Um episódio de constrangimento envolvendo uma criança de 9 anos que vendia bombons na Beira-Mar de Fortaleza provocou uma grande mobilização de solidariedade no Ceará. Depois de ser filmado por uma influenciadora que pediu que ele fizesse o gesto de “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e em seguida se recusou a comprar seus doces, Matheus passou a receber doações, presentes e apoio de moradores, motociclistas, entregadores e influenciadores.
Conhecido como “Matheus dos Bombons”, o garoto é autista, perdeu a mãe e mora com a avó, Inês de Maria do Nascimento, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Ele vende balas e bombons na região da Beira-Mar para ajudar nas despesas da família.
Depois que o vídeo viralizou, moradores organizaram uma vaquinha para ajudar Matheus e a avó. Uma chave Pix em nome de Inês também começou a circular nas redes sociais.
A mobilização ganhou força nesta quinta-feira (29), quando motociclistas e entregadores foram até a casa do menino levando alimentos, presentes e uma bicicleta.
Vídeo foi gravado no Mercado dos Peixes
O episódio ocorreu no Mercado dos Peixes, um dos pontos mais movimentados da orla de Fortaleza.
Matheus se aproximou de uma mesa para oferecer os doces que vendia.
A influenciadora digital Valéria Diniz, que estava acompanhada de amigas, começou a conversar com a criança e perguntou sobre a preferência política da família.
Quando Lula foi mencionado, Valéria pediu que Matheus fizesse o gesto da letra “L”.
O menino atendeu.
Logo depois, a influenciadora afirmou que não compraria os doces.
No vídeo, é possível ouvir risadas das mulheres que estavam à mesa.
Na publicação original, Valéria ainda escreveu uma mensagem direcionada à família do garoto.
Matheus tem apenas 9 anos e, portanto, nem sequer possui idade para votar.
A repercussão ocorreu principalmente pela forma como uma criança foi exposta publicamente e associada a uma disputa política entre adultos.
Menino voltou para casa triste, conta avó
A avó de Matheus relatou que o menino ficou muito abalado depois do episódio.
Segundo Inês, ele voltou para casa calado e com os olhos cheios de lágrimas.
Matheus vive com a avó desde a morte da mãe.
Inês também é responsável por outra criança e a família enfrenta dificuldades financeiras.
A venda de doces é utilizada por Matheus para ajudar nas despesas da casa.
A história familiar ampliou ainda mais a comoção depois que as imagens começaram a circular.
Solidariedade tomou conta das redes
A reação ao vídeo foi rápida.
Internautas passaram a procurar informações sobre Matheus e sua família e começaram a divulgar formas de ajudá-los.
Influenciadores cearenses também entraram na mobilização.
As campanhas tinham como objetivo ajudar em necessidades básicas da família e oferecer melhores condições ao menino.
A corrente de solidariedade incluiu:
• doações em dinheiro;
• alimentos;
• presentes;
• compra dos bombons vendidos por Matheus;
• divulgação de uma chave Pix;
• uma bicicleta entregue ao garoto;
• visitas de motociclistas e entregadores.
Motociclistas fazem homenagem
Uma das cenas que mais repercutiram ocorreu quando um grupo de motociclistas e entregadores foi até a casa de Matheus.
Eles organizaram uma homenagem ao menino, levaram donativos e compraram seus doces.
Matheus também ganhou uma bicicleta.
Vídeos da mobilização passaram a circular nas redes sociais como contraponto às imagens do constrangimento sofrido pelo garoto.
O episódio, que começou com a exposição pública de uma criança, terminou provocando uma corrente de ajuda à família.
Vaquinha busca ajudar família
Moradores e internautas organizaram campanhas de arrecadação para Matheus e sua avó.
O dinheiro deverá ser utilizado para ajudar nas despesas familiares e necessidades do menino.
Uma chave Pix em nome de Inês de Maria do Nascimento foi divulgada como canal de contribuição.
Até o momento, não foi informado um valor total consolidado das doações recebidas.
A mobilização continua circulando nas redes.
Campanha quer levar Matheus à posse de Lula
A repercussão também provocou outra iniciativa.
Internautas começaram uma campanha para que Matheus seja convidado a participar da posse de Lula para o quarto mandato, marcada para 5 de janeiro de 2027.
Uma das propostas que passaram a circular nas redes pede que o menino participe da cerimônia em Brasília e suba a rampa do Palácio do Planalto.
Não há, até agora, confirmação oficial de convite por parte da Presidência.
A campanha surgiu espontaneamente entre apoiadores sensibilizados com a história.
Influenciadora havia declarado apoio a Flávio Bolsonaro
Valéria Diniz havia manifestado apoio público a Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Lula no segundo turno presidencial realizado no último domingo (25).
Seu perfil principal no Instagram tinha cerca de 70 mil seguidores.
Depois da repercussão negativa do vídeo, a conta ficou indisponível.
Valéria passou posteriormente a utilizar outro perfil para se manifestar.
Influenciadora pede desculpas
Após as críticas, Valéria publicou um pedido de desculpas.
Ela afirmou que não pretendia transmitir aquela imagem e pediu perdão a Matheus e à família.
Posteriormente, concedeu entrevista e afirmou ter se arrependido da gravação.
A influenciadora também declarou que não tinha intenção de constranger o menino.
Em seu pedido de desculpas, Valéria afirmou que esperava que Matheus e a família pudessem perdoá-la.
O pedido, entretanto, não encerrou a repercussão do caso.
Caso chega à Câmara Municipal
O episódio também provocou reação política em Fortaleza.
Vereadores cobraram esclarecimentos e defenderam a apuração da exposição da criança.
Até a última atualização, não havia confirmação de denúncia criminal ou processo formal contra a influenciadora.
A discussão envolve principalmente os limites da exposição de crianças nas redes sociais e a responsabilidade de adultos ao publicar imagens de menores em situações constrangedoras.
Criança não tem idade para votar
Outro ponto destacado durante a repercussão é que Matheus tem 9 anos.
No Brasil, o voto só é facultativo a partir dos 16 anos.
Portanto, embora tenha repetido uma preferência política ouvida em seu ambiente familiar, Matheus não participou da eleição presidencial.
A gravação transformou uma criança em personagem de uma disputa política da qual ela legalmente nem poderia participar.
História provoca debate sobre exposição infantil
Além do caráter político, o episódio reacendeu discussões sobre proteção de crianças nas redes sociais.
Vídeos envolvendo menores podem alcançar milhares ou milhões de pessoas rapidamente, muitas vezes sem que a criança tenha dimensão das consequências da exposição.
No caso de Matheus, a própria gravação foi publicada pela influenciadora e posteriormente republicada por inúmeros perfis.
A mobilização em defesa do menino passou então a disputar espaço nas redes com o vídeo original.
Do constrangimento à solidariedade
Em pouco mais de 24 horas, a história mudou completamente de dimensão.
Matheus saiu de uma situação em que teve a venda recusada diante de risadas para receber apoio de pessoas que sequer conhecia.
Ganhou uma bicicleta, teve seus doces comprados, recebeu alimentos, presentes e doações e viu uma rede de solidariedade se formar em torno de sua família.
A avó, emocionada, agradeceu o apoio recebido.
A mobilização continua.
E o menino que havia sido exposto por fazer um “L” passou a ser cercado por uma corrente de ajuda muito maior do que o episódio que o colocou involuntariamente no centro das redes sociais.

