O Serrote do Mineiro, sítio arqueológico localizado na zona rural de Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, recebeu autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para o início de pesquisas arqueológicas, ações de conservação e atividades de educação patrimonial. A área abriga gravuras rupestres associadas a populações que viveram no território cearense antes da colonização.
A autorização permite que arqueólogos realizem intervenções e escavações exploratórias, documentem os vestígios encontrados e desenvolvam medidas para preservar o patrimônio. O projeto também pretende avaliar as condições para abertura controlada do sítio à visitação, com possibilidade de criação de um espaço voltado ao turismo comunitário e à educação.
A iniciativa conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e envolve pesquisadores, moradores, associações comunitárias e representantes do poder público municipal.
Gravuras podem ajudar a contar história de povos pré-coloniais
As gravuras existentes no Serrote do Mineiro foram feitas diretamente nas rochas e lajedos da região.
Segundo o arqueólogo Agnelo Queirós, coordenador do projeto e natural de Jaguaribara, os registros apresentam formas geométricas, simbólicas, antropomorfas e representações que lembram animais.
Ainda não é possível determinar com precisão o significado desses símbolos nem quando foram produzidos.
O sítio também ainda não passou por procedimentos de datação capazes de indicar a idade dos vestígios. A expectativa dos pesquisadores é que o trabalho científico ajude a compreender melhor a presença e a trajetória de povos indígenas que ocuparam o Vale do Jaguaribe antes e durante os primeiros momentos da colonização.
Pelas regras brasileiras, descobertas de bens arqueológicos devem ser comunicadas ao Iphan, responsável pelo reconhecimento e registro desse patrimônio. Pesquisas que envolvam prospecções, escavações ou outras intervenções também dependem de autorização do instituto.
Área escapou da submersão pelo Castanhão
O valor histórico do Serrote do Mineiro também está diretamente relacionado à história recente de Jaguaribara.
A região sobreviveu à formação do Açude Castanhão, que provocou profundas mudanças no território e levou à submersão da antiga sede do município em 2001.
A Vila do Mineiro, comunidade localizada nas proximidades do sítio, reúne moradores e descendentes de famílias da antiga Jaguaribara que tiveram suas vidas modificadas pela construção do reservatório.
Durante a implantação do Castanhão, comunidades foram deslocadas e áreas de importância histórica e arqueológica também foram afetadas.
Por isso, pesquisadores envolvidos no projeto avaliam que a preservação do Serrote do Mineiro possui também uma dimensão ligada à memória dos moradores e à relação deles com o território.
Comunidade terá participação na preservação
Uma das características do projeto é a tentativa de desenvolver uma gestão compartilhada do patrimônio.
O Grupo de Trabalho sobre Patrimônio e Memória de Jaguaribara reúne pesquisadores, gestores públicos, associações comunitárias e moradores para discutir formas de preservar e utilizar socialmente o sítio.
Para o historiador Evanilson Maia, integrante do grupo, a experiência vivida pelos moradores com a construção do Castanhão reforça a importância de impedir que outros elementos da história local desapareçam.
A ideia é que a própria comunidade participe da preservação e também seja beneficiada por futuras ações de visitação, turismo e educação patrimonial.
Sítio pode receber visitantes no futuro
Com a autorização do Iphan, uma das próximas etapas será avaliar o estado de conservação das gravuras e definir quantas pessoas poderão circular pelo sítio sem provocar danos.
A visitação ainda dependerá dos resultados dos estudos.
Alguns sítios arqueológicos brasileiros possuem níveis de degradação que impedem o acesso público e permitem somente a entrada de pesquisadores. No caso do Serrote do Mineiro, a avaliação preliminar indica potencial para receber visitantes, desde que sejam criadas regras de circulação e mecanismos de proteção das áreas onde estão as gravuras.
O objetivo é desenvolver atividades de turismo educacional, ambiental e de base comunitária, fazendo com que a conservação também contribua para a valorização cultural e econômica da região.
A possibilidade de estruturar um parque ou espaço permanente de visitação ainda depende do avanço das pesquisas e das medidas de conservação.
Projeto prevê pequeno museu escolar
Outra proposta é aproximar o patrimônio arqueológico das escolas e dos moradores do distrito do Mineiro.
O projeto prevê a criação de um pequeno museu escolar para abrigar, quando tecnicamente possível e dentro das regras de preservação, materiais resultantes das pesquisas.
O próprio sítio poderá funcionar como uma espécie de museu a céu aberto e laboratório educacional, permitindo que estudantes tenham contato com parte da história arqueológica do município.
A intenção é evitar que os materiais encontrados sejam completamente afastados da região onde foram descobertos, fortalecendo a identificação dos moradores com o patrimônio.
Área pertence ao complexo do Castanhão
O Serrote do Mineiro fica próximo à Vila do Mineiro, a cerca de 268 quilômetros de Fortaleza.
A área é pública e integra o complexo do Açude Castanhão, sob responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), em gestão compartilhada com o município.
Essa característica também permite que a discussão sobre preservação envolva diferentes instituições e a própria população da região.
Recursos da Aldir Blanc financiam pesquisa
A pesquisa arqueológica é financiada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc.
Para os responsáveis pelo projeto, a utilização desse mecanismo representa também uma possibilidade de ampliar o financiamento de pesquisas arqueológicas em municípios que possuem patrimônio histórico, mas normalmente enfrentam dificuldades para custear equipes especializadas, equipamentos e logística.
Os trabalhos arqueológicos exigem profissionais habilitados e podem envolver prospecções, escavações, análise, curadoria e interpretação dos materiais encontrados.
A secretária da Cultura de Jaguaribara, Mariane Souza, também defende que a arqueologia seja compreendida como parte das políticas culturais do município, por contribuir para recuperar a história das populações que ocuparam o território.
Pesquisa pode recuperar parte da memória de Jaguaribara
Para os pesquisadores, o trabalho no Serrote do Mineiro ultrapassa a identificação e catalogação das gravuras.
O projeto pretende relacionar o patrimônio pré-colonial à própria trajetória de Jaguaribara, município cuja memória recente foi profundamente marcada pelo desaparecimento físico da antiga cidade sob as águas do Castanhão.
Agora, a pesquisa busca impedir que outro conjunto de referências históricas do território seja perdido.
Com a autorização do Iphan, o Serrote do Mineiro entra em uma nova etapa de documentação e preservação. A expectativa é que, no futuro, o sítio possa reunir pesquisa científica, educação patrimonial, participação comunitária e visitação turística, transformando os vestígios preservados nas rochas em uma ferramenta para contar às novas gerações parte da história do Vale do Jaguaribe.

