O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta para a possível formação de um novo episódio do fenômeno El Niño nos próximos meses. O aviso reforça a atenção dos órgãos meteorológicos brasileiros e acende um sinal de alerta no Ceará, onde especialistas acompanham os possíveis impactos sobre o clima, os recursos hídricos e a quadra chuvosa de 2027.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de provocar alterações nos padrões climáticos em diversas regiões do planeta. Segundo o Inmet, as projeções mais recentes indicam condições favoráveis para o desenvolvimento do evento ainda em 2026.
De acordo com os critérios utilizados pelo instituto, o El Niño é configurado quando o Índice Oceânico Niño Relativo (Roni) permanece igual ou superior a 0,5°C durante pelo menos cinco trimestres consecutivos.
“Com base nos dados observados em maio e nas projeções atuais, o primeiro trimestre a atingir esse limiar deverá ser abril-maio-junho”, informou o órgão em boletim técnico.
O monitoramento envolve a análise contínua das temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial, além de indicadores atmosféricos e projeções elaboradas por centros internacionais especializados em clima.
Ceará acompanha cenário desde o início do ano
No Ceará, a possibilidade de retorno do El Niño já vinha sendo observada pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) desde o início de 2026.
Em abril, a instituição divulgou uma nota técnica apontando os primeiros sinais de aquecimento das águas do Pacífico. No fim de maio, uma nova análise reforçou a tendência de evolução do fenômeno diante da aceleração das temperaturas na região central e leste do oceano.
Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam mais de 60% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte entre outubro e dezembro deste ano. Para o trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, as chances de permanência do fenômeno ultrapassam 90%.
Segundo o diretor técnico da Funceme, Francisco Vasconcelos Júnior, o acompanhamento constante é fundamental devido aos efeitos que eventos moderados e fortes de El Niño costumam provocar no Ceará.
“Em geral, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas durante a estação chuvosa e ao aumento das temperaturas”, explica.
O meteorologista ressalta, no entanto, que outros sistemas climáticos também exercem influência importante sobre o regime de precipitações no Estado.
Calor acima da média e aumento do risco de queimadas
Embora os impactos mais significativos sejam esperados para 2027, alguns reflexos podem começar a surgir ainda no segundo semestre deste ano.
Entre os principais riscos apontados pela Funceme estão temperaturas acima da média histórica, aumento da evapotranspiração, ressecamento da vegetação e maior pressão sobre os recursos hídricos.
As regiões dos Sertões, Inhamuns, Jaguaribana e áreas de caatinga mais suscetíveis ao déficit hídrico estão entre as que exigem atenção especial.
Outro efeito associado ao fenômeno é o aumento do risco de incêndios florestais.
“O El Niño favorece condições mais secas e quentes, reduzindo a umidade do solo e da vegetação, o que aumenta a propagação do fogo”, alerta Francisco Vasconcelos Júnior.
A Funceme ressalta que fatores humanos, como queimadas irregulares e manejo inadequado do fogo, podem agravar ainda mais esse cenário.
Quadra chuvosa de 2027 preocupa especialistas
A principal preocupação dos meteorologistas está voltada para o período entre fevereiro e maio de 2027, correspondente à quadra chuvosa do Ceará.
Historicamente, eventos moderados e fortes de El Niño costumam influenciar negativamente o volume de chuvas no Estado, especialmente nos meses de março e abril, quando a atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é determinante para a estação chuvosa.
Apesar do cenário de atenção, especialistas destacam que ainda é cedo para prever com precisão a intensidade dos impactos, já que a evolução do fenômeno continuará sendo monitorada ao longo dos próximos meses.
Sinais já eram observados em profundidade
Segundo a Funceme, os primeiros indícios do possível retorno do El Niño surgiram ainda no início deste ano.
Além do aquecimento gradual das águas superficiais, técnicos identificaram mudanças importantes em subsuperfície, até cerca de 300 metros de profundidade.
Foram observadas ondas de águas mais quentes se deslocando da região próxima à Indonésia em direção à costa da América do Sul. Conhecidas como Ondas de Kelvin Oceânicas, essas formações são consideradas um dos principais indicadores da evolução do fenômeno.
Apesar das projeções apontarem um cenário favorável para o desenvolvimento do El Niño, a Funceme reforça que o monitoramento permanece em andamento e que novas avaliações serão divulgadas conforme os dados climáticos forem sendo atualizados.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

