O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará colocou Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB) frente a frente neste domingo (9), na Band Ceará, e teve a segurança pública como principal campo de confronto. Pressionado pelo adversário justamente em uma das áreas mais sensíveis da administração estadual, Elmano optou por não fugir do problema: reconheceu que ainda há desafios, apresentou resultados de sua gestão e utilizou o próprio histórico político de Ciro para responder às críticas.
O encontro foi o primeiro realizado após a definição das chapas para as eleições de 2026. Pedro Brito (Novo) também havia sido convidado, mas não participou por já ter compromissos políticos agendados. Durante o programa, Elmano e Ciro discutiram ainda saúde, turismo, infraestrutura, pobreza, educação e saneamento.
Elmano reage a ataque de Ciro sobre facções
A segurança abriu o confronto direto. Ciro adotou um discurso duro contra a atual política de enfrentamento ao crime organizado e chegou a classificar o Ceará como “quase um narcoestado”, defendendo mudanças na estratégia e maior investimento em inteligência e tecnologia.
Elmano respondeu lembrando que o avanço das organizações criminosas no Ceará não começou em seu governo. O petista afirmou que as primeiras células do Comando Vermelho chegaram ao Estado em 1993, período em que Ciro Gomes ocupava o Governo do Ceará.
A resposta permitiu ao governador inverter parte da ofensiva do adversário. Em vez de aceitar a premissa de que a criminalidade organizada seria consequência exclusiva das administrações recentes, Elmano trouxe o histórico do problema para o centro da discussão.
O governador também destacou medidas adotadas pela atual gestão, como ampliação do efetivo das forças de segurança e investimentos em inteligência.
A segurança voltaria ao debate no último bloco. Ciro questionou o avanço territorial das facções e cobrou uma autocrítica do governador. Elmano reconheceu que o problema continua grave, mas contrapôs a cobrança com resultados obtidos pelo Estado.
Segundo o governador, o Ceará apresenta redução de homicídios e roubos, além de ter realizado prisões de integrantes de organizações criminosas e bloqueado recursos financeiros desses grupos. Elmano afirmou ainda que cinco mil integrantes de facções foram presos.
Ao admitir que a situação ainda exige avanços, mas defender a continuidade e a intensificação da estratégia, Elmano evitou tratar a segurança como um problema resolvido e concentrou sua argumentação nos resultados alcançados.
Saúde coloca modelo de gestão em discussão
Na saúde, Elmano procurou apresentar realizações concretas da administração estadual. O governador destacou a interiorização dos atendimentos, a construção de hospitais e a ampliação das cirurgias realizadas no Ceará.
Ciro contestou o modelo, criticando a prioridade destinada a grandes equipamentos de saúde e apontando dificuldades no funcionamento da estrutura existente.
O embate mostrou duas visões diferentes. Enquanto Ciro direcionou suas intervenções principalmente para críticas ao funcionamento da rede, Elmano buscou associar sua candidatura à expansão dos serviços e dos investimentos realizados pelo Governo.
Governador rebate diagnóstico negativo sobre turismo
Outro confronto ocorreu quando Ciro afirmou que o turismo cearense atravessa forte retração e citou números negativos referentes ao primeiro semestre.
Elmano contestou a interpretação. Segundo ele, a comparação precisa considerar o crescimento registrado anteriormente e outros indicadores do setor.
O governador destacou a ampliação das rotas internacionais, os investimentos na promoção turística e o crescimento da chegada de visitantes estrangeiros. Segundo Elmano, o Ceará alcançou recorde histórico no número de turistas internacionais.
A estratégia voltou a se repetir: diante de uma leitura negativa apresentada pelo adversário, Elmano respondeu procurando contrapor outros indicadores e ações da administração estadual.
Infraestrutura expõe divergência sobre relação com Governo Federal
Na infraestrutura, Ciro citou sua participação histórica no projeto da Transnordestina e criticou o ritmo de intervenções estaduais. Também mencionou o Anel Viário de Fortaleza e afirmou que existem centenas de obras paralisadas.
Elmano respondeu relacionando parte dos atrasos à falta de recursos federais durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). O petista destacou que projetos foram retomados após a volta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência.
Com isso, o governador procurou reforçar politicamente uma das principais mensagens de sua campanha: a parceria entre os governos estadual e federal como instrumento para acelerar investimentos no Ceará.
Elmano contrapõe pobreza com programas sociais e geração de emprego
Os indicadores sociais também provocaram divergências. Ciro destacou a quantidade de cearenses vivendo abaixo da linha da pobreza e criticou a posição do Estado no ranking nacional de renda domiciliar per capita.
Elmano respondeu defendendo que o enfrentamento à pobreza precisa combinar proteção social com geração de renda.
O governador apresentou como exemplo o Ceará Sem Fome, programa que distribui refeições diariamente para pessoas em situação de vulnerabilidade, além de mencionar iniciativas de crédito e geração de oportunidades econômicas.
Mais uma vez, enquanto Ciro trabalhou com o diagnóstico dos problemas, Elmano procurou concentrar sua argumentação nas políticas que estão sendo executadas para enfrentá-los.
Educação vira disputa pelo legado cearense
A educação pública, área em que o Ceará acumula reconhecimento nacional, produziu um dos confrontos políticos mais simbólicos da noite.
Os dois candidatos reconheceram os avanços do Estado, mas divergiram sobre quem deve receber o crédito pela construção do modelo.
Ciro atribuiu parte importante da formulação da política educacional ao ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes (PSB), seu irmão, e argumentou que os resultados devem ser compreendidos como consequência de uma política de Estado.
Elmano apresentou uma linha histórica diferente. O governador associou os avanços a um processo iniciado durante a administração de Cid Gomes, posteriormente aprofundado nos governos de Camilo Santana, Izolda Cela e na atual gestão.
A resposta permitiu ao petista defender continuidade sem negar que a política educacional cearense foi construída ao longo de diferentes administrações.
Elmano aposta em entregas diante do discurso crítico de Ciro
O primeiro confronto eleitoral evidenciou estratégias bastante diferentes.
Ciro procurou assumir o papel de opositor, concentrando boa parte de suas intervenções em diagnósticos negativos sobre segurança, pobreza, turismo, saúde e infraestrutura. Elmano, por sua vez, buscou responder às críticas recorrendo a números, programas em execução, obras e resultados administrativos.
O momento mais favorável ao governador ocorreu justamente no assunto escolhido por Ciro para pressioná-lo: a segurança. Elmano conseguiu deslocar o debate para o histórico das facções no Estado, lembrou que o problema antecede sua administração e apresentou prisões, bloqueio de recursos criminosos e redução de indicadores como contraponto.
Ao mesmo tempo, evitou afirmar que a crise está superada. Reconheceu que a segurança permanece como um dos maiores problemas enfrentados não apenas pelo Ceará, mas pelo País, e defendeu o aprofundamento das ações já implementadas.
No saldo político do confronto, Elmano conseguiu sustentar uma postura de gestor, defender o legado dos governos que o antecederam e apresentar realizações da administração atual, enquanto Ciro concentrou sua estratégia na contestação desse modelo.
Para um governador que entrou no debate tendo de defender quase quatro anos de administração, sair do confronto sem fugir dos temas mais difíceis e ainda conseguir devolver algumas das principais críticas ao adversário pode ser considerado o principal ganho da noite.
Foto: Leandro Regueira/Divulgação/TV Band.

