A Polícia Federal identificou mensagens em que Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, orientava Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, a monitorar e tentar retirar do ar conteúdos publicados nas redes sociais que contrariavam seus interesses.
Em uma das conversas, de novembro de 2023, Vorcaro encaminha a Mourão uma publicação no Instagram sobre uma festa realizada no Madame Club, também conhecido como Madame Satã, em São Paulo, e dá a ordem: “derrubar esse”.
Segundo o relatório da PF, a conversa faz parte de um conjunto maior de elementos que indicam que Vorcaro e Mourão atuavam para acompanhar, remover ou neutralizar conteúdos e perfis considerados inconvenientes. Os investigadores citam ainda suspeitas de uso de documentos falsos e invasões de contas para atingir publicações e usuários.

Vídeo mostrava festa com DJs internacionais
A publicação que incomodou Vorcaro mostrava imagens de uma festa particular com apresentações de Solomun, Vintage Culture e Swedish House Mafia.
Segundo a PF, o evento teria sido, aparentemente, realizado pelo próprio Vorcaro. A festa ocorreu em São Paulo e passou a ganhar atenção dentro das investigações por causa das relações mantidas pelo banqueiro com empresários, autoridades e políticos.
Nas mensagens, depois de pedir que o conteúdo fosse retirado, Vorcaro esclarece que queria derrubar apenas a publicação, e não a conta responsável pelo post.
Mais tarde, porém, demonstra dúvida sobre seguir ou não com a retirada, argumentando que o conteúdo não dizia “nada demais” e que o perfil tinha poucos seguidores.
Mourão responde que a decisão caberia ao banqueiro e pede novas instruções.
O relatório da PF não mostra o restante da conversa nem esclarece qual foi a decisão final. A publicação, no entanto, permaneceu disponível.
PF aponta monitoramento de outros perfis
O episódio da festa não foi isolado.
De acordo com a investigação, Vorcaro também pediu que Mourão acompanhasse continuamente uma conta depois de ter sido bloqueado por uma mulher no Instagram. A orientação, segundo os investigadores, era manter o perfil sob vigilância para agir caso fossem feitas publicações que pudessem prejudicar seus interesses.
Em outra situação, Vorcaro teria determinado que um perfil fosse “derrubado” e que o grupo fosse “pra cima” do responsável.
Mourão teria então informado que acionou pessoas descritas nas conversas como “os meninos”, apontadas pela PF como hackers, até conseguir o banimento da conta.
Grupo teria usado documentos falsos
Uma das partes mais graves do relatório envolve a suspeita de uso de documentos fraudulentos para tentar obter dados de usuários ou retirar conteúdos do ar.
Segundo a PF, o grupo teria produzido um ofício falso atribuído ao Ministério Público do Ceará e utilizado o e-mail institucional de uma servidora pública para simular pedidos oficiais de emergência enviados à Meta, dona do Instagram e do Facebook.
O objetivo seria dar aparência de legalidade às solicitações e conseguir informações sobre responsáveis por determinados perfis ou provocar a retirada de conteúdos.
As circunstâncias dessas ações e a participação de cada investigado ainda estão sob apuração.
“Sicário” aparece em diferentes frentes do caso Master
Felipe Mourão ganhou destaque nas investigações por aparecer como uma espécie de operador próximo a Vorcaro.
Além das redes sociais, ele é citado em outras frentes da investigação envolvendo obtenção de informações e acompanhamento de pessoas ou procedimentos considerados relevantes para os interesses do banqueiro.
A Polícia Federal tenta esclarecer até onde ia essa estrutura e se houve utilização ilegal de dados, documentos falsificados ou invasões digitais para proteger Vorcaro e seus negócios.
As mensagens vieram a público depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de parte das investigações relacionadas ao Banco Master.
O material amplia o retrato traçado pela PF sobre o entorno de Vorcaro: uma estrutura que, segundo os investigadores, não se limitava às operações financeiras do banco, mas também atuava para monitorar informações, controlar danos à imagem do empresário e tentar impedir a circulação de conteúdos considerados indesejados.

