Os Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para uma eleição que não escolherá presidente, mas poderá mudar significativamente o espaço político de Donald Trump nos dois últimos anos de seu mandato — e produzir reflexos também no Brasil.
As chamadas midterms, eleições de meio de mandato, renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado.
Na prática, os americanos decidirão quem controlará o Congresso.
O resultado poderá determinar a facilidade ou dificuldade de Trump para aprovar projetos relacionados a impostos, gastos públicos, desregulamentação e outras medidas econômicas.
Para o Brasil, os efeitos podem chegar principalmente por dois caminhos: a cotação do dólar e os juros dos títulos públicos norte-americanos.
Mudanças nesses mercados influenciam o fluxo de dinheiro para países emergentes, as taxas de juros negociadas no Brasil e até as expectativas em relação à Selic.
As eleições também acontecem poucos dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e em um momento de incertezas na relação política e comercial entre Brasília e Washington.
Eleição: terça-feira, 3 de novembro
Câmara: todas as 435 cadeiras em disputa
Senado: 35 das 100 vagas
Presidência: não está em disputa
O que está em jogo: controle do Congresso e capacidade de Trump de aprovar sua agenda
Por que a eleição acontece no meio do mandato?
Nos Estados Unidos, os deputados da Câmara têm mandatos de apenas dois anos.
Por isso, todas as 435 cadeiras são colocadas novamente em disputa no meio de cada mandato presidencial.
Os senadores possuem mandatos de seis anos. A cada dois anos, aproximadamente um terço das 100 cadeiras do Senado é renovado.
As midterms funcionam, portanto, como uma espécie de teste político para o presidente que está na Casa Branca.
Trump não aparece na cédula, mas boa parte da eleição se transformou em uma avaliação de seu segundo mandato.
Democratas tentam tirar dos republicanos o controle do Congresso
Atualmente, os republicanos possuem maioria estreita no Congresso.
Os democratas tentam conquistar ao menos uma das duas Casas.
As projeções divulgadas às vésperas da votação indicam melhores perspectivas para os democratas na Câmara dos Representantes.
O Senado apresenta disputa mais equilibrada.
O modelo estatístico do The Economist citado pelo BTG Pactual, por exemplo, projetava 239 cadeiras para os democratas e 196 para os republicanos na Câmara.
No Senado, o cenário-base apresentado pelo banco indicava uma disputa muito mais apertada, com possibilidade de 51 cadeiras democratas e 49 republicanas.
São projeções, e não resultados. As disputas serão decididas pelos votos e algumas corridas estaduais permanecem bastante competitivas.
O que acontece se democratas ganharem as duas Casas?
Uma vitória democrata na Câmara e no Senado criaria um cenário conhecido informalmente como “onda azul”.
Trump continuaria presidente e manteria todos os poderes constitucionais do Executivo.
Mas aprovar novas leis ficaria consideravelmente mais difícil.
Os democratas poderiam controlar a pauta legislativa e as comissões do Congresso, além de aumentar a fiscalização sobre a administração.
Também poderiam barrar ou modificar propostas relacionadas a impostos e gastos.
No Senado, uma mudança de maioria teria ainda influência sobre a aprovação de pessoas indicadas pelo presidente para cargos importantes.
Isso inclui determinadas posições do governo federal, do Judiciário e do Federal Reserve, o banco central norte-americano.
E se democratas ganharem apenas a Câmara?
Também seria um obstáculo importante para Trump.
A Câmara participa da aprovação de leis e possui papel fundamental em matérias orçamentárias.
Com uma maioria democrata, o presidente dependeria de negociações com a oposição para avançar em parte de sua agenda.
Os republicanos, entretanto, manteriam o controle do Senado e continuariam influenciando fortemente a aprovação de nomeações presidenciais.
Trump também conservaria seu poder de veto sobre projetos aprovados pelo Congresso.
O resultado poderia aumentar a possibilidade de impasses entre Executivo e Legislativo.
Vitória republicana daria mais espaço a Trump
Se os republicanos preservarem a maioria na Câmara e no Senado, Trump teria condições políticas mais favoráveis para tentar avançar com sua agenda nos dois anos finais do mandato.
Entre as propostas acompanhadas pelos investidores estão novos cortes de impostos, desregulamentação e mudanças na política comercial.
A questão central para os mercados é o possível impacto dessas medidas sobre as contas públicas e a inflação dos Estados Unidos.
Caso investidores concluam que uma determinada política ampliará excessivamente o déficit público norte-americano, podem exigir juros maiores para financiar a dívida do país.
É justamente aí que uma eleição nos Estados Unidos começa a afetar diretamente o Brasil.
Como as midterms podem mexer com o Brasil?
O principal canal está nos títulos do Tesouro norte-americano.
Esses papéis são considerados uma das referências mais importantes do mercado financeiro mundial.
Quando os títulos dos Estados Unidos passam a pagar juros maiores, investidores globais têm mais incentivo para aplicar dinheiro no mercado norte-americano.
O movimento pode retirar recursos de economias consideradas mais arriscadas, como os países emergentes.
O Brasil está nesse grupo.
Juros dos EUA sobem
Títulos americanos ficam mais atraentes.
Investidores podem reduzir aplicações em mercados emergentes.
Menos dólares entram no Brasil.
A moeda americana pode subir frente ao real.
Juros futuros brasileiros também podem sofrer pressão.
Dólar pode sentir rapidamente
O câmbio costuma ser um dos primeiros mercados a reagir a mudanças nas expectativas internacionais.
Quando investidores procuram ativos norte-americanos, aumenta a demanda por dólares.
Em determinados cenários, isso fortalece a moeda dos Estados Unidos diante de outras divisas.
Para o Brasil, uma valorização do dólar pode ter efeitos que vão muito além de quem pretende viajar ao exterior.
Produtos importados ficam mais caros e diversas matérias-primas utilizadas pela indústria são cotadas na moeda norte-americana.
O câmbio também influencia combustíveis, alimentos, equipamentos e outros preços da economia.
Juros brasileiros também entram na conta
O segundo efeito importante aparece no mercado de juros.
Se os títulos norte-americanos passam a pagar taxas maiores, os investidores podem exigir remuneração também maior para manter recursos em países emergentes.
Isso pode elevar as taxas negociadas no mercado futuro brasileiro.
Na prática, juros futuros maiores podem aumentar o custo de financiamento para empresas e consumidores.
Também podem dificultar a queda da Selic caso o Banco Central considere que o cenário externo aumenta os riscos para inflação e câmbio.
Isso não significa que uma eleição nos Estados Unidos determine automaticamente a taxa de juros brasileira.
A decisão sobre a Selic depende principalmente da inflação, da atividade econômica, das expectativas e das condições fiscais brasileiras.
O cenário internacional é mais um elemento dessa equação.
Bolsa também pode reagir
Uma alta dos juros costuma afetar diferentes setores da Bolsa brasileira.
Empresas mais endividadas podem sofrer porque precisam pagar mais para captar ou refinanciar recursos.
Varejistas e construtoras também são especialmente sensíveis ao crédito.
Por outro lado, empresas exportadoras podem ser beneficiadas em determinados momentos por um dólar mais valorizado.
O efeito sobre o mercado acionário, portanto, não é uniforme.
Também dependerá da reação dos títulos americanos, do dólar e das expectativas sobre a economia global depois da votação.
Mercado acompanha política fiscal de Trump
Os investidores observam especialmente o que acontecerá com gastos e impostos.
Cortes tributários podem estimular a economia, mas também reduzir a arrecadação.
Se não forem acompanhados de redução equivalente nas despesas, existe risco de aumento do déficit público.
Nesse cenário, o governo norte-americano precisaria emitir mais títulos para financiar suas contas.
Uma oferta maior de dívida pode pressionar os rendimentos desses papéis para cima.
É uma das razões pelas quais Wall Street acompanha com tanta atenção uma eleição legislativa.
Uma vitória democrata significa dólar mais baixo?
Não necessariamente.
Uma eventual vitória democrata poderia restringir algumas iniciativas fiscais de Trump e, dependendo das medidas bloqueadas, reduzir pressões sobre os juros de longo prazo.
Mas existem muitas outras variáveis capazes de mover o dólar.
Inflação, decisões do Federal Reserve, emprego, guerras, tarifas comerciais, crescimento econômico e expectativas dos investidores também interferem.
Além disso, um Congresso dividido pode produzir forte impasse político.
Especialistas lembram que disputas sobre orçamento e limite da dívida, por exemplo, podem provocar períodos de volatilidade mesmo quando o governo encontra dificuldades para aprovar novas despesas.
Por isso, não existe uma relação automática entre vitória de um partido e valorização ou queda de um ativo.
Resultado também pode afetar o Federal Reserve
O Senado participa da confirmação de indicados para o Federal Reserve.
Isso torna o controle da Casa particularmente relevante durante períodos em que existem vagas ou mudanças na direção do banco central.
Trump tem pressionado por uma política monetária mais favorável à redução dos juros.
O Fed, entretanto, possui independência institucional e toma suas decisões com base em indicadores como inflação e emprego.
Uma mudança na composição do Senado não altera diretamente a taxa de juros americana, mas pode influenciar a aprovação de futuros indicados para a instituição.
Custo de vida pesa na eleição
A economia aparece entre as principais preocupações dos eleitores norte-americanos.
O custo de vida e os preços de produtos essenciais vêm pesando sobre a avaliação do governo.
Economistas ouvidos pelo g1 também mencionam o preço dos combustíveis como um dos elementos de desgaste político.
Essa insatisfação ajuda a explicar por que as eleições legislativas se transformaram em um teste relevante para o governo Trump.
As pesquisas, porém, medem opiniões em determinado momento e não substituem o resultado das urnas.
Relação Lula-Trump também está no radar
No Brasil, investidores acompanham outro fator adicional: como ficará a relação entre Lula e Trump depois da eleição brasileira e das midterms.
Lula foi reeleito em 25 de outubro.
Desde então, declarações e episódios envolvendo os dois governos aumentaram a atenção sobre as relações entre Brasília e Washington.
Trump questionou o resultado brasileiro sem apresentar evidências de fraude, enquanto o governo brasileiro procura manter os canais diplomáticos abertos.
Na última sexta-feira (30), o chanceler Mauro Vieira encontrou o secretário de Estado Marco Rubio durante uma reunião do G20 e os dois acertaram uma nova reunião bilateral para novembro.
Tarifas são uma das principais preocupações
O comércio é um dos temas mais sensíveis da relação.
Ao longo do segundo mandato de Trump, medidas tarifárias atingiram diferentes parceiros comerciais, inclusive o Brasil.
Uma eventual perda republicana no Congresso pode dificultar determinadas iniciativas legislativas, mas não elimina automaticamente a capacidade presidencial de aplicar tarifas.
A legislação norte-americana oferece ao Executivo diferentes instrumentos para adotar medidas comerciais.
Entre eles estão a Seção 232, relacionada a questões de segurança nacional, e a Seção 301, utilizada em investigações sobre práticas comerciais consideradas desleais.
Por isso, mesmo um Congresso controlado pela oposição não teria poder para simplesmente eliminar toda a política tarifária da Casa Branca.
Suprema Corte já limitou parte das tarifas
Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, conhecida pela sigla IEEPA.
A decisão estabeleceu limites para o uso desse instrumento específico.
Outras tarifas fundamentadas nas Seções 232 e 301, porém, não foram automaticamente atingidas.
Isso significa que o resultado das midterms não encerra o debate comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Dólar voltou para perto de R$ 5,40
A votação norte-americana acontece também depois de semanas de volatilidade no mercado brasileiro.
Após as oscilações provocadas pela eleição presidencial, o dólar voltou para a região dos R$ 5,40.
Parte do movimento está relacionada ao fortalecimento global da moeda norte-americana e às expectativas para os juros dos Estados Unidos.
Questões domésticas brasileiras também influenciam a cotação.
O mercado agora adiciona as midterms a essa lista de variáveis.
Um Congresso dividido pode significar dois anos de impasse
Caso Trump perca o controle de uma ou das duas Casas, os Estados Unidos podem entrar em uma fase de maior conflito entre Executivo e Legislativo.
Comissões controladas pela oposição poderiam ampliar investigações sobre o governo.
Projetos econômicos enfrentariam negociações mais difíceis.
Discussões sobre orçamento também poderiam se tornar mais tensas.
O mercado nem sempre reage negativamente a governos divididos. Em alguns momentos, investidores interpretam o bloqueio legislativo como um freio à expansão de gastos.
Em outros, o risco de paralisação política aumenta a volatilidade.
Tudo depende das medidas em discussão e da intensidade do confronto.
Eleição também prepara terreno para 2028
As midterms possuem ainda uma dimensão política que vai além dos próximos dois anos.
A eleição será um dos primeiros grandes testes das forças que tentarão disputar a sucessão presidencial em 2028.
Trump não poderá disputar outro mandato consecutivo após concluir o atual governo.
Tanto republicanos quanto democratas já começam a observar quais lideranças sairão fortalecidas das urnas.
O resultado também mostrará até que ponto a coalizão eleitoral construída por Trump continua mobilizada quando o próprio presidente não está concorrendo.
Resultados podem demorar
Embora a votação ocorra nesta terça-feira, nem todas as disputas necessariamente terão vencedor conhecido na mesma noite.
Cada estado possui suas próprias regras de apuração.
Votos enviados pelo correio, disputas muito apertadas, recontagens e questões judiciais podem prolongar a definição de algumas cadeiras.
Como a maioria no Congresso pode depender de poucos assentos, o controle definitivo de uma das Casas poderá levar mais tempo para ser conhecido.
Mais de 54 milhões já votaram antecipadamente
A eleição já começou para milhões de americanos.
Mais de 54 milhões de eleitores haviam votado antecipadamente até a véspera do pleito.
O número mostra a dimensão da mobilização em torno de uma eleição que, embora não envolva a escolha do presidente, poderá determinar boa parte do que Trump conseguirá fazer até o fim de seu mandato.
Brasil vai acompanhar resultado de perto
Para o Brasil, o impacto das midterms provavelmente não virá de uma única decisão.
Será resultado da combinação entre política fiscal norte-americana, juros, dólar, comércio e a relação entre os governos de Lula e Trump.
Se os republicanos preservarem o Congresso, Trump terá mais espaço legislativo para avançar em sua agenda.
Se os democratas conquistarem uma ou as duas Casas, o presidente poderá encontrar maiores obstáculos.
Os mercados tentarão calcular rapidamente o que cada cenário significa para dívida pública, inflação e juros nos Estados Unidos.
E, em uma economia global fortemente conectada, essa conta chega rapidamente ao Brasil.
Por isso, enquanto os americanos escolhem deputados e senadores nesta terça-feira, investidores brasileiros também estarão olhando para as urnas: o resultado pode mudar o equilíbrio político em Washington e mexer diretamente com dólar, juros e investimentos deste lado do continente.

