O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), se manifestou pela primeira vez sobre as suspeitas levantadas a partir dos dados encontrados no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Em documento de 44 páginas enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin, Moraes negou qualquer irregularidade, afirmou que nunca favoreceu o banqueiro ou a instituição financeira e pediu a anulação do relatório produzido pela Polícia Federal.
A manifestação foi apresentada na noite desta segunda-feira (14), poucas horas antes da sessão extraordinária marcada para esta terça (15), na qual o plenário deverá decidir se existem elementos para abrir formalmente uma investigação contra Moraes.
O ministro adotou um tom duro. Classificou o relatório como uma “farsa” e sustentou que a apuração teria motivação “político-eleitoral” e seria uma tentativa de “vingança” relacionada às condenações pela trama golpista. As afirmações representam a versão apresentada por Moraes em sua defesa e serão analisadas pelo plenário.
Moraes contesta existência de conversas com Vorcaro
Um dos principais argumentos apresentados pelo ministro diz respeito às 52 mensagens atribuídas a Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal.
Moraes sustenta que o relatório não apresenta mensagens de sua própria autoria que comprovem consultoria jurídica ao banqueiro, favorecimento ao Master ou conhecimento antecipado de operações policiais.
Segundo sua manifestação, 47 dos 52 textos analisados pela PF não teriam sido encontrados como conversas convencionais no WhatsApp, mas como registros no aparelho de Vorcaro. Os investigadores levantaram a hipótese de que textos produzidos no aplicativo de notas poderiam ter sido enviados como imagens de visualização única, o que explicaria a ausência das respostas. Moraes contesta essa interpretação e argumenta que ela não demonstra que os textos tenham efetivamente sido enviados a ele.
Para o ministro, a investigação estaria transformando anotações produzidas por Vorcaro em supostas conversas sem que exista comprovação suficiente de envio e recebimento.
“Nunca favoreci o Banco Master”
Moraes também afirma que nunca praticou qualquer ato destinado a beneficiar Vorcaro ou o Banco Master.
Na manifestação, sustenta que jamais julgou processos envolvendo o ex-banqueiro ou a instituição financeira e que não manteve contato com autoridades responsáveis pela Operação Compliance Zero para interferir nas investigações.
O ministro também negou ter fornecido a Vorcaro informações antecipadas sobre a operação que terminou com a prisão do banqueiro.
Como argumento, cita as próprias circunstâncias da prisão: Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos com seu passaporte verdadeiro e o celular posteriormente apreendido pela PF. Na avaliação de Moraes, seria incompatível com a hipótese de vazamento que o banqueiro mantivesse consigo justamente o aparelho que acabou fornecendo grande quantidade de informações aos investigadores.
Contrato de R$ 131 milhões com escritório da esposa entra na defesa
Moraes também respondeu aos questionamentos envolvendo o contrato entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Documentos da investigação apontam um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões. Moraes confirmou ter tido acesso a uma minuta e feito intervenções no documento, mas sustenta que sua participação teve o objetivo de verificar e adequar cláusulas relacionadas a possíveis conflitos de interesse.
Segundo o ministro, o escritório manteve um único contrato com o Master, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, para prestação de serviços jurídicos e consultoria. Ele afirma que os honorários foram declarados, com emissão de notas fiscais, e que a banca não atuou em processos de Vorcaro ou do banco no Supremo.
A defesa também contestou informações sobre a existência de um segundo contrato envolvendo o escritório da família e empresas relacionadas ao banqueiro.
Ministro questiona legalidade da apuração conduzida por Mendonça
Além de rebater as suspeitas, Moraes atacou a origem jurídica da investigação.
Ele sustenta que André Mendonça não poderia ter determinado, por iniciativa própria, atos investigativos envolvendo outro ministro do Supremo sem provocação da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República e sem levar previamente a questão ao plenário.
Essa discussão também está no centro da manifestação da PGR, que pediu a anulação do relatório. Para a Procuradoria, houve irregularidade no avanço das diligências envolvendo um integrante do STF sem comunicação prévia ao colegiado.
Moraes argumenta ainda que teriam ocorrido problemas na cadeia de custódia e na interpretação dos dados extraídos do celular de Vorcaro.
Moraes fala em motivação política e “vingança”
A parte mais contundente da manifestação é direcionada à condução da investigação.
Moraes afirma que o relatório teria sido produzido com direcionamento político-eleitoral e relaciona o episódio a uma tentativa de reação contra as condenações impostas pelo STF aos envolvidos na trama golpista.
Essa é uma acusação feita pelo ministro e não uma conclusão estabelecida sobre a atuação de Mendonça ou da Polícia Federal.
Mendonça, por sua vez, tem defendido a legalidade das medidas adotadas e rejeitado as acusações de direcionamento.
Plenário decide nesta terça futuro da apuração
A defesa de Moraes chega ao STF no momento mais delicado da crise interna desencadeada pelo caso Master.
Na sessão extraordinária desta terça-feira, os ministros deverão discutir tanto o conteúdo do relatório quanto a questão preliminar levantada pela PGR sobre sua validade.
Se a tese de nulidade prevalecer, o relatório que deu origem à apuração contra Moraes poderá ser invalidado. Caso o Supremo entenda que o material é válido e contém elementos suficientes, a investigação poderá avançar.
O julgamento ocorre ainda depois de outros ministros terem conseguido acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro, ampliando o conjunto de informações disponível ao colegiado.
Assim, a primeira manifestação detalhada de Moraes estabelece claramente a linha de defesa que ele levará ao plenário: nega qualquer favorecimento a Vorcaro ou ao Banco Master, contesta que as anotações encontradas no celular comprovem conversas com ele, rejeita ter vazado informações da PF e sustenta que a investigação foi aberta de maneira ilegal e com motivação política.

