A disputa pela abertura dos sigilos bancários, fiscais e telefônicos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (22). A campanha de Lula apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os documentos e autorizações prometidos, enquanto a defesa de Flávio informou que só apresentará os dados do senador depois de analisar o material entregue pelo adversário.
A decisão foi comunicada pela advogada Maria Cláudia Bucchianeri, responsável pela equipe jurídica da campanha de Flávio.
Segundo ela, os documentos apresentados pelo lado petista serão conferidos antes que a campanha do PL cumpra sua parte no desafio lançado durante o debate da Band.
A nova condição ocorre a três dias do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25).
Desafio começou no debate da Band
A disputa começou no domingo (18), quando Flávio acusou Lula de corrupção durante o primeiro debate do segundo turno.
Em resposta, Lula propôs que os dois candidatos abrissem seus sigilos bancários e telefônicos para que as informações fossem analisadas pelas autoridades.
O presidente também sugeriu que o procedimento alcançasse pessoas próximas às duas famílias.
Inicialmente, Flávio afirmou que aceitava o desafio, mas passou a apresentar condições adicionais para realizar a abertura de seus próprios dados.
QUADRO — COMO COMEÇOU
Lula: propôs abertura dos sigilos dos dois candidatos.
Flávio: afirmou que aceitaria, mas condicionou a medida à divulgação de informações de familiares, assessores, empresas e outros dados ligados ao presidente.
Lula: aceitou as novas exigências.
Agora: a defesa de Flávio diz que primeiro analisará o material apresentado pelo petista.
Flávio apresentou lista de 19 condições
A campanha de Flávio Bolsonaro ampliou o alcance inicialmente proposto por Lula e apresentou uma lista com 19 exigências.
Entre elas estavam dados bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos de pessoas e instituições ligadas ao presidente.
O senador também pediu informações sobre o Instituto Lula, familiares do presidente, o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, além de registros relacionados a Daniel Vorcaro e à lobista Roberta Luchsinger.
A lista incluiu ainda gastos de cartões corporativos, informações sobre a agenda da primeira-dama Janja, registros de voos da Força Aérea Brasileira e dados sobre reuniões e acessos a prédios oficiais.
QUADRO — O QUE FLÁVIO EXIGIU
Entre os dados solicitados estavam:
• sigilos de familiares de Lula;
• informações do Instituto Lula;
• dados do ex-assessor Marcola;
• gastos de cartões corporativos;
• agenda de Janja;
• informações envolvendo Daniel Vorcaro;
• registros de voos da FAB;
• dados de empresas e pessoas próximas ao presidente.
Lula aceitou as condições
A campanha de Lula anunciou na quarta-feira (21) que aceitaria as exigências apresentadas pelo adversário.
Nesta quinta-feira, representantes do presidente foram ao TSE para formalizar a entrega das autorizações e documentos.
O material inclui informações relativas ao próprio Lula, à primeira-dama Janja, ao filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ao ex-assessor Marcola e ao Instituto Lula, entre outros dados incluídos nas exigências feitas pela campanha de Flávio.
QUADRO — RESPOSTA DE LULA
Depois que Flávio ampliou as condições para a abertura dos sigilos, a campanha petista informou que não faria objeção às exigências.
A documentação foi levada ao TSE nesta quinta-feira (22).
Defesa de Flávio decide analisar antes de entregar seus dados
Apesar da entrega feita pelo adversário, os dados de Flávio ainda não foram apresentados nos mesmos termos.
Maria Cláudia Bucchianeri afirmou que a equipe do senador pretende primeiro verificar se Lula cumpriu integralmente todas as condições estabelecidas.
Somente depois dessa conferência a campanha do PL decidirá sobre a apresentação dos documentos referentes ao candidato.
A medida levanta dúvidas sobre a possibilidade de conclusão da troca de informações antes da votação do segundo turno.
Deltan Dallagnol vai conferir documentos
A campanha de Flávio escolheu Deltan Dallagnol para participar da análise dos documentos entregues por Lula.
Ex-procurador da Operação Lava Jato e senador eleito pelo Paraná, Dallagnol deverá examinar extratos, relatórios e demais informações apresentadas pela campanha petista.
A equipe de Flávio afirma que pretende procurar inconsistências e verificar se todas as condições exigidas foram realmente atendidas.
QUADRO — QUEM VAI ANALISAR
Deltan Dallagnol
Ex-procurador da Lava Jato e senador eleito, ele foi escolhido pela campanha de Flávio para conferir os documentos apresentados por Lula e pessoas próximas ao presidente.
Flávio havia prometido abrir dados de 20 anos
Em petição apresentada ao TSE, Flávio Bolsonaro afirmou estar disposto a permitir o acesso a seus sigilos bancário, fiscal e telefônico referentes aos últimos 20 anos.
O período é maior do que os oito anos inicialmente oferecidos pela campanha de Lula.
O senador também afirmou que poderia disponibilizar informações de familiares, empresas das quais participa e mensagens trocadas com Daniel Vorcaro.
A efetivação dessa abertura, no entanto, passou a depender da avaliação do material apresentado pelo adversário.
Campanha de Lula cobra cumprimento do desafio
Do lado petista, integrantes da campanha afirmam que as exigências apresentadas por Flávio foram aceitas justamente para evitar que novos obstáculos impedissem a abertura dos dados.
A expectativa agora é que o senador apresente suas próprias autorizações depois da entrega feita por Lula.
A disputa passou a ter peso político porque surgiu diretamente de acusações de corrupção feitas durante o debate presidencial.
Lula transformou essas acusações em um desafio público de transparência, posteriormente ampliado pelo próprio Flávio.
Justiça pode não ter tempo de analisar tudo antes da eleição
Mesmo que as duas campanhas apresentem todos os documentos, especialistas apontam que dificilmente haverá tempo para uma análise completa antes do segundo turno.
O volume de informações bancárias, fiscais e telefônicas pode exigir semanas ou meses de verificação.
Além disso, parte dos registros envolve terceiros, o que pode criar limitações jurídicas para uma divulgação pública integral.
QUADRO — A CORRIDA CONTRA O TEMPO
Quinta-feira (22): Lula apresenta documentos e autorizações.
Sexta-feira (23): último debate presidencial.
Domingo (25): segundo turno.
Entre a entrega dos documentos e a eleição há apenas três dias.
Impasse pode chegar ao último debate
Lula e Flávio Bolsonaro voltam a ficar frente a frente nesta sexta-feira (23), no último debate presidencial antes da eleição.
A discussão sobre os sigilos deve voltar ao confronto.
Lula poderá cobrar a apresentação dos documentos de Flávio depois de ter aceitado as condições impostas pelo adversário. Já a campanha do senador afirma que precisa primeiro confirmar se o material entregue pelo presidente atende integralmente ao que havia sido solicitado.
Assim, a três dias da eleição, o desafio lançado no debate da Band continua incompleto: Lula formalizou a entrega das autorizações exigidas, enquanto Flávio condicionou a abertura de seus próprios dados à análise prévia da documentação do adversário.

