O senador Flávio Bolsonaro utilizou recursos públicos do Senado Federal para custear uma viagem a São Paulo logo após a soltura do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo de investigações da Polícia Federal. As informações constam no Portal da Transparência do Senado e aumentam a pressão política sobre o pré-candidato do PL à Presidência da República.
A viagem ocorreu em 29 de novembro de 2025, apenas um dia depois de Vorcaro deixar a prisão por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Na ocasião, o empresário passou a cumprir prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica e restrições judiciais que o impediam de sair do estado paulista.
Segundo os registros oficiais, Flávio embarcou de Brasília para Congonhas em voo da Latam às 11h40, com passagem custeada pela Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAPS), no valor de R$ 2.216,77. No mesmo dia, retornou à capital federal em voo da Azul, também pago com recursos públicos, ao custo de R$ 413,22.
A existência do encontro já havia sido admitida pelo próprio senador. Em entrevista coletiva nesta terça-feira (19), Flávio confirmou que foi até a residência de Vorcaro para “botar um ponto final” nas negociações envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Fui sim até o encontro dele. Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo”, declarou o senador ao justificar a visita.
O episódio gerou questionamentos sobre o uso de dinheiro público para um compromisso relacionado a um projeto privado, especialmente envolvendo um empresário investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa e invasão de dispositivos informáticos.
Os dados do Senado também mostram que Flávio realizou outras viagens a São Paulo nas semanas seguintes, igualmente ressarcidas com verba pública. Em 1º de dezembro de 2025, o parlamentar recebeu reembolso de R$ 2.919,29. Já em 4 de dezembro, outro deslocamento foi custeado em R$ 5.787,29. Houve ainda nova viagem em dezembro com ressarcimento de R$ 2.314,77.
Até agora, o senador não detalhou oficialmente quais compromissos exerceu nessas agendas nem esclareceu se os encontros estavam ligados às negociações do filme.
O caso ganhou dimensão nacional após reportagens do The Intercept Brasil revelarem mensagens e áudios nos quais Flávio cobrava repasses financeiros de Vorcaro para a produção de “Dark Horse”. Os documentos indicam que o banqueiro teria prometido cerca de US$ 24 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o longa.
Parte desses recursos já teria sido transferida. Documentos apontam repasses de aproximadamente R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas ligadas à produtora responsável pelo projeto.
A crise também passou a impactar o cenário eleitoral. Pesquisas recentes, como o levantamento da AtlasIntel encomendado pela Bloomberg, mostraram queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro após a divulgação dos áudios envolvendo Vorcaro.
Enquanto isso, as investigações continuam avançando no STF e na Polícia Federal. Vorcaro voltou a ser preso em março de 2026 por decisão do ministro André Mendonça, sob alegação de risco de interferência nas apurações. Segundo investigadores, o ex-banqueiro negocia atualmente um acordo de delação premiada.

