A retirada de Macklemore da turnê “Loop”, de Ed Sheeran, depois de manifestações públicas do rapper em defesa da Palestina, provocou uma crise na série de shows do cantor britânico nos Estados Unidos. A decisão levou todos os demais artistas de abertura a abandonarem a turnê em solidariedade ao rapper e também dividiu nomes conhecidos do entretenimento entre críticas e manifestações de apoio à medida.
Macklemore estava escalado para participar de oito dos dez shows restantes da etapa norte-americana. Segundo a promotora Messina Touring Group, diferentes estádios avisaram que não receberiam apresentações caso o rapper permanecesse no line-up. A empresa afirmou que a manutenção dele poderia levar ao cancelamento de datas e afetar centenas de milhares de fãs.
Ed Sheeran afirmou posteriormente que a decisão de retirar Macklemore não partiu dele, mas da promotora e dos locais responsáveis pelas apresentações. O cantor disse que tentou intermediar uma solução, mas que a posição das casas de shows acabou prevalecendo.
O que Macklemore disse no palco
A controvérsia começou durante uma apresentação no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no início de setembro. Antes de cantar “Hind’s Hall”, música lançada em apoio aos palestinos, Macklemore gritou “Free Palestine” e afirmou que queria que moradores de Gaza e da Cisjordânia soubessem que não haviam sido esquecidos.
No mesmo discurso, o rapper procurou diferenciar suas críticas ao governo israelense de ataques à população judaica. Ele declarou que sua posição tinha como objetivo defender paz, dignidade e igualdade para os palestinos.
Depois da apresentação, o Israeli-American Council lançou uma petição pedindo sua retirada da turnê. A entidade considerou as manifestações ofensivas e argumentou contra a utilização dos shows para esse tipo de posicionamento político.
Macklemore, por sua vez, afirmou que vinha expressando posições semelhantes havia anos e avaliou que a reação ganhou outra dimensão por ele estar se apresentando diante do público de um dos maiores artistas pop do mundo. Ele também disse não guardar ressentimento pessoal contra Sheeran, a quem chamou de amigo.
Todos os artistas de abertura deixam turnê
A exclusão produziu um efeito dominó. Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e a banda irlandesa Beoga anunciaram que não continuariam participando da turnê.
Finneas afirmou que artistas não deveriam ser silenciados por se posicionarem em defesa de pessoas oprimidas. Lukas Graham declarou que músicos deveriam poder falar sobre guerras, mortes de civis e crianças atingidas por conflitos.
Aaron Rowe e Beoga relacionaram a decisão à própria história irlandesa. Rowe citou experiências de colonização, fome e ocupação, enquanto o Beoga ressaltou sua participação no movimento Artists for Palestine.
A saída teve impacto especial na própria estrutura dos shows de Sheeran. Além de atuar como atração de abertura, o Beoga acompanhava o cantor britânico em partes do repertório influenciadas pela música tradicional irlandesa. Finneas, por sua vez, estava previsto para abrir os shows de Sheeran em São Paulo, marcados para dezembro.
Ed Sheeran defende shows sem política
Ao se pronunciar sobre a controvérsia, Sheeran afirmou que prefere manter suas apresentações como ambientes de união, entretenimento e convivência, sem transformá-las em fóruns políticos.
O britânico disse ter opiniões pessoais sobre o conflito entre israelenses e palestinos e rejeitou a interpretação de que sua decisão de não expressá-las publicamente significaria indiferença. Também afirmou respeitar Macklemore por defender publicamente aquilo em que acredita.
Sheeran ressaltou que os fãs que compram ingressos para seus shows não esperam encontrar um debate político e argumentou que existem diferentes formas de buscar o objetivo de paz.
Até a divulgação das últimas manifestações, o cantor não havia respondido publicamente à saída coletiva dos demais artistas que participavam da turnê.
Javier Bardem pede boicote
Entre os artistas que se posicionaram contra a retirada de Macklemore está Javier Bardem.
O ator espanhol criticou a justificativa de que a turnê deveria permanecer neutra e despolitizada e chegou a convocar seus seguidores a boicotarem Ed Sheeran. Bardem compartilhou mensagens de solidariedade a Macklemore e à população palestina.
Outras personalidades, como a ativista Greta Thunberg e o ex-jogador de futebol americano Colin Kaepernick, também demonstraram apoio ao rapper.
Pink critica discurso, mas diz não defender demissão
A cantora Pink adotou posição diferente. Judia, ela compartilhou inicialmente uma publicação crítica às declarações de Macklemore.
Depois da repercussão, esclareceu que não estava pedindo que o rapper fosse retirado da turnê ou impedido de se manifestar. Pink afirmou, no entanto, que as declarações a assustaram e também provocaram medo em pessoas próximas a ela na comunidade judaica.
Críticos de Macklemore também retomaram um episódio de 2014, quando o rapper apareceu usando uma fantasia com nariz falso, barba e peruca que foi acusada de reproduzir estereótipos antissemitas. Na época, o artista se desculpou.
Dono do Gillette Stadium assume participação no veto
Robert Kraft, empresário bilionário e proprietário do New England Patriots e do Gillette Stadium, onde Sheeran tem apresentações programadas, confirmou sua participação na decisão de impedir a apresentação do rapper naquele local.
Kraft afirmou que o veto não ocorreu por Macklemore defender os palestinos, mas em razão do que classificou como um histórico mais amplo de retórica e imagens antissemitas. Segundo ele, é possível reconhecer o sofrimento de civis palestinos sem, em sua avaliação, minimizar preocupações da comunidade judaica ou a responsabilidade do Hamas.
Macklemore rejeita a acusação de antissemitismo e sustenta que críticas ao governo e às ações militares de Israel não devem ser equiparadas a ataques contra judeus.
Macklemore anuncia doação de US$ 1 milhão
Depois da saída da turnê, Macklemore anunciou que destinaria US$ 1 milhão, correspondente aos ganhos que teria com a série de shows, a organizações de ajuda humanitária aos palestinos.
O rapper também desafiou Robert Kraft a contribuir com iniciativas de assistência. Kraft posteriormente informou que faria uma doação de US$ 2 milhões para ajuda humanitária, afirmando que Ed Sheeran já havia lhe pedido anteriormente que participasse de uma contribuição desse valor.
Polêmica aumenta pressão sobre turnê
A crise deixou Sheeran sem os artistas de abertura originalmente previstos para as próximas apresentações e provocou pedidos de reembolso de parte do público. A “Loop Tour” tem retomada prevista nos Estados Unidos antes de seguir para outras etapas.
O episódio também ampliou um debate que já vinha atingindo a indústria cultural desde o início da guerra: até que ponto artistas, produtores e donos de espaços de espetáculos podem ou devem limitar manifestações políticas durante apresentações.
No caso da turnê de Sheeran, a controvérsia deixou de envolver apenas Macklemore. Com a retirada dos demais artistas, as declarações de celebridades e a reação de fãs, o episódio passou a colocar em discussão também a liberdade de expressão de músicos, o poder de promotores e proprietários de grandes estádios e a possibilidade de manter grandes eventos culturais efetivamente afastados de temas políticos.

