O eclipse solar total desta quarta-feira (12) não será apenas um espetáculo no céu da Europa. O fenômeno também representa uma oportunidade rara para pesquisadores estudarem o Sol e os efeitos provocados pela redução repentina da radiação solar na atmosfera terrestre.
A faixa de totalidade atravessa regiões do Ártico, Groenlândia, Islândia e Espanha, chegando ainda ao extremo nordeste de Portugal. O ponto de maior duração terá aproximadamente 2 minutos e 18 segundos de escuridão total.
Durante esse curto intervalo, a Lua bloqueia a parte mais brilhante do Sol e permite aos cientistas observar com maior precisão estruturas que normalmente ficam ofuscadas. Entre os principais alvos das pesquisas está a coroa solar, camada mais externa da atmosfera do Sol.
Cientistas querem entender melhor a coroa solar
Um dos grandes interesses científicos nos eclipses totais está justamente na possibilidade de analisar a coroa.
Embora instrumentos espaciais consigam produzir eclipses artificiais para estudá-la, a ocultação natural provocada pela Lua permite observar regiões muito próximas da superfície aparente do Sol.
A coroa solar está diretamente relacionada a fenômenos como o vento solar e as ejeções de massa coronal, que podem lançar grandes quantidades de partículas carregadas em direção ao espaço.
Compreender melhor esses processos também é importante para estudar o chamado clima espacial, capaz de interferir em satélites, comunicações e outros sistemas tecnológicos na Terra.
NASA vai observar eclipse a 15 quilômetros de altitude
Para aproveitar o fenômeno, a NASA preparou uma operação especial com um avião de pesquisa WB-57, que acompanhará o eclipse sobre a Espanha.
A aeronave deverá voar a mais de 15 quilômetros de altitude e utilizar câmeras de alta resolução para observar a coroa solar.
A estratégia permite reduzir a interferência da atmosfera e ampliar o período disponível para observação. Enquanto uma pessoa em terra terá poucos minutos de totalidade, o deslocamento do avião permitirá acompanhar a sombra da Lua e obter quase três minutos de observação.
A altitude também abre a possibilidade de realizar observações em comprimentos de onda infravermelhos que são mais difíceis de estudar a partir da superfície.
Globos científicos vão estudar a atmosfera
Os experimentos não estarão concentrados apenas no Sol.
Equipes de estudantes universitários participarão do lançamento de globos científicos na Islândia e na Espanha para investigar o que acontece com a atmosfera quando a radiação solar diminui abruptamente.
Na Espanha, serão lançados seis globos, equipados com câmeras de 360 graus e instrumentos capazes de realizar medições atmosféricas, incluindo os níveis de ozônio.
Na Islândia, a operação será ainda maior: cerca de 80 globos serão utilizados para estudar principalmente a chamada camada limite atmosférica, região mais próxima da superfície terrestre e diretamente influenciada pelo aquecimento provocado pelo Sol.
Eclipse permite observar como atmosfera reage à ‘noite repentina’
Para os pesquisadores, um eclipse funciona como uma espécie de experimento natural controlado.
Em condições normais, a quantidade de radiação solar recebida pela superfície muda gradualmente ao longo do dia. Durante um eclipse total, entretanto, essa energia diminui drasticamente em questão de minutos e depois retorna rapidamente.
Essa interrupção permite acompanhar como diferentes componentes da atmosfera respondem à mudança.
Entre os fenômenos investigados estão alterações de temperatura, circulação do ar e concentração de determinados gases atmosféricos.
Durante eclipses anteriores, pesquisadores já observaram mudanças nos níveis de ozônio. Os instrumentos lançados nesta quarta-feira ajudarão a verificar se o comportamento se repete no fenômeno de 2026.
Temperatura pode cair durante o fenômeno
Os efeitos do eclipse também podem ser percebidos por quem estiver em terra.
À medida que a Lua encobre o Sol, ocorre uma redução do aquecimento da superfície. Dependendo das condições meteorológicas, isso pode provocar uma queda perceptível da temperatura e alterações na circulação local do ar.
A redução repentina da luminosidade também pode modificar temporariamente o comportamento de animais e produzir mudanças perceptíveis na paisagem.
Esses efeitos tornam o eclipse interessante não apenas para astrônomos, mas também para pesquisadores das áreas de meteorologia e ciências atmosféricas.
Por que eclipses continuam importantes para a ciência?
Mesmo com telescópios espaciais e instrumentos cada vez mais sofisticados, os eclipses totais continuam oferecendo condições de observação difíceis de reproduzir.
Durante a totalidade, a Lua funciona como um enorme bloqueador natural da intensa luz do disco solar, permitindo visualizar a coroa com clareza excepcional.
A oportunidade, porém, dura pouco. No eclipse desta quarta-feira, a totalidade máxima será de cerca de 2 minutos e 18 segundos, em uma região próxima à costa da Islândia.
Por isso, pesquisadores espalharão instrumentos por diferentes pontos da trajetória e utilizarão aviões e dezenas de balões para aproveitar ao máximo cada segundo.
Assim, enquanto milhões de pessoas estarão olhando para o céu para acompanhar um dos fenômenos astronômicos mais aguardados do ano, cientistas estarão utilizando a passagem da sombra da Lua como um laboratório natural para investigar desde os mistérios da atmosfera externa do Sol até a resposta da própria atmosfera terrestre à ausência temporária de luz solar.

