Os estudantes que se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 já podem consultar a nova Cartilha do Participante da Redação, divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O material explica os critérios utilizados na correção, detalha as cinco competências avaliadas e apresenta exemplos de redações bem avaliadas na edição de 2025.
Entre os principais destaques deste ano estão orientações mais detalhadas sobre o uso de repertório sociocultural, um novo alerta contra os chamados “repertórios de bolso” e explicações sobre como elaborar uma proposta de intervenção concreta e relacionada aos argumentos apresentados ao longo do texto.
A redação será aplicada no dia 8 de novembro, primeiro dia de provas do Enem 2026. O participante terá de produzir um texto dissertativo-argumentativo, em língua portuguesa formal, com até 30 linhas, sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política.
Repertório precisa ajudar na argumentação
Uma das principais orientações da nova cartilha trata do repertório sociocultural.
Referências a livros, filmes, acontecimentos históricos, pesquisas, leis, filósofos, sociólogos ou outros conhecimentos podem ser utilizadas na redação, mas não basta simplesmente citar uma obra ou autor.
Para ser considerado produtivo, o repertório deve ter relação direta com o tema e contribuir efetivamente para sustentar o argumento defendido pelo participante.
O Inep orienta que a referência utilizada seja:
- pertinente ao assunto abordado;
- contextualizada;
- articulada aos argumentos;
- utilizada para aprofundar a discussão;
- relacionada de maneira clara ao problema apresentado.
A simples inclusão de uma citação conhecida não garante uma boa avaliação.
Cartilha volta a alertar para os “repertórios de bolso”
Pelo segundo ano consecutivo, o Inep chama atenção para os chamados repertórios de bolso.
A expressão é utilizada para referências previamente decoradas e aplicadas de forma genérica a praticamente qualquer tema. Geralmente são frases de filósofos, escritores ou personalidades conhecidas que aparecem na introdução, mas não são desenvolvidas nem utilizadas de maneira efetiva na argumentação.
A cartilha apresenta como exemplo uma redação que menciona Aristóteles e sua afirmação de que o homem é um “animal político” para discutir o envelhecimento da população brasileira, tema do Enem 2025.
Segundo o material, embora a referência não seja necessariamente inválida, ela apresenta baixa produtividade quando funciona apenas como elemento decorativo e poderia ser substituída por diversas outras citações genéricas sem alterar o sentido do texto.
A orientação, portanto, é priorizar repertórios que realmente ajudem a explicar as causas, consequências ou características do problema debatido.
Redação deve defender um ponto de vista
O texto exigido pelo Enem continua sendo do tipo dissertativo-argumentativo.
Isso significa que o candidato precisa apresentar uma tese sobre o tema e desenvolver argumentos capazes de sustentá-la.
Não basta fazer uma descrição do problema ou apresentar informações soltas. O texto deve possuir uma linha de raciocínio clara, com argumentos relacionados entre si e organizados de maneira coerente.
A redação deve formar uma unidade textual, com introdução, desenvolvimento argumentativo e conclusão articulados.
Cinco competências valem até 200 pontos cada
A correção da redação é realizada com base em cinco competências.
Cada uma vale de 0 a 200 pontos, permitindo que a redação alcance a nota máxima de 1.000 pontos.
As competências avaliam se o participante consegue:
Competência 1 — Domínio da escrita formal
Avalia o uso da modalidade escrita formal da língua portuguesa, observando aspectos como ortografia, concordância, regência, pontuação e construção das frases.
Competência 2 — Compreensão do tema
Analisa se o participante compreendeu corretamente a proposta e desenvolveu o assunto dentro da estrutura dissertativo-argumentativa.
É também nessa competência que o repertório sociocultural é considerado.
Competência 3 — Construção da argumentação
Avalia a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e opiniões para defender uma posição.
Competência 4 — Coesão textual
Observa o uso de mecanismos linguísticos que conectam as diferentes partes da redação e garantem continuidade ao raciocínio.
Competência 5 — Proposta de intervenção
Analisa se o estudante apresenta uma solução para o problema discutido, relacionada à argumentação e respeitando os direitos humanos.
Proposta de intervenção precisa ser concreta
A conclusão é um dos pontos aos quais o participante deve dedicar atenção especial.
Segundo a cartilha, não basta terminar a redação dizendo que “algo precisa ser feito” ou que determinado problema precisa receber mais investimentos.
O candidato deve apresentar uma ação concreta capaz de enfrentar a questão discutida.
Para construir uma proposta completa, a orientação é responder a cinco perguntas:
- Ação: o que deve ser feito?
- Agente: quem será responsável pela medida?
- Meio: como ela será realizada?
- Finalidade: para que a ação será desenvolvida?
- Detalhamento: quais informações adicionais tornam a proposta mais específica?
Uma frase como “faltam investimentos na educação”, por exemplo, apenas constata um problema. Para se tornar uma proposta de intervenção, é necessário indicar uma ação e explicar como ela poderia ser executada.
Intervenção deve dialogar com o desenvolvimento
Outra orientação importante é evitar propostas genéricas ou desconectadas da argumentação.
A solução apresentada no último parágrafo precisa responder ao problema que foi desenvolvido anteriormente.
Se o participante passou o texto discutindo, por exemplo, falta de informação sobre determinado tema, uma proposta relacionada a campanhas educativas pode fazer sentido. Se o argumento central foi falta de fiscalização, a intervenção precisa dialogar com essa questão.
A coerência entre diagnóstico, argumentos e proposta é essencial.
Redação deve respeitar os direitos humanos
A proposta de intervenção também precisa respeitar os direitos humanos.
Isso significa que o candidato não deve defender soluções baseadas em violência, perseguição, discriminação ou retirada de direitos fundamentais de determinados grupos.
A exigência faz parte da Competência 5 e acompanha o modelo de redação adotado pelo Enem.
O que pode zerar a redação
A cartilha também reforça situações que podem levar o participante a receber nota zero.
Entre elas estão:
- fugir completamente do tema;
- não produzir um texto dissertativo-argumentativo;
- entregar a folha de redação em branco;
- escrever até sete linhas;
- inserir deliberadamente trechos sem relação com o tema;
- incluir desenhos, impropérios ou outras formas propositais de anulação;
- colocar nome, assinatura ou outra identificação no espaço destinado ao texto;
- escrever predominantemente ou integralmente em língua estrangeira;
- produzir uma redação cuja letra seja impossível de ser lida pelos avaliadores.
Copiar textos motivadores não ajuda na nota
Os textos apresentados junto à proposta servem para ajudar o estudante a compreender o assunto, mas não devem ser simplesmente reproduzidos.
A redação precisa demonstrar capacidade própria de interpretação e argumentação.
O candidato pode utilizar informações presentes nos textos motivadores, desde que as desenvolva e relacione aos seus próprios argumentos.
Correção é feita por dois avaliadores
Cada redação será analisada inicialmente por dois avaliadores independentes.
Cada corretor atribuirá de zero a 200 pontos para cada uma das cinco competências, totalizando até mil pontos.
A nota final corresponde à média das avaliações, seguindo as regras do Inep para eventuais divergências entre os corretores.
Cartilha traz redações bem avaliadas de 2025
Além das orientações teóricas, o material apresenta redações produzidas por participantes do Enem 2025, cujo tema foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.
Os textos aparecem acompanhados de comentários pedagógicos que explicam como os candidatos construíram a tese, utilizaram repertórios, organizaram os argumentos e elaboraram suas propostas de intervenção.
A proposta é permitir que quem fará a prova em 2026 observe, na prática, o que os avaliadores consideram um bom desempenho.
Há versões específicas para participantes com deficiência
O Inep também disponibilizou versões da cartilha com orientações específicas para participantes com dislexia, Transtorno do Espectro Autista (TEA), surdez ou deficiência auditiva.
Os materiais integram as ações de acessibilidade do exame e detalham particularidades consideradas no processo de avaliação desses participantes.
Enem será realizado em novembro
As provas regulares do Enem 2026 estão previstas para os dias 8 e 15 de novembro.
No primeiro domingo, além da redação, os candidatos responderão às questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias.
Para quem se prepara para a redação, a principal orientação da nova cartilha é evitar fórmulas prontas. Mais do que decorar citações ou modelos de conclusão, o candidato precisa demonstrar capacidade de compreender o tema, construir uma tese, desenvolver argumentos próprios e apresentar uma proposta de intervenção coerente com o problema discutido.

