante permanece sob contestação.

    É no combate aéreo que o regime militar tem a vantagem. Os grupos de resistência não têm capacidade de revidar no ar.

    Os militares têm um histórico de realizar bombardeios aéreos indiscriminados que destruíram escolas, mosteiros, igrejas e hospitais. Em um dos ataques aéreos mais mortais, mais de 170 pessoas morreram, incluindo muitas mulheres e crianças.

    O órgão da ONU que investiga violações de direitos humanos no país alertou que a junta militar está cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra seu próprio povo.

    A guerra aérea dos militares está sendo sustentada pelo apoio contínuo da Rússia e da China. Apesar dos apelos da ONU por um embargo de armas em resposta ao golpe, esses dois países venderam à junta sofisticados jatos de ataque e forneceram treinamento sobre como usá-los.

    A Rússia e a China também enviaram equipes de ajuda e resgate para Mianmar. Mas a ativista de direitos humanos birmanesa baseada no Reino Unido Julie Khine disse: “É difícil confiar na simpatia agora, quando eles também são os mesmos países que fornecem à junta militar armas mortais usadas para matar nossos civis inocentes.”

    Há também uma preocupação generalizada de que os militares usarão ajuda como arma na guerra civil. Os militares de Mianmar têm uma prática de negar ajuda a áreas onde grupos de resistência estão ativos.

    Tom Andrews, da ONU, disse à BBC que, durante os esforços de socorro anteriores, os militares bloquearam a ajuda e prenderam trabalhadores humanitários.

    “O que sabemos de desastres humanitários anteriores e desastres naturais, é que a junta não revela a verdade. Ela também tem o hábito de impedir que a ajuda humanitária chegue onde é mais necessária”, disse ele.

    “Eles transformam essa ajuda em arma. Eles a enviam para as áreas que controlam e a negam para as áreas que não controlam.”

    “Então você tem áreas nas quais as necessidades mais agudas existem e você tem literalmente ajuda tentando entrar, caminhões bloqueando o caminho, pessoas sendo presas e esse tem sido o padrão de sua resposta a desastres naturais no passado.”

    “Receio que esteja esperando que esse seja o caso com este desastre.”

    Fonte Matéria

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