O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, acertaram uma nova reunião bilateral após se encontrarem nesta sexta-feira (30), durante a reunião de chanceleres do G20, em Atlanta, no estado norte-americano da Geórgia.
Segundo fontes do Itamaraty, os dois conversaram durante a recepção de boas-vindas do encontro e concordaram em realizar uma reunião mais ampla em novembro. A data e o local ainda serão definidos.
O contato ocorre em um momento de tensão diplomática entre Brasília e Washington, poucos dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e em meio às declarações do presidente norte-americano Donald Trump questionando, sem apresentar provas, o resultado da eleição brasileira.
Também pesa sobre a relação entre os dois países a presença de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos depois de deixar o Brasil após a eleição e descumprir determinação do Supremo Tribunal Federal relacionada à entrega de seus passaportes.
Apesar desse cenário, Vieira e Rubio optaram por manter aberto o principal canal de diálogo diplomático entre os dois governos.
Onde ocorreu o encontro: Atlanta, nos Estados Unidos
Quando: sexta-feira, 30 de outubro
Quem se encontrou: Mauro Vieira e Marco Rubio
Próximo passo: nova reunião bilateral
Previsão: novembro, segundo fontes do Itamaraty
Data e local: ainda serão definidos
Conversa aconteceu durante recepção do G20
Vieira e Rubio participam da Reunião de Ministros das Relações Exteriores do G20, encontro que antecede a reunião dos chefes de Estado e de governo das maiores economias do mundo.
O primeiro contato entre os dois nesta sexta-feira foi rápido.
Rubio, anfitrião do encontro, cumprimentou Vieira antes do início das sessões de trabalho, assim como fez com outros chanceleres.
Mais tarde, os dois voltaram a se encontrar durante um coquetel oferecido às delegações.
Foi nessa segunda conversa que decidiram marcar uma reunião bilateral.
O encontro mais longo deverá servir para revisar os principais temas da relação Brasil-Estados Unidos.
Nenhum assunto específico foi aprofundado
A conversa desta sexta não teve caráter de negociação formal.
Segundo relatos diplomáticos, Vieira e Rubio não entraram em detalhes sobre questões específicas da agenda bilateral.
O objetivo foi principalmente manter o diálogo e preparar um encontro mais amplo.
Questões comerciais, segurança, crime organizado e a relação política entre os governos estão entre os assuntos que vêm sendo tratados pelos dois países e poderão aparecer na próxima reunião.
Primeiro contato após reeleição de Lula
O encontro tem peso político por ser o primeiro contato de alto nível entre as diplomacias brasileira e norte-americana depois do segundo turno das eleições presidenciais.
Lula foi reeleito no domingo (25), derrotando Flávio Bolsonaro.
O presidente brasileiro recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário.
Desde então, diferentes governos e líderes internacionais reconheceram o resultado e felicitaram Lula.
Durante a reunião do G20 em Atlanta, Mauro Vieira também recebeu cumprimentos de representantes de diversos países pela reeleição do presidente brasileiro.
Trump ainda não reconheceu formalmente resultado
A posição do governo norte-americano, porém, tornou-se um dos pontos de tensão.
Donald Trump voltou a questionar publicamente a eleição brasileira e insinuou, sem apresentar evidências, que teria ocorrido fraude.
Até agora, o presidente norte-americano não fez um reconhecimento formal da reeleição de Lula.
As acusações de fraude não são acompanhadas por provas.
O Tribunal Superior Eleitoral concluiu a apuração e confirmou oficialmente o resultado do segundo turno.
Governo brasileiro evita ampliar crise
Apesar das declarações de Trump, a estratégia do Itamaraty tem sido manter os canais institucionais de diálogo com Washington.
A conversa entre Vieira e Rubio segue essa linha.
O governo brasileiro busca separar as declarações políticas do presidente norte-americano das relações de Estado entre Brasil e Estados Unidos, que envolvem comércio, investimentos, segurança, energia, tecnologia, defesa, meio ambiente e cooperação internacional.
A nova reunião deverá permitir que os dois chanceleres tratem dessas questões diretamente.
Caso Flávio Bolsonaro aumenta tensão
Outro elemento delicado é a ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos depois da derrota eleitoral.
O senador deixou o Brasil após ter sido intimado a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A Polícia Federal já havia alertado o STF sobre risco de evasão do território nacional.
Flávio atravessou a fronteira com a Argentina, seguiu em um voo privado para o Equador e depois chegou aos Estados Unidos.
A situação passou a produzir repercussões dentro do próprio Congresso norte-americano.
Democratas cobram explicações do governo Trump
Um grupo de 25 deputados democratas enviou uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo explicações sobre eventual participação do governo norte-americano na entrada de Flávio e de sua família nos Estados Unidos.
Os parlamentares querem saber, entre outros pontos, quando Washington teve conhecimento das restrições impostas pela Justiça brasileira e se funcionários do governo auxiliaram na logística da viagem.
Também questionam quais mecanismos migratórios foram utilizados.
O governo Trump terá de enfrentar essas cobranças internamente enquanto mantém negociações diplomáticas com o governo Lula.
Vieira e Rubio não discutiram Flávio no encontro
Apesar da repercussão, o caso não foi tratado na breve conversa desta sexta-feira, segundo relatos diplomáticos.
A posição brasileira tem sido evitar transformar a situação individual de Flávio Bolsonaro no eixo central da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos.
O tema, contudo, poderá continuar produzindo impactos políticos e jurídicos independentemente da estratégia diplomática dos dois governos.
Comércio é uma das principais pendências
As relações comerciais devem ocupar espaço importante na próxima reunião.
Brasil e Estados Unidos já vinham negociando há meses uma série de divergências tarifárias.
Em agosto, após uma conversa entre Lula e Trump, os dois governos retomaram formalmente o diálogo comercial.
Mauro Vieira e representantes da área econômica brasileira passaram a participar de reuniões com autoridades norte-americanas para tentar solucionar as medidas impostas a produtos brasileiros.
Negociações começaram após conversa Lula-Trump
O diálogo comercial ganhou novo impulso depois de um telefonema entre Lula e Trump em 21 de agosto.
Dez dias depois, representantes dos dois governos participaram de uma reunião virtual para discutir as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
O Brasil contestou as medidas norte-americanas e afirmou que parte das justificativas apresentadas por Washington não correspondia às práticas comerciais brasileiras.
Ao mesmo tempo, Brasília manteve a disposição para negociar.
Reunião presencial ocorreu em setembro
Em 30 de setembro, Mauro Vieira e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços participaram de uma nova rodada de negociações nos Estados Unidos.
Os brasileiros se reuniram com Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos.
O encontro ocorreu durante outra agenda do G20 e terminou com o compromisso de aprofundar as negociações.
Os dois lados concordaram em buscar soluções para questões tarifárias e não tarifárias.
Também foi discutida a criação de um grupo de trabalho para avançar em um possível entendimento comercial.
Nova reunião pode retomar negociações econômicas
A conversa entre Vieira e Rubio agora ocorre em um contexto político diferente.
Quando as negociações comerciais anteriores foram realizadas, a campanha presidencial brasileira ainda estava em andamento.
Agora, Lula está reeleito e terá mais quatro anos de mandato.
Isso permite que os dois governos discutam a relação bilateral com um horizonte político mais longo.
A continuidade das negociações comerciais deverá ser um dos principais interesses brasileiros na próxima reunião.
Crime organizado também está na agenda
Outro tema que vem sendo discutido entre os dois países é a cooperação contra o crime organizado transnacional.
Organizações criminosas que atuam em diferentes países, lavagem de dinheiro, narcotráfico e crimes financeiros fazem parte da agenda de cooperação entre Brasília e Washington.
O assunto poderá ser incluído na reunião bilateral.
Os Estados Unidos e o Brasil mantêm há décadas mecanismos de cooperação policial e judicial.
G20 serve de espaço para reduzir tensões
Encontros multilaterais como o G20 são frequentemente utilizados para conversas paralelas entre países.
Mesmo quando não existe uma reunião bilateral formal previamente agendada, presidentes, chanceleres e ministros aproveitam o evento para estabelecer contatos e preparar negociações futuras.
Foi o que aconteceu com Mauro Vieira e Marco Rubio em Atlanta.
O encontro desta sexta-feira não resolveu as divergências existentes, mas estabeleceu um próximo passo concreto: os dois voltarão à mesa para uma conversa dedicada exclusivamente à relação Brasil-Estados Unidos.
Vieira recebeu cumprimentos pela vitória de Lula
Enquanto a relação com Washington permanece mais delicada, o chanceler brasileiro recebeu manifestações de outros participantes do G20 sobre a eleição.
Representantes de países como China, Alemanha, França, Canadá, México, Índia, Reino Unido, Polônia e Turquia, além da União Europeia, cumprimentaram Vieira pela reeleição de Lula.
As manifestações ocorreram durante diferentes momentos da agenda em Atlanta.
O resultado brasileiro já havia sido reconhecido por diversos governos desde o domingo.
Relação Brasil-EUA atravessa momento sensível
Brasil e Estados Unidos mantêm uma das relações diplomáticas mais antigas do continente e possuem uma agenda econômica de grande dimensão.
As divergências recentes, entretanto, criaram um dos momentos mais delicados da relação bilateral nos últimos anos.
Entre os pontos de tensão estão:
• as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros;
• as declarações de Trump sobre a eleição brasileira;
• a ausência, até agora, de reconhecimento formal da reeleição de Lula por Trump;
• a situação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos;
• as cobranças de parlamentares democratas sobre a atuação do governo norte-americano;
• divergências políticas entre os dois governos em temas internacionais.
Ao mesmo tempo, os dois países continuam negociando em áreas comerciais, econômicas e de segurança.
Diplomacia aposta no diálogo
O acerto de uma nova reunião indica que Brasília e Washington pretendem evitar uma ruptura dos canais diplomáticos.
Vieira e Rubio já mantêm interlocução direta e voltam agora a assumir o papel de organizar uma relação bilateral atravessada por divergências políticas.
A estratégia brasileira é preservar as relações de Estado e defender os interesses comerciais e diplomáticos do País independentemente das posições adotadas por Trump na política interna e eleitoral brasileira.
A próxima conversa deverá mostrar até que ponto os dois governos conseguem separar esses conflitos da extensa agenda de cooperação entre Brasil e Estados Unidos.
Por enquanto, o resultado concreto do encontro em Atlanta é a manutenção do diálogo: dias depois da reeleição de Lula e em meio a uma das fases mais tensas da relação com Washington, os chefes da diplomacia dos dois países decidiram voltar a se reunir.

