O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu nesta quarta-feira (16), no Palácio da Alvorada, um grupo de pastores evangélicos brasileiros e estrangeiros e defendeu que igrejas não sejam utilizadas como espaços para campanha eleitoral. Candidato à reeleição, Lula afirmou que respeita a fé individual e que prefere fazer política em comícios e espaços públicos, fora dos templos religiosos.
O encontro ocorreu a pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Participaram integrantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, além de representantes religiosos dos Estados Unidos e de Cuba.
Durante a conversa, Lula afirmou considerar a religião uma dimensão privada e “sagrada” da vida das pessoas e defendeu que os fiéis possam exercer suas crenças sem que os templos sejam transformados em espaços de disputa partidária.
Segundo o presidente, mesmo quando convidado, ele evita utilizar celebrações religiosas para fazer discursos eleitorais.
“Se eu quiser fazer política eu faço na rua, mas na igreja eu não faço”, afirmou Lula, acrescentando que adota a mesma postura tanto em igrejas evangélicas quanto católicas.
Lula diz que respeita escolha religiosa individual
O presidente afirmou que a relação de cada pessoa com a religião deve ser respeitada independentemente da denominação escolhida.
Segundo Lula, ninguém deveria precisar justificar sua fé a autoridades políticas ou a outras pessoas.
Durante o encontro, o petista também falou sobre símbolos utilizados historicamente por adversários para questionar sua relação com grupos religiosos.
Lula contou que, ao longo de sua trajetória política, já teve de responder a questionamentos sobre a cor vermelha do PT, a estrela do partido e até mesmo sua barba. Em tom descontraído, afirmou que costumava associar o vermelho ao sangue de Cristo e a barba à imagem tradicionalmente atribuída a Jesus.
Presidente fala sobre participação das mulheres nas igrejas
Outro tema abordado foi a presença feminina nas instituições religiosas.
Lula elogiou o espaço conquistado por mulheres em diferentes denominações evangélicas e mencionou a possibilidade de elas exercerem funções de liderança religiosa.
O presidente relacionou o tema à defesa de maior igualdade entre homens e mulheres em diferentes áreas da sociedade.
Política para idosos é anunciada durante encontro
Lula aproveitou a reunião para apresentar uma proposta que pretende desenvolver caso seja reeleito.
O presidente afirmou que pretende criar uma política nacional de cuidados voltada à população idosa, com atenção especial às pessoas que vivem sozinhas e àquelas que necessitam de acompanhamento em casa.
Segundo Lula, uma das preocupações é combater o isolamento social entre idosos e ampliar mecanismos para que pessoas doentes possam receber atendimento domiciliar.
O presidente indicou que pretende buscar a colaboração de organizações religiosas e comunitárias na execução de iniciativas voltadas ao cuidado dessa população.
Combate à fome também entra no discurso
Ao falar sobre as prioridades de seus governos, Lula voltou a citar o enfrentamento da fome e da desigualdade social.
O presidente destacou a retirada do Brasil do Mapa da Fome e afirmou considerar a desigualdade uma das questões centrais que orientam sua atuação política.
Durante o encontro, Lula associou políticas de transferência de renda, segurança alimentar e proteção social à necessidade de reduzir as diferenças econômicas existentes no País.
Lula fala sobre intervenção estrangeira nas eleições
A reunião também teve espaço para temas relacionados à política internacional e às eleições brasileiras.
Lula afirmou ter dito diretamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que não deveria interferir no processo eleitoral brasileiro.
Segundo o presidente, cabe exclusivamente aos brasileiros decidir o resultado das eleições e as urnas eletrônicas devem ser respeitadas.
“Não se meta nas eleições brasileiras, porque as eleições brasileiras são um problema do povo brasileiro”, declarou.
O presidente também voltou a defender a confiabilidade do sistema eletrônico de votação e criticou movimentos que contestaram resultados eleitorais sem apresentação de provas.
Tentativa de golpe também é mencionada
Ao falar sobre democracia, Lula relacionou a defesa das urnas aos processos judiciais envolvendo pessoas acusadas de atuar contra o resultado eleitoral e contra a ordem democrática.
O presidente afirmou que integrantes do grupo que anteriormente questionava a legitimidade das urnas passaram posteriormente a responder judicialmente por atos relacionados à tentativa de golpe de Estado.
As declarações foram feitas dentro de um discurso mais amplo em defesa das instituições democráticas e do respeito aos resultados eleitorais.
Encontro ocorre durante disputa pelo eleitorado evangélico
A aproximação com lideranças religiosas ocorre em um momento em que o voto evangélico ocupa espaço relevante na disputa presidencial.
Levantamento Quaest realizado entre 10 e 13 de setembro indicou vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula entre entrevistados evangélicos em uma simulação de segundo turno: 51% declararam preferência pelo senador e 28% pelo presidente. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas, tem margem de erro geral de dois pontos percentuais e foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03607/2026.
O dado ajuda a contextualizar a importância política do segmento, mas Lula procurou sustentar durante a reunião que sua aproximação com lideranças religiosas não deveria significar a utilização dos templos como palanque eleitoral.
A mensagem central apresentada pelo presidente foi justamente a defesa de uma separação entre a atividade político-partidária e o espaço de culto: a campanha, segundo ele, deve ocorrer nas ruas, enquanto as igrejas devem ser preservadas como locais destinados à fé.

