Aos 20 anos, Nicolas Henrique Lima Dantas tenta reconstruir a própria rotina depois de ter ficado paraplégico ao ser baleado na porta de casa, em Fortaleza. Seis meses após o ataque, o jovem passou por um procedimento inédito no SUS cearense com uso da polilaminina, substância experimental estudada para o tratamento de lesões medulares.
O disparo aconteceu em dezembro de 2025, no bairro Planalto Ayrton Senna. Nicolas chegava do trabalho quando homens em uma motocicleta passaram atirando. O jovem foi atingido nas costas. O projétil atravessou o tórax. O irmão dele também foi baleado, no joelho.
“Eu tentei correr e caí. O tiro pegou nas costas e saiu no peito”, relembrou.
Levado inicialmente para uma UPA, Nicolas sofreu duas paradas cardíacas antes de ser transferido para o Instituto Dr. José Frota (IJF), onde permaneceu internado por 29 dias. Na alta médica, recebeu o diagnóstico de paraplegia.
No último sábado, o jovem voltou ao hospital para participar da aplicação experimental da polilaminina, substância desenvolvida a partir da laminina, proteína presente no organismo humano e relacionada à regeneração celular e à organização dos tecidos.
O tratamento integra uma pesquisa coordenada pela cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, voltada ao estudo de lesões medulares recentes.
A cirurgia foi realizada no IJF sob coordenação do neurocirurgião Lucas Chaves e durou cerca de uma hora. A substância foi aplicada diretamente na medula, acima e abaixo da vértebra lesionada.
Como o medicamento ainda está em fase experimental, o acesso ocorreu por meio de autorização judicial e dentro das regras de uso compassivo previstas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), destinadas a pacientes graves sem alternativas terapêuticas disponíveis.
Mesmo sem garantia de recuperação, Nicolas afirma que mantém esperança.
“Se Deus quiser, quero conseguir voltar a andar, mexer os pés direitinho. Tenho bastante esperança”, disse.
Desde o acidente, a família precisou adaptar a casa para a nova realidade do jovem. Rampas foram construídas para facilitar a circulação da cadeira de rodas, e um quarto foi improvisado na entrada da residência.
Antes da lesão, Nicolas trabalhava como motorista de aplicativo e ajudava na renda familiar. Hoje, recebe auxílio-doença e depende do apoio da mãe, do padrasto e dos irmãos para a rotina diária.
Ele afirma que ainda enfrenta dificuldades emocionais e físicas provocadas pela mudança brusca de vida, especialmente pela perda de autonomia.
“Uma coisa que parecia simples já não é mais tão simples. Coisas que eu fazia sozinho agora precisam de ajuda”, contou.
Mesmo diante das limitações, Nicolas segue realizando sessões de fisioterapia e sonha em voltar a dirigir — nem que seja com um veículo adaptado.
“Estou esperançoso para conseguir voltar a dirigir como antes ou adaptar um carro para poder andar por aí de novo”, afirmou.

