Mensagens obtidas em investigação envolvendo Daniel Vorcaro indicam que o ex-controlador do Banco Master teria financiado e participado da estruturação de uma rede internacional de prostituição que recrutava mulheres estrangeiras, inclusive refugiadas. O caso é investigado pela Polícia Federal.
Segundo reportagem do UOL, reproduzida pelo Diário do Nordeste, a estrutura funcionou entre 2023 e 2025 e envolvia intermediários, uma agência de eventos e uma casa noturna em São Paulo. Os investimentos identificados até agora somariam pelo menos R$ 4,3 milhões.
As mulheres recrutadas seriam originárias de países como Ucrânia, Rússia, Venezuela, Argentina e Polônia. Parte delas, segundo a apuração, estava em situação de refúgio ou vulnerabilidade fora de seus países de origem.
Mensagens mostram participação na escolha das mulheres
As conversas analisadas pela reportagem indicam que Vorcaro não aparecia apenas como cliente dos serviços.
Segundo o UOL, ele participava de discussões sobre quais mulheres seriam selecionadas, quais permaneceriam no grupo, valores cobrados, viagens e hospedagens. Também teria destinado recursos à estrutura usada pelos intermediários.
A Polícia Federal abriu inquérito para investigar possíveis ilegalidades relacionadas à contratação e ao recrutamento das estrangeiras, incluindo suspeitas de exploração sexual e tráfico de pessoas.
QUADRO — O QUE ESTÁ SOB INVESTIGAÇÃO
• Participação de Vorcaro no financiamento da estrutura;
• Recrutamento de mulheres estrangeiras e refugiadas;
• Pagamentos, viagens e hospedagens;
• Funcionamento de uma agência utilizada nas contratações;
• Possível exploração sexual;
• Eventual ocorrência de tráfico internacional de pessoas.
Mulheres eram chamadas de “escravas” e “creche”
As mensagens também revelam a forma como Vorcaro e seus interlocutores se referiam às mulheres.
Entre os termos registrados nas conversas aparecem expressões como “escravas”, “kengas” e “girafinha”. As mulheres mais jovens eram chamadas de “creche”.
Os diálogos envolviam, além de Vorcaro, o promotor de eventos Diogo Batista e o empresário Leonardo Serrano, segundo a reportagem.
QUADRO — TERMOS ENCONTRADOS NAS CONVERSAS
Nas mensagens analisadas pela reportagem, aparecem expressões como:
“Escravas”
“Kengas”
“Girafinha”
“Creche”“Creche” seria utilizado para se referir às mulheres mais jovens recrutadas pelo grupo.
O uso dessas expressões, por si só, não determina juridicamente a ocorrência dos crimes investigados, mas integra o conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal.
Ideia de criar agência aparece em conversas de 2023
Segundo a apuração, as discussões sobre a criação de uma estrutura própria para contratar mulheres começaram em 2023.
Naquele período, Vorcaro e Diogo Batista conversaram sobre uma refugiada ucraniana de 19 anos. A partir dessas tratativas, teria surgido a ideia de criar uma agência que permitisse organizar o recrutamento e a permanência das mulheres no Brasil.
Em outubro daquele ano, outro interlocutor apresentou a possibilidade de utilizar uma agência para intermediar as contratações.
No início de 2024, mensagens mostram novas discussões sobre a estrutura do negócio, incluindo a possibilidade de alugar um imóvel para acomodar as mulheres.
QUADRO — MENSAGEM SOBRE A AGÊNCIA
Em uma das conversas de 2024, Diogo Batista perguntou a Vorcaro se eles deveriam avançar com a criação da agência e mencionou a possibilidade de alugar uma casa ou apartamento.
O interlocutor destacou ainda que a estrutura evitaria que a contratação das mulheres ficasse diretamente vinculada a eles.
Agência Allure aparece nas investigações
A Allure Eventos aparece nas mensagens como uma das estruturas utilizadas no recrutamento.
Segundo a apuração do UOL, Vorcaro teria demonstrado interesse em investir na empresa e participou de discussões sobre seu funcionamento. Um comprovante encontrado em seu celular registra ainda uma transferência de R$ 500 mil relacionada a uma negociação envolvendo o negócio.
A reportagem afirma que os investimentos ligados à estrutura chegaram a pelo menos R$ 4,3 milhões.
Um dos empresários citados, Felipe Nisti, contestou que uma negociação para entrada de Vorcaro no negócio tenha sido concluída nos termos apresentados pelas conversas. Ele afirmou que houve interesse, mas negou que a transação tenha avançado conforme descrito.
Jovem de 19 anos era chamada de “Mucilon”
Outro episódio citado nas mensagens envolve uma jovem que completaria 19 anos em 2024.
Segundo a reportagem, Vorcaro e Diogo teriam organizado uma festa de aniversário para ela. Nas conversas, a jovem era chamada pelo apelido de “Mucilon”.
Os diálogos sobre jovens estrangeiras e refugiadas passaram a integrar a apuração sobre possíveis situações de vulnerabilidade e exploração.
Estrangeiras eram levadas para eventos privados
Os agenciadores ligados à estrutura recrutavam mulheres para eventos privados frequentados por Vorcaro, amigos e autoridades, segundo a reportagem.
As mensagens indicam ainda que despesas com passagens, hospedagens e permanência no Brasil eram bancadas dentro da própria rede.
A investigação busca estabelecer em quais condições essas mulheres foram trazidas ao País, se havia liberdade para recusar os serviços e qual era a relação financeira entre elas, os intermediários e os responsáveis pela estrutura.
QUADRO — POR QUE A PF INVESTIGA O CASO
A prostituição exercida voluntariamente por uma pessoa adulta não é crime no Brasil.
A investigação procura esclarecer, porém, se existiram condutas como exploração da prostituição de terceiros, favorecimento, recrutamento mediante situação de vulnerabilidade ou tráfico de pessoas.
A condição de estrangeira ou refugiada, isoladamente, não comprova tráfico de pessoas.
Deputada pede investigação no STF
Após a publicação da reportagem, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal que fossem aprofundadas as investigações sobre possível tráfico internacional de mulheres para exploração sexual.
Entre as providências solicitadas estão a identificação e proteção das mulheres, a investigação sobre a forma como foram recrutadas e transportadas, o rastreamento dos pagamentos e eventual cooperação com autoridades estrangeiras.
O próprio pedido ressalva que ser estrangeira ou refugiada não é, por si só, prova de tráfico de pessoas.
Vorcaro nega exploração de mulheres
Após a divulgação das reportagens, Daniel Vorcaro negou as acusações.
Em nota divulgada por sua defesa, o ex-banqueiro afirmou que nunca explorou ou desrespeitou mulheres e contestou a autenticidade, autoria e contexto de parte das mensagens divulgadas.
Vorcaro classificou o episódio como uma “manipulação criminosa” de conteúdos privados e anunciou que pretende buscar responsabilização judicial pelos vazamentos.
QUADRO — O QUE DIZ A DEFESA
Vorcaro:
• nega ter explorado mulheres;
• questiona a autenticidade e o contexto de parte das mensagens;
• afirma que conversas privadas foram manipuladas;
• diz estar disponível para prestar esclarecimentos às autoridades.
PF apura possíveis crimes
O material está agora sob análise da Polícia Federal, que investiga quais atividades efetivamente eram desempenhadas pela estrutura, a origem e o destino dos recursos e as condições em que as mulheres estrangeiras eram recrutadas e mantidas no Brasil.
A existência das mensagens e dos pagamentos revelados pelas reportagens é parte da apuração. A eventual responsabilização criminal de Vorcaro ou dos demais envolvidos, contudo, depende da conclusão das investigações e da análise das provas pelas autoridades competentes.

