Casos de bullying, intimidação, ameaças e exposição de crianças e adolescentes por divergências políticas passaram a ser registrados em instituições de ensino de diferentes regiões do Brasil durante e após as Eleições 2026. Diante da escalada de episódios, o Ministério da Educação (MEC) acionou a Polícia Federal para investigar ameaças contra universidades federais, estudantes e professores.
Os relatos incluem xingamentos, comentários preconceituosos, publicação de fotografias de menores sem autorização, manipulação de imagens com inteligência artificial e até ameaças de violência sexual.
Parte dos casos ocorreu após manifestações estudantis realizadas depois do primeiro turno. Outros surgiram depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno de 25 de outubro.
No Rio de Janeiro, estudantes que manifestaram apoio a Lula foram alvo de comentários ofensivos e ameaças nas redes sociais. Em outros estados, também foram registrados conflitos envolvendo alunos com diferentes posições políticas.
O MEC afirma que as escolas e universidades devem ser espaços de pluralidade, respeito e convivência democrática e que ameaças ou discriminação não podem ser confundidas com liberdade de expressão.
As denúncias já incluem exposição de menores, manipulação de fotografias, insultos por condição social, ameaças, referências a violência sexual e ataques contra universidades.
A Polícia Federal e a Advocacia-Geral da União foram acionadas pelo Ministério da Educação.
Crianças têm fotos retiradas das redes e manipuladas
Um dos casos que ganharam repercussão aconteceu no Rio de Janeiro depois de uma manifestação realizada em 7 de outubro, três dias após o primeiro turno presidencial.
Estudantes, professores e familiares participaram de uma caminhada entre a Candelária e a Cinelândia, no Centro do Rio.
O ato, organizado por alunos da rede pública, defendia a democracia, a manutenção de direitos e uma educação pública de qualidade.
Depois da manifestação, fotografias de crianças e adolescentes começaram a aparecer em páginas políticas nas redes sociais.
Segundo familiares ouvidos pela imprensa, imagens originalmente publicadas em perfis pessoais foram retiradas dessas contas e republicadas sem autorização.
Entre os estudantes expostos estavam alunos menores de idade do Colégio Pedro II.
Imagem foi alterada por inteligência artificial
Um dos episódios mais graves envolveu uma fotografia de estudantes que acabou manipulada digitalmente.
A imagem original foi modificada com inteligência artificial para alterar as roupas das crianças e fazê-las parecer pessoas em situação de rua.
Também foi acrescentada uma bandeira de Cuba.
A montagem foi posteriormente publicada em um perfil político.
Familiares classificaram o conteúdo como preconceituoso e ofensivo.
Nos comentários, usuários também fizeram insinuações relacionadas a criminalidade e publicaram referências de teor sexual envolvendo menores.
A avó que havia divulgado originalmente uma das fotografias apagou a publicação depois da repercussão.
Pais denunciaram conteúdo às plataformas
Algumas famílias registraram boletins de ocorrência e denunciaram as publicações às próprias redes sociais.
Segundo os responsáveis, Meta e X foram comunicadas sobre conteúdos considerados ofensivos.
Em alguns casos, as famílias disseram ter recebido resposta de que as plataformas não haviam identificado violação suficiente para retirada imediata.
Diante disso, responsáveis começaram a buscar também Ministério Público, Defensoria Pública e Justiça.
Alunos que apoiaram Lula sofreram ameaças após segundo turno
Os conflitos continuaram depois da votação de 25 de outubro, quando Lula foi reeleito presidente.
Na escola particular SAP, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, fotografias de estudantes que haviam manifestado apoio ao presidente foram divulgadas em um perfil fechado no Instagram.
As imagens apareceram acompanhadas por comentários depreciativos relacionados à condição social dos adolescentes.
Entre as mensagens estavam referências como “isso é coisa de pobre” e ataques pessoais contra as estudantes.
Uma das adolescentes também teria recebido uma mensagem afirmando: “Sei de muita coisa sua”.
Os pais procuraram a Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima, no Rio.
O caso foi registrado como injúria e ameaça.
Casos também aparecem em São Paulo, Paraná e Distrito Federal
Os episódios não estão restritos ao Rio.
Escolas de São Paulo, Paraná e Distrito Federal também registraram relatos de conflitos políticos entre estudantes.
Há denúncias de xingamentos, intimidações, cercos coletivos contra alunos e até ameaças de violência sexual.
Os episódios envolvem jovens com diferentes posicionamentos políticos, embora parte relevante dos casos divulgados após o segundo turno tenha como vítimas estudantes identificados como apoiadores de Lula ou pertencentes a famílias que votaram no presidente.
Em Foz do Iguaçu, no Paraná, um estudante de 12 anos foi chamado de “petista nojento”.
Em São Paulo, uma aluna também de 12 anos teria sido cercada por colegas em meio a discussões políticas.
Outras instituições receberam relatos de insultos e ameaças graves.
MEC aciona Polícia Federal
A escalada das ameaças levou o Ministério da Educação a pedir formalmente a atuação da Polícia Federal.
O pedido não está restrito ao bullying entre alunos.
O MEC também recebeu ameaças contra universidades federais, professores e estudantes do ensino superior.
Os ofícios enviados à PF mencionam risco de violência, destruição de patrimônio público e utilização de símbolos nazistas.
A Advocacia-Geral da União também foi acionada para avaliar as medidas jurídicas necessárias.
Dez universidades federais relataram ameaças
Ao menos dez instituições federais haviam comunicado episódios ao governo.
Entre elas estão:
Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Universidade Federal de Jataí (UFJ), Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
O governo considera especialmente grave o fato de algumas mensagens fazerem referências a violência física e ataques contra o patrimônio das instituições.
MEC diz que período eleitoral aumenta gravidade
Nos documentos enviados às autoridades, o Ministério da Educação afirmou que o contexto político-eleitoral torna ainda mais grave a circulação desse tipo de ameaça.
Segundo a pasta, ações destinadas a intimidar estudantes e professores podem comprometer o debate democrático e o funcionamento das instituições de ensino.
Depois da conclusão da eleição, o MEC informou que continua monitorando novos episódios para encaminhá-los à PF e à AGU.
Liberdade de expressão não permite ameaça
Especialistas ouvidos na reportagem ressaltam que discordar politicamente faz parte da democracia.
A liberdade de expressão, porém, não protege ameaças, perseguições ou ataques contra outras pessoas.
A doutoranda em Educação da Universidade Estadual de Campinas Danila Di Pietro, integrante do Observatório de Direitos Humanos em Escolas, ressalta que existe um limite entre manifestar uma opinião e utilizar essa opinião para humilhar ou agredir alguém.
Para ela, crianças e adolescentes muitas vezes reproduzem comportamentos e discursos que observam entre adultos.
O desafio das escolas é justamente impedir que divergências políticas se convertam em violência.
ECA protege imagem das crianças
O Estatuto da Criança e do Adolescente garante proteção à integridade física, psíquica e moral dos menores de idade.
Também protege sua imagem.
O juiz Sérgio Luiz Ribeiro, da 4ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, explicou que o uso de fotografias de crianças para ridicularização ou ofensa pode produzir consequências jurídicas.
Dependendo do conteúdo, a publicação pode até configurar crime, como injúria.
A proteção vale independentemente de a exposição ter motivação política, racial, religiosa ou de outra natureza.
Pais podem procurar Justiça e Defensoria
Quando crianças ou adolescentes são expostos ou ameaçados, a orientação é preservar as provas.
Capturas de tela, mensagens, nomes de perfis, links, fotografias e registros das comunicações podem ajudar a demonstrar o ocorrido.
As famílias podem procurar a direção da escola, registrar ocorrência policial e, dependendo do caso, buscar orientação de advogado ou da Defensoria Pública.
O Ministério Público também pode ser acionado.
Escola pode estabelecer regras para símbolos políticos
O debate também levantou dúvidas sobre a possibilidade de instituições de ensino restringirem manifestações políticas.
O ECA não possui uma regra específica sobre uso de adesivos, camisetas ou outros símbolos partidários dentro das escolas.
As próprias instituições, porém, podem estabelecer normas de convivência para preservar o ambiente escolar.
Essas regras precisam respeitar os direitos dos estudantes e não podem ser utilizadas como instrumento de discriminação.
Especialista defende que política não seja proibida nas escolas
Para Danila Di Pietro, simplesmente impedir qualquer discussão política também não resolve o problema.
A pesquisadora defende que as escolas promovam educação política de forma contínua.
O objetivo, segundo ela, não deve ser convencer estudantes a apoiar determinado candidato ou partido.
A proposta é ensinar crianças e adolescentes a compreender diferentes ideias, debater problemas coletivos e lidar com opiniões divergentes sem violência.
Debate deve sair dos candidatos e chegar às ideias
Uma das sugestões é reduzir a personalização do debate.
Em vez de concentrar as discussões em Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro político, professores podem trabalhar temas concretos.
Segurança pública, alimentação, educação, desigualdade, saúde e direitos sociais são exemplos de questões que podem ser apresentadas aos estudantes.
Para alunos mais velhos, também é possível analisar planos de governo e comparar propostas.
A abordagem deve respeitar a idade e o nível de maturidade de cada turma.
Crianças reproduzem violência dos adultos
Os especialistas chamam atenção para outro aspecto dos episódios recentes.
Crianças não criam suas referências políticas de forma isolada.
Elas observam comportamentos de familiares, influenciadores, professores, figuras públicas e conteúdos das redes sociais.
Quando insultos, ameaças e discursos agressivos são naturalizados entre adultos, adolescentes podem reproduzir os mesmos padrões dentro da escola.
O problema deixa então de ser simplesmente uma discussão eleitoral e passa a afetar a convivência cotidiana.
Famílias também têm responsabilidade
A prevenção não cabe apenas às escolas.
Pais e responsáveis também precisam ensinar crianças a conviver com pessoas que pensam de forma diferente.
A orientação é evitar transformar adversários políticos em inimigos pessoais e mostrar que a discordância não autoriza humilhação ou violência.
A comunicação entre escola e famílias também é considerada essencial quando surgem conflitos.
Segundo turno ampliou tensão
Parte dos relatos apareceu depois de uma eleição presidencial marcada por forte polarização.
Lula foi reeleito no dia 25 de outubro depois de derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Nos dias seguintes, outras formas de violência e perseguição política também passaram a ser denunciadas no País, incluindo casos no ambiente de trabalho e ameaças contra comunidades indígenas.
Nas escolas, a preocupação é impedir que a mesma radicalização seja transferida para crianças e adolescentes.
Política pode ser discutida; violência, não
Para educadores e autoridades, a resposta aos episódios não deve ser retirar completamente a política das salas de aula.
O desafio é estabelecer uma distinção clara.
Discutir ideias, governos, políticas públicas e eleições faz parte da formação cidadã.
Ameaçar colegas, ridicularizar crianças, espalhar fotografias sem autorização ou atacar alguém pela escolha eleitoral ultrapassa esse limite.
É justamente essa diferença que a Polícia Federal, as escolas e as famílias agora terão de enfrentar enquanto novas denúncias são apuradas.
A mensagem central do MEC é que as instituições de ensino precisam continuar sendo espaços de debate — mas também de proteção, respeito e convivência democrática.

