A saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, dois dias depois da derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), provocou surpresa, irritação e preocupação entre integrantes do próprio campo político do senador.
Aliados próximos afirmaram reservadamente que não foram informados sobre o plano e disseram não compreender a decisão. Um deles classificou a atitude como “inaceitável”.
A maior preocupação é política: Flávio havia anunciado que, mesmo depois de perder a eleição presidencial, permaneceria no Brasil para assumir a liderança da oposição ao quarto governo Lula e coordenar deputados e senadores no Congresso Nacional.
Com sua saída do País, integrantes do grupo passaram a questionar quem comandará a reorganização da direita.
Um aliado resumiu a situação dizendo que a sensação é de que “o barco fica sem capitão”.
Saída foi confirmada pela Argentina
Quando as primeiras manifestações de aliados vieram a público, ainda existiam dúvidas sobre o paradeiro de Flávio.
A situação mudou na madrugada desta quarta-feira (28).
A Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou oficialmente que Flávio, a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as filhas Carolina e Luiza entraram no país às 22h50 de terça-feira (27).
A família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina.
Quarenta minutos depois, às 23h30, embarcou em um voo privado da Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, no Equador.
QUADRO — ROTA CONFIRMADA
22h50: Flávio e a família entram na Argentina por Puerto Iguazú
23h30: embarcam em avião privado
Destino informado: Guayaquil, Equador
Passageiros: Flávio, a mulher e as duas filhas
Aliados dizem ter sido pegos de surpresa
Parte do núcleo político que participou da campanha presidencial afirma ter descoberto a saída de Flávio pela imprensa.
Integrantes do grupo relatam que haviam conversado com o senador poucas horas antes sem receber qualquer indicação de que ele pretendia deixar o Brasil.
Na segunda-feira (26), Flávio participou de uma reunião com aliados e advogados.
Segundo relatos, o grupo chegou a aconselhá-lo explicitamente a não sair do País.
A avaliação dos integrantes mais moderados era de que Flávio deveria permanecer no Brasil, organizar a oposição e enfrentar judicialmente as investigações das quais é alvo.
No dia seguinte, ele deixou o território brasileiro.
‘Inaceitável’, diz aliado
A CNN ouviu integrantes do entorno político de Flávio que demonstraram forte incômodo com a decisão.
Um deles classificou a saída como “inaceitável”.
O temor é que a atitude comprometa o processo de reorganização da oposição depois da derrota eleitoral.
QUADRO — REAÇÃO DOS ALIADOS
Entre os sentimentos relatados estão:
• surpresa;
• insatisfação;
• preocupação com a liderança da oposição;
• temor de desgaste da família Bolsonaro;
• incerteza sobre a reorganização do grupo no Congresso.
‘O barco fica sem capitão’
Outra frase de um aliado sintetizou a preocupação política provocada pelo episódio.
“A sensação é que, nesse momento, o barco fica sem capitão”, afirmou um interlocutor próximo ao senador.
A declaração está diretamente relacionada ao papel que Flávio havia prometido exercer depois da eleição.
Apesar da derrota para Lula, o senador afirmara que pretendia liderar a oposição e organizar uma frente parlamentar contra o novo governo.
Sua ausência do País colocou esse projeto em dúvida.
Flávio havia prometido comandar oposição a Lula
Depois do segundo turno, Flávio afirmou que o resultado eleitoral não encerraria sua atuação política.
O senador sinalizou que reuniria deputados, senadores, governadores e lideranças conservadoras para construir uma oposição organizada ao quarto mandato de Lula.
Também pretendia manter protagonismo nacional depois de deixar o Senado, em fevereiro de 2027.
A decisão de sair do País aconteceu antes que essa articulação avançasse.
QUADRO — O QUE FLÁVIO HAVIA PROMETIDO
Após perder a eleição, Flávio dizia que pretendia:
• liderar a oposição;
• reunir parlamentares de direita;
• coordenar a atuação contra o governo Lula;
• manter protagonismo político nacional.
Aliados tentam se descolar da decisão
Integrantes do núcleo duro da campanha também começaram a deixar claro que não participaram do planejamento da viagem.
Cinco pessoas próximas ao senador ouvidas pela imprensa afirmaram que não tinham conhecimento prévio do plano.
Algumas disseram que a hipótese parecia improvável porque, apenas um dia antes, Flávio havia divulgado um vídeo garantindo que não pretendia deixar o Brasil.
O esforço para se desvincular da decisão também ocorre porque Flávio estava submetido a uma ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que o proibia de sair do País.
Senador havia dito que nunca pensou em sair
Na segunda-feira, depois de ser intimado pela Polícia Federal, Flávio afirmou publicamente que nunca havia pensado em deixar o Brasil.
Ele também disse que entregaria seus passaportes e contestaria judicialmente as medidas impostas pelo STF.
O prazo para entrega terminou às 11h de terça-feira.
Os documentos não foram apresentados.
Posteriormente, a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiro comum e diplomático do senador.
Horas depois, Flávio cruzou a fronteira com a Argentina.
QUADRO — CONTRASTE
Segunda-feira: Flávio afirma que não pretende sair do Brasil e diz que entregará os passaportes.
Terça-feira, 11h: prazo termina sem entrega dos documentos.
Terça-feira, 22h50: Flávio entra na Argentina.
23h30: embarca em voo privado para o Equador.
Aliados já haviam aconselhado Flávio a ficar
A saída contrariou também um conselho dado por integrantes de sua própria campanha.
Na reunião de segunda-feira, membros considerados moderados defenderam que ele permanecesse no País mesmo diante da possibilidade de prisão.
A avaliação era que uma eventual medida judicial contra Flávio deveria ser enfrentada institucionalmente e poderia até produzir repercussão internacional negativa para o governo Lula.
Flávio optou por outro caminho.
Decisão pode acelerar disputa pela liderança da direita
A ausência do senador também abriu uma discussão imediata sobre quem passará a liderar a oposição.
Antes mesmo da eleição, diferentes lideranças de direita já disputavam espaço para os próximos ciclos eleitorais.
Com Flávio fora do País, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, passou a ser citado por aliados como um dos nomes com maior capacidade de assumir protagonismo nacional.
A disputa, porém, ainda está aberta e envolve diferentes setores do PL e de partidos aliados.
A saída de Flávio não significa automaticamente que outro nome assumirá a liderança do grupo, mas altera o cenário inicialmente desenhado depois da eleição.
Derrota para Lula já provocava reorganização
A discussão começou ainda no domingo (25), quando Lula confirmou a virada sobre Flávio no segundo turno.
O presidente foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário.
Flávio havia vencido o primeiro turno, mas perdeu mais de seis pontos percentuais na diferença entre os dois candidatos durante as três semanas seguintes.
Lula conquistou mais de 10 milhões de votos adicionais e garantiu o quarto mandato presidencial.
QUADRO — RESULTADO
Lula: 51,79%
Flávio Bolsonaro: 48,21%
Lula foi reeleito depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário.
Flávio é investigado em dois inquéritos
O senador também enfrenta investigações conduzidas pela Polícia Federal.
Uma delas apura suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras relacionadas ao advogado Willer Tomaz e ao setor de apostas.
Outro inquérito examina o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que recebeu recursos ligados ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Flávio nega irregularidades nos dois casos.
A decisão de Alexandre de Moraes que determinou a retenção dos passaportes ocorreu no contexto dessas investigações.
PF já apontava risco de saída
Antes mesmo da viagem, a Polícia Federal havia informado ao STF que enxergava “risco concreto” de Flávio deixar o Brasil.
Entre os elementos citados estavam a presença de familiares e aliados no exterior, a disponibilidade de recursos financeiros e declarações públicas de Eduardo Bolsonaro sugerindo que o irmão deixasse o País se fosse derrotado.
Moraes acolheu os argumentos e determinou as medidas cautelares.
A saída posteriormente confirmada pela Argentina passou a ser um novo elemento no processo.
Situação jurídica ainda depende do STF
Apesar do descumprimento da proibição de deixar o País, Flávio não deve ser automaticamente descrito como foragido da Justiça enquanto não existir mandado de prisão contra ele.
O STF poderá avaliar se a saída justifica novas medidas.
Parlamentares já apresentaram pedidos de prisão preventiva e de inclusão do senador em mecanismos internacionais de localização, mas qualquer medida depende de decisão judicial.
Saída fragiliza plano político traçado após eleição
No campo político, porém, as consequências começaram antes de qualquer nova decisão do Supremo.
Flávio havia saído da eleição como candidato derrotado, mas ainda com quase metade dos votos válidos do País e com a intenção declarada de transformar esse capital eleitoral em liderança da oposição.
A viagem inesperada interrompeu esse movimento.
Aliados que deveriam participar da reorganização afirmam que não foram consultados e demonstram publicamente incômodo.
Com Lula reeleito e preparando o quarto mandato, a oposição entra agora em uma nova disputa interna para definir quem falará em nome do grupo e quem assumirá a articulação que Flávio havia prometido comandar.
A frase de um dos próprios aliados resume a incerteza instalada depois da saída: “O barco fica sem capitão.”

