A ameaça de novas tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos dominou parte da agenda brasileira na cúpula do G7, realizada nesta semana na França. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalha para reabrir canais de negociação com a administração de Donald Trump e evitar a entrada em vigor de medidas que podem elevar significativamente a taxação sobre produtos brasileiros.
Nos bastidores da diplomacia brasileira, a avaliação é de que a nova ofensiva comercial possui forte componente político e vai além das justificativas econômicas apresentadas oficialmente por Washington.
A expectativa do governo brasileiro era aproveitar a presença simultânea dos dois presidentes na reunião do G7 para criar condições para uma aproximação. Apesar de ambos terem participado da foto oficial do encontro, não houve registro de uma conversa entre Lula e Trump durante a abertura da cúpula.
Diplomatas brasileiros consideram que uma eventual reunião bilateral poderia contribuir para destravar as negociações e reduzir a tensão criada após o anúncio das novas tarifas.
Nova rodada de tarifas
A disputa comercial ganhou força após o governo norte-americano propor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, alegando a existência de práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
Posteriormente, a Casa Branca também incluiu o Brasil em uma lista de países que, segundo Washington, não adotariam medidas suficientes para impedir a circulação de produtos associados ao trabalho forçado. A medida abriu espaço para uma sobretaxa adicional de 12,5%.
Na prática, a taxação total poderia alcançar 37,5% para determinados produtos brasileiros.
Apesar da gravidade do anúncio, integrantes do governo destacam que cerca de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos permanecem protegidas por uma ampla lista de exceções divulgada pelas autoridades americanas.
Tarifa como instrumento político
Especialistas avaliam que a estratégia adotada por Trump segue um padrão observado desde seu primeiro mandato.
Em diferentes momentos, o presidente norte-americano utilizou tarifas comerciais como instrumento de pressão diplomática para obter concessões em negociações bilaterais.
A prática já foi aplicada contra países como China, Canadá, México, Índia e integrantes da União Europeia.
Além de questões estritamente comerciais, o governo americano tem utilizado argumentos relacionados à segurança nacional, imigração, combate ao narcotráfico, propriedade intelectual, tecnologia e até sistemas de pagamento digital para justificar medidas tarifárias.
Para analistas de relações internacionais, a política comercial de Trump busca ampliar a capacidade de barganha dos Estados Unidos e fortalecer setores da economia americana considerados estratégicos.
Impacto econômico tende a ser limitado
Apesar do clima de preocupação, parte do mercado financeiro avalia que os impactos econômicos imediatos para o Brasil tendem a ser moderados.
Isso porque a lista de produtos isentos continua abrangendo uma parcela significativa das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
Ainda assim, setores exportadores acompanham as negociações com cautela diante da possibilidade de ampliação das restrições comerciais.
Próximos passos
O governo brasileiro pretende continuar as negociações diplomáticas antes da conclusão do processo administrativo conduzido pelos Estados Unidos.
Pelas regras americanas, as propostas ainda passarão por consultas públicas e análises técnicas antes de uma decisão definitiva.
Lula já sinalizou que pretende manter o diálogo com Washington, mas afirmou que o Brasil não aceitará medidas que considere desrespeitosas à soberania nacional.
Enquanto busca reduzir a tensão com os Estados Unidos, o governo também aproveita a participação no G7 para aprofundar relações com parceiros estratégicos da Europa e fortalecer a agenda comercial brasileira junto à União Europeia.
Nos bastidores do Itamaraty, a avaliação é que o desfecho das negociações poderá influenciar não apenas o comércio bilateral, mas também o posicionamento do Brasil diante do novo cenário de disputas econômicas globais.

