O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não participar do último debate presidencial da TV Globo antes do primeiro turno e concederá, nesta quinta-feira (1º), uma entrevista ao Flow Podcast, em uma movimentação que coloca o candidato diante de uma audiência diferente a apenas três dias da votação.
A entrevista de Lula está marcada para 20h45, enquanto o debate da Globo começa às 21h30, logo após o Jornal Nacional. Com isso, parte das transmissões ocorrerá simultaneamente.
A escolha provocou divergências dentro da própria campanha e também entre analistas políticos. Para o cientista político Paulo Roberto de Souza, ouvido pelo Brasil de Fato, o formato mais longo e menos fragmentado do podcast pode abrir espaço para Lula falar diretamente com eleitores ainda indecisos e desenvolver temas com mais profundidade do que seria possível em um debate tradicional.
A avaliação, entretanto, é uma análise sobre estratégia eleitoral e não significa que a entrevista necessariamente produzirá ganho de votos.
Lula começa entrevista 45 minutos antes do debate
O Flow anunciou a participação de Lula para as 20h45 desta quinta-feira.
O debate presidencial da Globo começa às 21h30, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com mediação do jornalista César Tralli.
Estão confirmados no encontro:
- Flávio Bolsonaro (PL);
- Ronaldo Caiado (PSD);
- Augusto Cury (Avante);
- Romeu Zema (Novo).
A campanha de Lula comunicou oficialmente à Globo que o presidente não compareceria.
Com isso, os eleitores terão, durante parte da noite, duas transmissões políticas acontecendo paralelamente: a conversa de Lula no Flow e o confronto entre os demais candidatos na televisão.
Decisão dividiu integrantes da campanha
A ausência de Lula no debate não foi uma decisão consensual dentro do PT.
Segundo informações publicadas pelo Brasil de Fato com base no ICL Notícias, dirigentes e integrantes da campanha, entre eles o presidente nacional do partido, Edinho Silva, e o marqueteiro Sidônio Palmeira, consideravam que a presença no debate poderia ser positiva.
Lula, no entanto, optou pela entrevista.
A estratégia permite ao presidente participar de um formato no qual há mais tempo para desenvolver respostas, sem a dinâmica de perguntas, réplicas e tréplicas que caracteriza os debates eleitorais.
Cientista político vê possibilidade de diálogo com indecisos
Paulo Roberto de Souza avalia que a participação no Flow pode permitir à campanha atingir justamente um grupo disputado nos últimos dias: os eleitores que ainda não consolidaram o voto.
Na análise apresentada ao Brasil de Fato, o podcast oferece um ambiente mais controlado e com maior tempo de exposição para cada assunto.
Esse formato também permite que trechos da entrevista sejam transformados posteriormente em vídeos curtos para circulação em plataformas como Instagram, TikTok, X e YouTube.
Souza ressalta, porém, que inicialmente considerava positiva uma participação de Lula no debate da Globo. Para ele, o cenário do encontro televisivo também poderia oferecer oportunidades ao presidente.
A escolha, portanto, representa uma aposta estratégica diferente, e seus efeitos sobre o eleitorado não podem ser determinados antecipadamente.
Formato dos debates é criticado por favorecer confronto
Um dos argumentos apresentados pelo cientista político envolve a própria estrutura dos debates eleitorais.
Segundo Souza, o modelo brasileiro oferece pouco tempo para responder a determinadas acusações e verificar informações durante o programa.
Nesse ambiente, afirma, declarações polêmicas ou confrontos pessoais podem gerar rapidamente cortes para as redes sociais, muitas vezes ganhando mais repercussão do que as discussões programáticas.
A entrevista em um podcast reduz parte dessa dinâmica porque permite respostas mais longas e uma conversa menos baseada em confrontos diretos entre candidatos.
Isso não significa, entretanto, que o formato seja necessariamente mais favorável eleitoralmente. Debates televisivos também oferecem audiência ampla e permitem confronto direto entre projetos e acusações.
Flow se tornou espaço relevante para candidatos
O Flow Podcast já teve participação relevante em outras campanhas presidenciais.
Em 2022, Lula esteve no programa durante a disputa presidencial. Jair Bolsonaro também participou do podcast naquele ano.
Desde então, podcasts e programas transmitidos pela internet ganharam espaço crescente nas estratégias de comunicação eleitoral.
Além da audiência ao vivo, esses programas produzem grande quantidade de conteúdo que pode continuar circulando durante horas ou dias após a entrevista.
É justamente essa capacidade de multiplicação dos conteúdos nas redes que torna o formato atraente para campanhas políticas.
Outro analista diz que escolha não significa necessariamente prejuízo
A avaliação sobre a decisão de Lula não é unânime.
Em análise no UOL News, Alexandre Borges afirmou que a participação no Flow não representa necessariamente um prejuízo eleitoral para Lula.
Entre os fatores citados estão o alcance digital do programa, o tempo disponível para desenvolver argumentos e a possibilidade de trechos da entrevista continuarem circulando posteriormente nas redes sociais.
Ao mesmo tempo, a ausência do presidente abre espaço para que seus adversários façam críticas sem que ele esteja presente para responder diretamente.
Esse é um dos principais riscos associados à estratégia.
Flávio poderá direcionar ataques a Lula durante debate
A ausência de Lula não significa que o presidente ficará fora da pauta do debate da Globo.
Analistas ouvidos pela imprensa apontam que Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula nas pesquisas nacionais, poderá utilizar parte de suas intervenções para criticar o presidente mesmo sem a presença dele.
A campanha de Flávio também poderá explorar a própria ausência como argumento político.
Lula, por outro lado, terá no Flow um espaço próprio para apresentar sua versão sobre questões de governo, campanha e ataques recebidos durante a disputa.
As duas estratégias acontecerão praticamente ao mesmo tempo.
Debate terá quatro blocos
O último encontro promovido pela Globo será dividido em quatro blocos de perguntas e respostas, além das considerações finais.
Dois blocos terão temas livres e outros dois trabalharão com assuntos previamente definidos.
O cenário terá um mapa do Brasil para permitir a discussão de questões regionais, entre elas:
- segurança nas fronteiras;
- combate ao crime organizado;
- preservação da Amazônia;
- infraestrutura;
- exportações;
- desenvolvimento regional.
Os candidatos poderão fazer perguntas diretamente uns aos outros.
Quem formula a pergunta terá tempo destinado à questão e à réplica, enquanto o candidato escolhido para responder terá espaço para resposta e tréplica.
Renan Santos fica fora do debate
O candidato Renan Santos (Missão) não participará do encontro.
A Globo estabeleceu critérios de representatividade partidária para definir os convidados. A participação de Romeu Zema foi garantida após decisão do Tribunal Superior Eleitoral.
Renan tentou judicialmente participar do programa, mas não obteve decisão que lhe garantisse presença no encontro até a definição da lista.
A exclusão também foi comentada pelo cientista político ouvido pelo Brasil de Fato, especialmente porque Renan vinha intensificando as críticas a Flávio Bolsonaro durante a reta final.
Eleitores indecisos são alvo das campanhas
A proximidade da votação torna os eleitores que ainda não escolheram definitivamente um candidato um dos grupos mais disputados.
Na última Quaest divulgada antes desta quinta-feira, Lula aparecia com 39% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 34%.
Os demais candidatos apareciam em patamares menores, enquanto outra parcela do eleitorado declarava voto branco, nulo ou ainda não havia definido sua escolha.
Pesquisa eleitoral é um retrato do período em que as entrevistas são realizadas e não uma previsão do resultado das urnas.
Segundo turno aparece mais apertado nas pesquisas
Embora Lula registre vantagem numérica no cenário de primeiro turno da Quaest, a simulação de eventual segundo turno entre ele e Flávio Bolsonaro mostrava os dois com 42%.
Esse cenário de maior equilíbrio ajuda a explicar a disputa intensa por eleitores moderados e indecisos nos últimos dias.
Campanhas de diferentes candidaturas têm buscado ampliar a comunicação para além de seus públicos mais identificados ideologicamente.
Podcasts oferecem exposição diferente da televisão
A decisão de Lula também evidencia uma transformação na comunicação eleitoral.
O debate televisivo tradicional privilegia:
- confronto direto;
- respostas curtas;
- réplicas e tréplicas;
- interação entre candidatos.
Já uma entrevista longa em podcast oferece:
- maior tempo para cada resposta;
- possibilidade de explicar propostas;
- ambiente com menos interrupções;
- grande quantidade de material para circulação posterior nas redes.
As duas formas de comunicação alcançam públicos diferentes e produzem efeitos distintos.
Não há, entretanto, como determinar previamente qual formato terá maior influência sobre a decisão dos eleitores.
Lula já havia evitado outro debate
A ausência desta quinta-feira não é inédita na campanha de 2026.
Lula também optou por não participar de outro debate no primeiro turno e, naquela ocasião, escolheu conceder uma entrevista em outro veículo.
A campanha tem priorizado atos públicos, entrevistas e aparições em formatos nos quais o presidente dispõe de maior tempo para apresentar suas mensagens.
Os adversários criticam a estratégia e argumentam que candidatos à Presidência deveriam participar dos confrontos diretos.
Aliados de Lula, por outro lado, avaliam que determinados debates oferecem pouco espaço para discussão aprofundada e maior possibilidade de confronto pessoal.
Entrevista e debate disputam atenção na reta final
A quinta-feira marca um dos últimos grandes momentos de exposição nacional dos candidatos antes do primeiro turno de domingo, 4 de outubro.
De um lado, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema estarão frente a frente na Globo.
Do outro, Lula estará sozinho diante dos apresentadores do Flow, em uma entrevista que começa 45 minutos antes do debate.
A avaliação de que o podcast pode ajudar Lula entre os indecisos é uma hipótese apresentada por analistas, baseada principalmente na possibilidade de uma conversa mais longa e na capacidade de distribuição do conteúdo nas redes.
Ao mesmo tempo, a ausência no debate permitirá que os adversários confrontem seu governo e sua candidatura sem uma resposta direta dentro do programa.
A estratégia escolhida por Lula, portanto, troca o confronto simultâneo com os adversários por um espaço próprio de comunicação, justamente na última quinta-feira antes da votação.

