O Ministério da Saúde anunciou nesta segunda-feira (8) a suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan em todo o país. A decisão foi tomada após o registro de duas mortes suspeitas e de outros eventos adversos graves identificados pelo sistema nacional de farmacovigilância.
A medida tem caráter preventivo e foi recomendada de forma consensual pelo Comitê Nacional de Farmacovigilância, que reúne especialistas responsáveis pelo monitoramento da segurança de vacinas e medicamentos utilizados no Brasil.
Desenvolvida pelo Instituto Butantan, a imunização é considerada um marco para a saúde pública brasileira por ser a primeira vacina contra a dengue totalmente produzida no país e a primeira do mundo administrada em dose única.
Até o momento, aproximadamente 500 mil pessoas receberam o imunizante, principalmente profissionais de saúde, público inicialmente contemplado pela campanha de vacinação iniciada neste ano.
O que motivou a suspensão
Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, entre janeiro e maio de 2026 foram registradas 3.703 notificações de eventos adversos após a vacinação, correspondendo a cerca de 0,7% do total de imunizados.
A grande maioria dos registros foi considerada leve ou moderada. Entretanto, 42 casos apresentaram sinais de alarme compatíveis com quadros graves de dengue, incluindo sintomas como:
- Dor abdominal intensa e persistente;
- Vômitos contínuos;
- Sangramentos;
- Queda do estado geral.
Esses 42 casos representam apenas 0,008% do total de vacinados, mas chamaram a atenção das autoridades sanitárias por envolverem manifestações clínicas que não haviam sido observadas nos estudos realizados antes da aprovação da vacina.
Entre esses episódios, três foram classificados como graves.
Casos sob investigação
O primeiro caso grave envolveu uma mulher de 39 anos que apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após a vacinação. Ela desenvolveu um quadro de dengue grave com choque, precisou ser internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas conseguiu se recuperar.
Os dois casos de óbito que motivaram a suspensão seguem em investigação:
Primeiro óbito
Uma mulher de 48 anos apresentou sintomas de dengue grave 19 dias após receber a vacina. O quadro evoluiu com comprometimento neurológico, incluindo meningoencefalite, e a paciente morreu.
Segundo óbito
Um homem de 58 anos desenvolveu febre cinco dias após a vacinação e evoluiu rapidamente para um quadro de dengue grave com choque refratário. Ele também não resistiu.
Apesar da gravidade dos casos, o Ministério da Saúde ressaltou que ainda não existe comprovação científica de que as mortes tenham sido causadas pela vacina.
“Nós tivemos três casos graves, desses dois óbitos, sem, até este momento, nas investigações já realizadas pelos sistemas municipais, estaduais e pelos especialistas, dados suficientes para estabelecer uma relação causal entre a vacina e os eventos ocorridos”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O que acontece agora
Com a suspensão temporária, estados e municípios devem interromper imediatamente a aplicação da vacina até a conclusão das investigações.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que notificou oficialmente o Instituto Butantan e deverá convocar um comitê de especialistas para aprofundar a análise epidemiológica dos casos.
O trabalho será conduzido em conjunto pela Anvisa, pelo Ministério da Saúde, pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) e pelo Instituto Butantan.
Além disso, o governo federal pretende realizar uma busca ativa em todo o país para identificar possíveis novos eventos adversos relacionados à vacinação.
Orientação para quem já recebeu a vacina
O Ministério da Saúde orienta que todas as pessoas vacinadas nos últimos 21 dias permaneçam atentas a sintomas e procurem atendimento médico imediatamente caso apresentem:
- Febre;
- Dor abdominal intensa e contínua;
- Vômitos persistentes;
- Tontura;
- Sangramentos;
- Sonolência excessiva;
- Irritabilidade;
- Sinais de desidratação;
- Piora do estado geral.
As secretarias estaduais e municipais também deverão acompanhar os vacinados nesse período.
Vacina continua sendo considerada eficaz
Autoridades sanitárias e especialistas enfatizaram que a suspensão não representa uma conclusão de que a vacina seja insegura.
Antes da aprovação, o imunizante foi testado em cerca de 16 mil voluntários acompanhados durante cinco anos. Os resultados demonstraram eficácia global de 79,6% contra a dengue e proteção de 89% contra formas graves da doença.
Os dados foram publicados em revista científica internacional e serviram de base para a autorização concedida pela Anvisa.
Segundo o diretor do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti, a medida busca ampliar o conhecimento sobre possíveis fatores de risco em diferentes grupos populacionais.
“Essa decisão não invalida a eficácia da vacina. Ela permite ganhar tempo para realizar estudos adicionais, avaliar diferentes cenários epidemiológicos e identificar eventuais fatores de risco. Quem recebeu a vacina continua protegido contra os quatro sorotipos da dengue”, afirmou.
Instituto Butantan defende rigor científico
Em nota oficial, o Instituto Butantan informou que seguirá integralmente a orientação do Ministério da Saúde e da Anvisa.
A instituição afirmou que a interrupção é uma medida preventiva destinada a garantir a segurança da população enquanto os casos são investigados.
O diretor do Butantan, infectologista Esper Kallás, reforçou a confiança na qualidade dos estudos realizados e disse acreditar que as investigações poderão fornecer respostas mais precisas sobre os eventos registrados.
“O nosso compromisso é com o máximo rigor científico possível. Vamos trabalhar para reunir evidências suficientes que permitam demonstrar o benefício da vacina para a saúde pública brasileira e, se confirmada sua segurança, possibilitar a retomada da vacinação”, declarou.
O Butantan também destacou que experiências de vacinação em massa realizadas anteriormente em municípios como Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) apresentaram resultados positivos, sem registros significativos de reações adversas graves.
Próximos passos
A expectativa do Ministério da Saúde é concluir as análises epidemiológicas e clínicas dos casos nas próximas semanas.
Até que haja uma definição, a vacinação permanecerá suspensa em todo o território nacional. O governo reforça que a medida tem caráter preventivo e que a investigação busca garantir a máxima segurança da população antes da ampliação definitiva da campanha de imunização contra a dengue.

