O tradicional ofício das rendeiras de bilro passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural cearense. O reconhecimento foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Estado do Ceará (Coepa), durante reunião extraordinária realizada nesta quarta-feira (3).
Com a decisão, o saber-fazer da renda de bilro torna-se o primeiro bem inscrito no Livro dos Saberes do Patrimônio Imaterial do Ceará, destinado à preservação de conhecimentos e técnicas transmitidos entre gerações e profundamente enraizados na cultura das comunidades.
A aprovação foi baseada em um extenso dossiê elaborado pela equipe técnica da Célula de Patrimônio Cultural Imaterial da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult). Durante a reunião, também foi exibido um dos documentários produzidos em parceria com o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS Ceará), registrando a trajetória de mestras rendeiras reconhecidas como Tesouros Vivos da Cultura Cearense.
Segundo a secretária da Cultura do Ceará, Gecíola Fonseca, o reconhecimento é resultado de um processo construído em diálogo com as próprias detentoras do saber tradicional.
“Esta conquista protege o saber-fazer das rendeiras de bilro e garante sua documentação e preservação por meio do dossiê elaborado pelos técnicos da Secult. Todo o processo contou com a participação ativa das artesãs, que também contribuíram para a construção das estratégias de salvaguarda”, destacou.
Processo de reconhecimento
Além da Secult e do MIS Ceará, a Central de Artesanato do Ceará (CeArt) participou diretamente do processo, fornecendo informações sobre as artesãs cadastradas, apoiando a realização de entrevistas e colaborando na organização de debates sobre a preservação da atividade.
Um dos momentos mais importantes ocorreu durante o Seminário de Salvaguarda da Renda de Bilro, realizado em fevereiro deste ano no Centro de Design do Ceará – Kuya. O encontro reuniu rendeiras de diversas regiões do estado, além de pesquisadores, designers, gestores públicos e representantes de associações ligadas ao artesanato.
De acordo com a historiadora e analista cultural Cristina Holanda, da Coordenadoria de Patrimônio Cultural da Secult, o trabalho coletivo foi fundamental para consolidar o reconhecimento.
O dossiê final deverá receber nova diagramação e será disponibilizado futuramente no portal da Secretaria da Cultura.
Tradição transmitida entre gerações
A renda de bilro é uma das expressões artesanais mais tradicionais do Ceará. A técnica consiste na produção manual de rendas a partir do entrelaçamento de fios enrolados em pequenos pinos de madeira, conhecidos como bilros.
Mais do que uma atividade econômica, a prática representa um patrimônio cultural vivo, transmitido entre mães, filhas, avós e netas, preservando conhecimentos, identidades e modos de vida de diversas comunidades cearenses, especialmente nas regiões litorâneas.
O reconhecimento garante proteção institucional ao ofício e fortalece ações voltadas à sua valorização e continuidade.
O que é patrimônio imaterial
O patrimônio cultural imaterial é formado por saberes, ofícios, celebrações, técnicas, manifestações artísticas e tradições que são transmitidos de geração em geração e ajudam a construir a identidade cultural de um povo.
Além dos conhecimentos em si, também fazem parte desse patrimônio os objetos, instrumentos, espaços e práticas associados a essas manifestações.
Livros de registro do patrimônio cultural
O Código do Patrimônio Cultural do Ceará prevê cinco categorias para o registro dos bens culturais imateriais:
Livro dos Saberes
Destinado aos conhecimentos, técnicas e modos de fazer tradicionais.
Livro das Celebrações
Reúne festas, rituais e manifestações coletivas ligadas à religiosidade, ao trabalho e à convivência social.
Livro das Formas de Expressão
Abrange manifestações musicais, literárias, visuais, cênicas e lúdicas.
Livro dos Lugares
Inclui espaços de referência cultural, como feiras, mercados, praças e santuários.
Livro dos Tesouros Vivos da Cultura
Reconhece mestres, grupos e coletividades considerados referências da cultura cearense.
Patrimônio imaterial do Ceará
O ofício das rendeiras de bilro torna-se o segundo bem registrado como Patrimônio Imaterial do Estado pelo Coepa.
O primeiro reconhecimento ocorreu em 2018, com a inscrição da tradicional Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio de Barbalha no Livro das Celebrações.
A política de preservação do patrimônio imaterial no Ceará possui raízes que remontam à década de 1970, com a criação do Centro de Referência Cultural do Estado (Ceres), responsável por reunir um dos mais importantes acervos da cultura popular cearense.
Em 2022, a publicação do Código do Patrimônio Cultural do Ceará consolidou em uma única legislação os instrumentos de identificação, reconhecimento e proteção dos bens culturais materiais e imateriais do estado.
Com o reconhecimento do ofício das rendeiras de bilro, o Ceará dá mais um passo na valorização de um conhecimento tradicional que atravessa gerações e permanece como símbolo da identidade cultural cearense.

