O uso de bancos de perfis genéticos já possibilitou a identificação de 130 pessoas desaparecidas no Ceará. O trabalho é realizado pela Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), que compara amostras de DNA fornecidas por familiares com materiais de pessoas encontradas sem identificação.
O Estado participa da 4ª Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). A campanha busca ampliar o número de perfis genéticos disponíveis e aumentar as possibilidades de localização e identificação de desaparecidos.
No Ceará, entretanto, a coleta não fica restrita às mobilizações nacionais. O serviço funciona de maneira permanente em 11 unidades da Pefoce. Durante a campanha nacional, cerca de 17 atendimentos haviam sido realizados até a última sexta-feira (28).
Segundo a coordenadora de Análises Laboratoriais Forenses da Pefoce, Samyra Brasil, a coleta contínua ao longo do ano evita o acúmulo de famílias à espera do procedimento durante as campanhas específicas.
O resultado desse trabalho já colocou o Ceará em posição de destaque nacional. Conforme relatório técnico da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), de novembro de 2025, o Estado aparecia em primeiro lugar no País em número de identificações realizadas por meio desse mecanismo.
Como funciona a identificação pelo DNA
O procedimento é direcionado principalmente aos familiares de pessoas desaparecidas que ainda não forneceram material genético. A recomendação é que a coleta seja realizada, preferencialmente, em parentes de primeiro grau, como pai, mãe, filhos ou irmãos.
No caso dos irmãos, a orientação é coletar amostras do maior número possível de pessoas que tenham o mesmo pai e a mesma mãe. Quanto mais próximo for o grau de parentesco, mais robusta será a informação genética utilizada na comparação.
Também podem ser entregues objetos de uso pessoal do desaparecido que tenham potencial para preservar material genético. Escovas de dentes, aparelhos de barbear, dentes de leite e até cordão umbilical estão entre os itens que podem ser analisados pelos peritos.
A coleta realizada nos familiares é gratuita, rápida e indolor. O procedimento utiliza um swab bucal, uma pequena haste passada na parte interna da bochecha para recolher células. Não é necessário fazer coleta de sangue.
Perfis são comparados com bancos de todo o País
Depois de coletado, o material segue para o Núcleo de Perícia em DNA Forense. A amostra passa por etapas como triagem, extração do DNA, amplificação, genotipagem e leitura em sequenciadores genéticos.
Entre os equipamentos utilizados pela Pefoce está o analisador genético Spectrum, adquirido no fim de 2024. O aparelho atua na etapa final da análise e permite obter o perfil genético que será inserido no banco de dados.
Após o processamento, as informações são incluídas na Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos. O sistema realiza cruzamentos automatizados diariamente e permite comparar uma amostra coletada no Ceará com perfis armazenados em outros estados brasileiros.
Isso significa que o DNA de uma família cearense pode apresentar correspondência com uma pessoa encontrada em outra unidade da Federação.
Mesmo que nenhuma compatibilidade seja encontrada inicialmente, o perfil permanece no sistema. À medida que novas amostras são adicionadas, os cruzamentos continuam sendo realizados automaticamente.
Resultado positivo passa por nova análise
Uma possível correspondência apontada pelo sistema não encerra o processo de identificação. Quando há indicação de compatibilidade genética, os peritos fazem uma nova análise da amostra e realizam cálculos estatísticos para confirmar o resultado.
Outras informações também são consideradas, como características físicas, tatuagens e a data do desaparecimento.
Somente depois da confirmação é emitido o laudo pericial. A família é então procurada por uma equipe psicossocial da Pefoce, formada por psicólogos e assistentes sociais, que acompanha a comunicação da identificação.
O tempo necessário para que uma família obtenha uma resposta pode variar. Caso a amostra da pessoa desaparecida já esteja no banco quando o familiar fornece o DNA, a correspondência pode surgir rapidamente. Se ainda não houver material para comparação, a identificação pode levar meses ou ocorrer somente quando uma nova amostra for adicionada ao sistema.
Ceará registrou 1.359 desaparecimentos em sete meses
Entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 1.359 desaparecimentos no Ceará, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa uma média de aproximadamente seis casos por dia.
Apesar do volume, houve redução em relação aos anos anteriores. Na comparação com o mesmo período de 2025, a quantidade de registros caiu 7,43%. Em relação a 2024, a redução foi de 11,52%.
O Ceará também apresenta destaque no tempo de atuação para identificação de pessoas. Diagnóstico do Grupo de Trabalho sobre Informações Periciais, ligado ao Conselho Nacional de Dirigentes de Polícia Científica, aponta o Estado com o menor tempo de atuação nessa área, com média de até dez dias.
Esse prazo, porém, não significa que todas as famílias terão uma identificação em dez dias. O resultado depende da existência de material correspondente disponível para comparação.
Familiares podem fornecer DNA a qualquer momento
Não existe prazo máximo para que parentes de uma pessoa desaparecida procurem a Pefoce e forneçam material genético. A coleta pode ser realizada independentemente do tempo transcorrido desde o desaparecimento.
Para o atendimento, é necessário que exista um Boletim de Ocorrência relacionado ao caso. A orientação é registrar o desaparecimento assim que ele for percebido, sem necessidade de esperar 24 horas.
As primeiras horas são consideradas importantes para o trabalho de investigação e localização.
Além da atuação da Pefoce e das forças de segurança, o Ceará conta com o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid), do Ministério Público do Estado do Ceará. A iniciativa reúne informações de diferentes órgãos para auxiliar nas buscas e também oferece acolhimento psicossocial às famílias.

