O primeiro debate do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela Band neste domingo (18), foi marcado não apenas pelas acusações trocadas entre os candidatos, mas também pelo comportamento do senador durante os momentos em que o adversário tinha a palavra.
Flávio interrompeu respostas, fez gestos e caretas enquanto Lula falava e chegou a permanecer atrás do presidente durante parte do confronto. Em mais de uma ocasião, os apresentadores precisaram intervir para restabelecer as regras do debate.
A postura foi classificada como “arrogante” pelo cientista político Paulo Roberto Sousa, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Para ele, Flávio adotou uma estratégia de provocação corporal e de produção de cenas destinadas principalmente à repercussão nas redes sociais.
Ao mesmo tempo, várias questões feitas diretamente por Lula terminaram sem uma resposta objetiva do candidato do PL.
Apresentadora precisou chamar Flávio à responsabilidade
Um dos momentos mais tensos ocorreu durante uma discussão sobre saúde pública.
Enquanto Lula respondia à pergunta dos mediadores, Flávio, mesmo sem estar com a palavra, começou a fazer comentários e reagir ao adversário.
A jornalista Adriana Araújo precisou interromper o cronômetro e advertir o candidato.
QUADRO — ADVERTÊNCIA NO DEBATE
Adriana Araújo lembrou que Flávio já havia respondido à pergunta e pediu que respeitasse o tempo destinado ao adversário.
“O senhor não tem o direito de se manifestar sobre esse momento.”
A apresentadora então determinou que Lula tivesse seu tempo restabelecido para concluir a resposta.
A situação se repetiu nas considerações finais. Flávio permaneceu posicionado atrás de Lula enquanto o presidente fazia sua última fala, gerando nova reação da plateia e outra intervenção da mediação para que o candidato respeitasse o espaço do adversário.
Gestos e provocações marcaram participação
Ao longo do confronto, Flávio frequentemente reagiu às respostas de Lula com gestos negativos, expressões faciais e comentários mesmo quando seu microfone estava desligado.
O comportamento provocou irritação de Lula e obrigou os mediadores a interromper o debate.
Para Paulo Roberto Sousa, Flávio passou boa parte do programa investindo nesse tipo de comportamento.
O cientista político avaliou que a estratégia pode funcionar entre eleitores que já apoiam o senador, mas tem menor capacidade de alcançar quem ainda está indeciso.
QUADRO — AVALIAÇÃO DO CIENTISTA POLÍTICO
Paulo Roberto Sousa classificou a postura de Flávio como “arrogante”.
Segundo o professor, o candidato passou parte significativa do debate investindo em provocações, gestos e ataques, em vez de aprofundar respostas sobre políticas públicas.
Perguntas centrais ficaram sem resposta
Além da postura durante as falas de Lula, Flávio foi criticado por não responder diretamente a diversas questões levantadas pelo presidente.
Um levantamento publicado após o debate identificou perguntas sobre economia, saúde, relações com os Estados Unidos, o banqueiro Daniel Vorcaro e outros temas que receberam respostas parciais ou foram desviadas para outros assuntos.
Em determinados momentos, o senador respondeu com críticas ao governo Lula ou mudou o foco da discussão sem enfrentar o núcleo da pergunta.
O próprio cientista político Paulo Roberto Sousa afirmou que, em alguns temas, Flávio acionou uma espécie de “gerador de lero-lero” para escapar dos questionamentos.
Dinheiro de Vorcaro virou uma das cobranças
Um dos assuntos mais insistentes levantados por Lula foi a relação entre Daniel Vorcaro e o financiamento da produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
Lula perguntou repetidamente sobre o dinheiro destinado ao projeto e cobrou explicações do adversário.
Flávio respondeu com ironias e ataques ao presidente, mas não esclareceu diretamente todos os pontos apresentados na cobrança.
As mensagens encontradas no celular de Vorcaro e as movimentações financeiras relacionadas ao filme vêm sendo objeto de reportagens e investigações, e o tema entrou no centro do confronto entre os candidatos.
QUADRO — PERGUNTAS QUE FICARAM NO CENTRO DO DEBATE
Entre os pontos levantados por Lula estavam:
• recursos de Daniel Vorcaro destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro;
• relações políticas da família Bolsonaro;
• políticas de saúde;
• licença-maternidade;
• relações do Brasil com os Estados Unidos;
• propostas econômicas e cortes de gastos.
Desafio para abrir sigilos ficou sem resposta direta
O momento mais objetivo da cobrança por transparência ocorreu na reta final.
Depois de uma sequência de acusações de corrupção feitas por Flávio, Lula propôs que os dois abrissem seus sigilos bancário e telefônico.
O presidente sugeriu que os dados fossem entregues às autoridades antes da eleição para permitir uma comparação direta das movimentações financeiras e contatos das duas famílias.
Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas não disse que aceitava o desafio.
Também não apresentou uma negativa direta.
QUADRO — O DESAFIO DOS SIGILOS
Lula propôs:
abrir o sigilo bancário e telefônico das duas famílias antes da eleição.
Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas não aceitou nem recusou objetivamente a proposta.
Para Paulo Roberto Sousa, esse foi um dos momentos mais importantes do debate justamente pela simplicidade da proposta: diante das acusações de corrupção, os dois lados colocariam suas informações à disposição das autoridades.
Acusou corrupção, mas não aderiu à proposta de transparência
A contradição chamou atenção porque Flávio passou boa parte do confronto acusando Lula e integrantes de sua família de envolvimento em irregularidades.
Quando Lula transformou a discussão em uma proposta concreta de abertura dos dados bancários e telefônicos, porém, o senador não acompanhou o desafio.
O episódio passou a ser usado por analistas como exemplo da diferença entre lançar acusações durante um debate e aceitar uma medida objetiva de transparência capaz de atingir os dois lados.
Analista diz que Flávio não demonstrou domínio da máquina pública
Paulo Roberto Sousa também avaliou que Flávio mostrou dificuldades para aprofundar propostas relacionadas ao funcionamento do Executivo federal.
Na análise do professor, o candidato falou em alguns momentos como parlamentar e, em outros, apresentou propostas mais próximas das atribuições de um prefeito do que das responsabilidades de um presidente da República.
O especialista reconheceu que Flávio apresentou propostas na área de segurança pública, mas considerou que boa parte delas dialogou principalmente com o eleitorado que já apoia sua candidatura.
Lula começou tenso e melhorou ao longo do debate, avalia especialista
O mesmo cientista político também fez críticas ao desempenho de Lula.
Segundo Sousa, o presidente começou o confronto nervoso e demonstrou dificuldade para reagir às provocações iniciais de Flávio.
Na avaliação do professor, porém, Lula ficou mais confortável a partir da metade do debate e passou a falar mais sobre experiência administrativa, políticas públicas e propostas.
O analista considerou que o presidente também poderia ter sido mais objetivo em determinados momentos e apresentado de forma mais clara uma agenda para um eventual novo mandato.
Debate deixou perguntas importantes para o próximo confronto
Um levantamento feito após o programa mostrou que os dois candidatos desviaram de parte das perguntas recebidas.
No caso de Flávio, porém, permaneceram em aberto algumas das cobranças que Lula repetiu ao longo do confronto, especialmente aquelas relacionadas às movimentações envolvendo Vorcaro e ao desafio para abertura dos sigilos.
Com um novo debate previsto para sexta-feira (23), na TV Globo, essas questões poderão voltar ao centro do confronto.
Até lá, permanece uma imagem marcante do encontro na Band: enquanto Flávio apostava em gestos, interrupções e provocações, a própria mediação precisou lembrá-lo de uma regra básica de qualquer debate — respeitar o momento em que o adversário está com a palavra.

