Brasileiros deportados pelos Estados Unidos foram enviados para países africanos com os quais não tinham vínculos e agora vivem sem saber quando poderão retornar ao Brasil. Os casos fazem parte de uma política adotada pelo governo de Donald Trump para transferir imigrantes para terceiros países, inclusive quando há possibilidade de deportação para a nação de origem.
Entre os brasileiros estão Paola Santos, de 21 anos, enviada para a Libéria, e Pietro Graza de Lima, de 57, levado para a Guiné Equatorial. Em relatos ao Fantástico, os dois afirmaram que não sabiam previamente que seriam enviados para a África e descreveram situações de medo, violência e incerteza durante o processo de deportação.
Paola, natural de Caratinga, em Minas Gerais, vivia havia cerca de cinco anos em Massachusetts e trabalhava com limpeza de obras. Ela contou que entrou de forma irregular nos Estados Unidos pela fronteira com o México, mas posteriormente obteve permissão para trabalhar no país.
Brasileira diz ter ficado algemada por 16 horas
Paola foi detida por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) quando estava a caminho do trabalho. Segundo seu relato, os agentes começaram a acompanhar o carro em que ela estava após uma parada em um posto de gasolina.
Ela afirmou ter apresentado seus documentos, mas havia divergência entre o endereço registrado em sua carteira de motorista e o que constava nos registros da imigração. Após a abordagem, acabou detida.
A brasileira permaneceu um ano e três meses sob custódia e passou por unidades prisionais em cinco estados norte-americanos antes de ser deportada.
Em agosto, Paola foi levada até um avião sem saber qual seria seu destino. Ela contou que passou cerca de 16 horas algemada pela cintura, mãos e pés durante o deslocamento.
Somente quando desembarcou e foi recebida por agentes de imigração é que descobriu estar na Libéria, país da costa oeste da África com o qual não possuía qualquer vínculo. Atualmente, ela está em Marshall, no litoral liberiano.
Outro brasileiro foi levado para a Guiné Equatorial
A situação de Pietro Graza de Lima foi diferente. O pernambucano, que vivia na Flórida, também foi colocado em um avião que inicialmente seguia para a Libéria.
Segundo Pietro, ele e outros deportados resistiram ao desembarque por medo de permanecer no país africano. O brasileiro relatou ter sofrido agressões durante a tentativa de retirá-lo da aeronave.
De acordo com seu relato, as autoridades liberianas acabaram não aceitando parte do grupo. Os deportados imaginaram que seriam levados novamente aos Estados Unidos, mas, cerca de três horas depois, o avião pousou em Malabo, na Guiné Equatorial.
Pietro afirmou que cerca de 20 policiais encapuzados e fortemente armados aguardavam o grupo no aeroporto.
Ele e outros imigrantes foram então encaminhados para um hotel determinado pelas autoridades locais. Relatos obtidos pela imprensa indicam que os deportados têm a liberdade de circulação restringida. O brasileiro está hospedado no Hotel Bamy, em Malabo.
Itamaraty não foi avisado previamente
O governo brasileiro não foi informado previamente de que Pietro seria deportado para a Guiné Equatorial. Segundo o Itamaraty, a informação sobre a presença do brasileiro no país africano chegou às autoridades brasileiras apenas em 25 de agosto.
Desde então, representantes diplomáticos brasileiros tentam prestar assistência consular. Autoridades da Guiné Equatorial informaram ao Brasil que Pietro estava em boas condições de saúde e hospedado em local definido pelo governo do país.
A situação, no entanto, permanece incerta. Os deportados não sabem por quanto tempo permanecerão no território africano nem quando poderão seguir para seus países de origem.
Política de Trump amplia deportações para terceiros países
Os casos estão inseridos em uma estratégia mais ampla do governo Donald Trump para acelerar a retirada de imigrantes dos Estados Unidos.
Washington passou a negociar com outros governos o recebimento de estrangeiros deportados, mesmo quando essas pessoas não possuem nacionalidade, residência anterior ou outros vínculos com o país que as recebe.
A Libéria anunciou recentemente um acordo para receber até 1.200 deportados enviados pelos Estados Unidos durante o período de um ano. A Guiné Equatorial também passou a receber estrangeiros expulsos do território norte-americano.
Desde o ano passado, pelo menos seis voos de deportação partiram dos Estados Unidos para a Guiné Equatorial levando cidadãos de outros países. Ao menos 53 imigrantes teriam sido transferidos nesse esquema, segundo dados reunidos pelo projeto Third Country Deportation Watch citados pela imprensa.
O governo Trump já fechou acordos ou entendimentos relacionados a deportações para terceiros países com mais de 30 nações, muitas delas localizadas na África, América Latina e Caribe.
Brasileiros aguardam definição
A transferência para países africanos chama atenção porque os Estados Unidos realizam regularmente voos de deportação diretamente para o Brasil. No caso de Pietro, o ICE não havia explicado publicamente por que ele foi enviado para a Guiné Equatorial em vez de ser deportado para território brasileiro.
Paola e Pietro permanecem na África enquanto aguardam uma definição sobre seus destinos. Os dois afirmam não ter escolhido os países para onde foram enviados e relatam que só descobriram onde estavam durante ou após os respectivos processos de deportação.
A situação evidencia uma das consequências da nova política migratória norte-americana: estrangeiros retirados dos Estados Unidos podem acabar enviados para países com os quais não possuem qualquer ligação e permanecer por tempo indeterminado à espera de uma solução para retornar às suas nações de origem.

