Mudanças nas regras de reajuste ou a redução de benefícios sociais e previdenciários podem provocar impactos significativos na economia das cidades do interior brasileiro. No Ceará, a renda agregada dos municípios fora da Capital e da Região Metropolitana poderia ficar entre 10% e 13% menor em cenários sem valorização real dos pagamentos, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à FEA-USP.
O levantamento analisa a importância de aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família para a renda das famílias e para a atividade econômica dos municípios.
Nas cidades do interior cearense, essas transferências representam cerca de 40% da renda agregada. Na Capital e na Região Metropolitana de Fortaleza, a participação é de aproximadamente 22%.
Benefícios movimentam comércio e empregos
O impacto dos pagamentos vai além das famílias que recebem diretamente os recursos.
Grande parte do dinheiro de aposentadorias, BPC e programas de transferência de renda retorna rapidamente à economia local por meio da compra de alimentos, medicamentos, roupas e outros produtos e serviços.
Esse consumo movimenta supermercados, farmácias, pequenos comércios e prestadores de serviços, contribuindo também para manutenção de empregos e arrecadação municipal.
Para famílias de menor renda, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até metade de todo o orçamento doméstico.
QUADRO — PESO DOS BENEFÍCIOS NO CEARÁ
Municípios do interior: cerca de 40% da renda agregada
Fortaleza e Região Metropolitana: cerca de 22%
Famílias de baixa renda: benefícios podem representar até 50% dos rendimentos
Interior seria mais afetado
O estudo considera aproximadamente 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros localizados fora das capitais e de suas regiões metropolitanas.
Nessas cidades, a participação das transferências sociais e previdenciárias na economia pode chegar ao dobro da observada nos grandes centros urbanos.
As simulações comparam diferentes formas de reajuste dos benefícios e mostram que, em um cenário de menor crescimento real dos pagamentos, a renda agregada dos municípios do interior do País poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo da trajetória de referência.
No Ceará, a perda estimada é ainda maior, variando entre 10% e 13%.
QUADRO — IMPACTO ESTIMADO NA RENDA
Interior do Brasil: perda entre 6,8% e 10,8%
Interior do Ceará: perda entre 10% e 13%
As projeções representam cenários econômicos simulados pelos pesquisadores e não significam que essas perdas já tenham ocorrido.
Estados do Norte e Nordeste aparecem entre os mais afetados
As maiores variações projetadas aparecem principalmente em estados das regiões Norte e Nordeste, onde aposentadorias e benefícios sociais possuem maior participação na renda das famílias.
No Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, a redução da renda poderia variar entre 17% e 18%, dependendo do cenário analisado.
Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam perdas próximas de 15%.
A diferença ocorre porque, em municípios menores, os recursos transferidos pelo poder público têm participação proporcionalmente maior na economia local.
Efeito não atinge apenas quem recebe benefício
Os pesquisadores destacam que parte do impacto econômico ocorre de forma indireta.
Quando uma família recebe menos recursos, tende a reduzir o consumo. Com vendas menores, comerciantes também diminuem gastos, investimentos ou contratações. Esse movimento pode atingir outros setores sucessivamente.
Segundo o estudo, aproximadamente um terço da perda de renda projetada em alguns cenários viria justamente desse efeito indireto sobre consumo e atividade econômica.
QUADRO — COMO O EFEITO SE ESPALHA
1. Benefício perde poder de compra
2. Família reduz consumo
3. Comércio vende menos
4. Atividade econômica local diminui
5. Empregos e arrecadação também podem ser afetados
Falta de reajuste poderia ampliar pobreza
O estudo também simulou o que teria acontecido caso os benefícios não tivessem apresentado ganhos reais entre 2022 e 2025.
Nesse cenário hipotético, cerca de 2,7 milhões de pessoas que vivem fora das regiões metropolitanas poderiam ter ficado abaixo da linha da pobreza.
Dessas, aproximadamente 2,4 milhões poderiam entrar na extrema pobreza.
Os pesquisadores ressaltam que se trata de um exercício contrafactual: os números mostram o que poderia ter acontecido sob regras diferentes de reajuste e não representam pessoas que efetivamente entraram na pobreza nesse período.
Ceará poderia ter mais de 200 mil pessoas na pobreza
Na distribuição por estados, a Bahia apresentaria o maior impacto absoluto, com até 336 mil pessoas adicionais abaixo da linha da pobreza.
São Paulo apareceria em seguida, com até 263 mil, e Minas Gerais, com até 251 mil.
Maranhão, Pará e Ceará também teriam, em determinados cenários, acréscimos superiores a 200 mil pessoas em situação de pobreza.
QUADRO — SIMULAÇÃO SOBRE POBREZA
Brasil fora das regiões metropolitanas: até 2,7 milhões de pessoas adicionais abaixo da linha da pobreza
Extrema pobreza: cerca de 2,4 milhões
Ceará: aumento potencial superior a 200 mil pessoas em alguns cenários
Estudo não apresenta previsão
Os próprios pesquisadores ressaltam que os cálculos não devem ser interpretados como previsão sobre o futuro da economia brasileira.
O trabalho compara diferentes hipóteses de reajuste de aposentadorias, BPC e programas de transferência de renda para medir a dependência econômica das cidades menores em relação a esses pagamentos.
Os resultados indicam que municípios do interior são mais sensíveis a mudanças nessas políticas porque uma parcela maior da renda das famílias circula a partir de benefícios sociais e previdenciários.
No Ceará, onde essas transferências representam cerca de 40% da renda agregada das cidades fora da Região Metropolitana, mudanças nos valores pagos podem produzir efeitos não apenas sobre os beneficiários, mas também sobre comércio, emprego e atividade econômica local.

