O Ceará vai abrigar a primeira fábrica do mundo dedicada à produção em larga escala de curativos biológicos feitos com pele de tilápia liofilizada. A unidade será instalada em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, e poderá produzir cerca de 4 mil curativos por dia. A previsão é que a indústria esteja operando plenamente em 2028.
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e tem aplicações no tratamento de queimaduras, feridas e outras condições. A produção poderá abastecer hospitais, o Sistema Único de Saúde (SUS), empresas e também o mercado internacional.
O projeto industrial ficará sob responsabilidade do Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. Segundo o secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, a iniciativa transforma uma pesquisa científica desenvolvida no Estado em atividade econômica e ainda aproveita um material que antes era descartado pela cadeia produtiva da tilápia.
Investimento deve chegar a R$ 52 milhões
A implantação da indústria prevê cerca de R$ 52 milhões em investimentos nos três primeiros anos de produção, sendo R$ 9 milhões destinados ao início das obras. O faturamento projetado é de R$ 58 milhões no primeiro ano e pode ultrapassar R$ 130 milhões anuais depois do terceiro ano de funcionamento.
A construção está prevista para começar no fim de 2026. Os testes operacionais deverão ocorrer no final de 2027, enquanto a inauguração com a fábrica em plena atividade é projetada para 2028.
O Governo do Ceará e a Prefeitura de Jaguaribara firmaram um acordo para viabilizar a instalação. Pelo modelo, o município doa o terreno ao Estado, que ficará responsável pela construção da estrutura física. Posteriormente, o imóvel público será alugado à empresa responsável pela operação.
Fábrica pode gerar até 300 empregos
A chegada da bioindústria também deverá ter impacto na economia de Jaguaribara. A estimativa inicial é de 200 empregos diretos, com possibilidade de expansão para 300 postos de trabalho. Por se tratar de uma indústria de biotecnologia, a expectativa é de salários superiores aos praticados em segmentos industriais tradicionais.
A escolha do município está diretamente relacionada à produção de tilápia. Jaguaribara está entre os grandes produtores do peixe no País e fica próxima de Orós, outro importante polo da atividade no Ceará, garantindo disponibilidade de matéria-prima para a fábrica.
A expectativa apresentada pelo Governo é de que metade da produção seja destinada ao mercado internacional, enquanto 25% deverá atender à demanda da saúde brasileira.
Tecnologia facilita armazenamento e transporte
Um dos avanços que permitiram projetar a produção em larga escala foi o desenvolvimento da pele de tilápia liofilizada. Inicialmente, as pesquisas utilizavam glicerol para conservar o tecido, mas o método exigia refrigeração e oferecia um período menor de validade.
Com a liofilização, o biomaterial passa por um processo de desidratação profunda e pode ser conservado por pelo menos dois anos. No hospital, basta hidratar novamente a pele para que ela possa ser utilizada, facilitando o armazenamento e o transporte para outras regiões e países.
Pesquisa cearense começou em 2015
Os estudos com a pele da tilápia começaram em 2015 na UFC. Pesquisadores identificaram no tecido do peixe uma fonte rica em colágeno tipo I, proteína que contribui para a cicatrização, ajuda na reparação da pele, reduz a perda de líquidos e cria uma barreira contra a invasão bacteriana.
A tecnologia já foi aplicada em pesquisas envolvendo queimaduras, úlceras, reconstrução vaginal, procedimentos de redesignação sexual e tratamentos veterinários. Os estudos relacionados à pele de tilápia já resultaram em dezenas de publicações científicas e premiações.
A UFC detém 50% da patente do curativo liofilizado. A outra metade pertence aos pesquisadores Edmar Maciel e Marcelo Borges de Miranda. Com a exploração comercial da tecnologia, a Universidade e os inventores deverão receber royalties proporcionais.

