A empresa de capacetes Bravo Grafeno, que tem o senador Flávio Bolsonaro entre os sócios, está registrada no mesmo endereço, em Brasília, de pelo menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como personagem central das investigações sobre o esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas.
O endereço compartilhado é a sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal. Segundo levantamento do ICL Notícias, a Bravo Grafeno também utilizaria serviços contábeis prestados pela mesma estrutura associada a empresas de Antunes.
A coincidência de endereço, por si só, não comprova participação de Flávio Bolsonaro no esquema investigado. O senador já negou envolvimento nas fraudes do INSS. O que chama atenção dos investigadores e da reportagem é a sobreposição de empresas, contadores e pessoas que aparecem em diferentes pontos das apurações.
Contador é elo entre Flávio e empresas do Careca do INSS
Um dos principais vínculos identificados é Alexandre Caetano dos Reis, contador que já foi sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes em uma offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
Alexandre também prestou serviços contábeis a empresas relacionadas ao Careca do INSS e, segundo a investigação da Polícia Federal, tinha acesso a planilhas, documentos e movimentações financeiras consideradas relevantes para o esquema.
Ao mesmo tempo, a empresa de contabilidade ligada a ele, a Voga Serviços Contábeis, presta serviços ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Notas fiscais emitidas pelo escritório do senador trazem o e-mail da Voga, indicando a relação profissional entre as partes.
Alexandre está preso desde dezembro de 2025.
Sala abriga empresas investigadas por movimentações milionárias
O levantamento encontrou pelo menos 16 empresas relacionadas ao Careca do INSS registradas na mesma sala usada como endereço da Bravo Grafeno.
As companhias atuam em áreas variadas, como consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center.
Entre elas está a Prospect Consultoria Empresarial, uma das principais empresas atribuídas a Antunes nas investigações.
Segundo o relatório final da CPMI que apurou as fraudes no INSS, a Prospect recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas. Desse total, R$ 115,9 milhões teriam vindo da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
O endereço cadastral da Prospect é justamente a sala 2601 do mesmo edifício.
Oito das empresas vinculadas a Antunes teriam sido abertas no mesmo dia, em outubro de 2023.
Empresa dos Bolsonaro foi criada em 2024
A Bravo Grafeno foi aberta em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil.
Além de Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro também aparece na sociedade da empresa. O ex-presidente Jair Bolsonaro já participou do negócio e atua como garoto-propaganda da marca.
A empresa comercializa capacetes para motociclistas e ganhou divulgação pública de Jair Bolsonaro em eventos e materiais promocionais.
Outros sócios também aparecem no quadro societário, entre eles empresários e antigos integrantes do círculo político de Flávio.
Outro sócio tem ligação indireta com ‘Dark Horse’
Um dos sócios da Bravo Grafeno, Pedro Luiz Dias Leite, já manteve sociedade com Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro.
Marcello, conhecido como “Marcelão”, aparece em outra investigação porque transferiu R$ 1 milhão para a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Ele afirmou que o dinheiro foi um investimento empresarial legítimo no longa e negou irregularidades.
A ligação amplia o cruzamento entre personagens que aparecem em diferentes apurações envolvendo o entorno da família Bolsonaro.
Administradora do escritório de Flávio também tem vínculo familiar com contador
Outro elo apontado pela reportagem envolve Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, o contador ligado às empresas do Careca do INSS.
Letícia afirmou anteriormente que chegou ao escritório de Flávio por indicação do advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
Tomaz também apareceu na Operação Sem Desconto e atua na defesa de Alexandre Caetano nos autos da investigação.
Careca do INSS é apontado como operador de esquema bilionário
Antonio Carlos Camilo Antunes está preso preventivamente e é investigado por suspeita de atuar na movimentação de recursos obtidos por associações que realizavam descontos indevidos diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
Segundo as investigações, empresas ligadas a ele recebiam milhões de reais dessas entidades e realizavam transferências entre diferentes CNPJs.
Parte do dinheiro teria sido utilizada para adquirir patrimônio e realizar pagamentos a pessoas relacionadas ao grupo.
As investigações ainda buscam definir a participação individual de cada envolvido e identificar quem tinha conhecimento da origem dos recursos.
Mesmo endereço não prova participação de Flávio no esquema
Até o momento, não há indicação de que a Bravo Grafeno tenha recebido diretamente recursos desviados das aposentadorias ou de que Flávio Bolsonaro tenha participado das operações financeiras investigadas no caso.
A principal revelação está na proximidade estrutural: a empresa do senador compartilha endereço cadastral, serviços contábeis e vínculos profissionais com personagens e empresas que aparecem no centro das investigações do escândalo do INSS.
Flávio Bolsonaro já negou qualquer envolvimento nas fraudes. Procurado pela reportagem original sobre o endereço compartilhado, não havia se manifestado até a publicação.
O caso adiciona mais uma conexão ao conjunto de relações empresariais e profissionais que cercam personagens investigados no esquema dos descontos indevidos do INSS.

