Aos 20 anos, o cearense Moisés Rocha, natural de Itapajé, vive uma experiência acadêmica que começou a ser construída ainda nos tempos da escola pública. Estudante de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV), ele está desde agosto nos Estados Unidos, onde participa de um intercâmbio na Universidade de Illinois com bolsa que cobre cerca de dois terços dos custos da experiência.
Moisés estudou na Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, em Itapajé, instituição que aparece entre as escolas públicas cearenses de melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025. Foi nesse período que começou a construir um currículo marcado por bons resultados acadêmicos e participação em olimpíadas científicas.
O jovem deve permanecer nos Estados Unidos até dezembro, com possibilidade de estender a experiência até junho do próximo ano. As disciplinas cursadas durante o intercâmbio poderão ser aproveitadas em sua graduação no Brasil.
Medalhas em matemática abriram caminho
Durante o ensino médio, Moisés conquistou por dois anos consecutivos medalhas de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).
O desempenho acadêmico também possibilitou sua participação em um projeto do Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC), da FGV, voltado à identificação e preparação de estudantes de alto desempenho oriundos da rede pública.
O programa seleciona jovens de diferentes regiões do País, especialmente aqueles com destaque acadêmico e participação em competições científicas, e oferece preparação para que possam concorrer a vagas na FGV.
Foi por esse caminho que Moisés chegou ao Rio de Janeiro.
Bolsa integral permitiu estudar Direito na FGV
Após ser aprovado no vestibular, o cearense conquistou gratuidade integral no curso de Direito da FGV, além de auxílio financeiro para custear sua permanência no Rio de Janeiro.
Segundo o estudante, considerando mensalidades e auxílio ao longo dos cinco anos de graduação, o benefício pode chegar a aproximadamente R$ 600 mil.
A oportunidade representou uma transformação importante para uma família que, até então, tinha pouca experiência fora do Ceará.
Moisés deixou Itapajé aos 18 anos, em janeiro de 2024. Até aquele momento, nunca havia saído do Estado.
Primeiro da família a deixar o Ceará para estudar
A mudança para o Rio de Janeiro também representou uma ruptura com a realidade familiar.
Segundo Moisés, seus pais nunca tinham sequer viajado para fora do Nordeste antes de visitá-lo na capital fluminense. A decisão de aceitar a vaga na FGV exigiu insistência do jovem diante da preocupação da família com a distância.
Ele conta que decidiu não deixar passar uma oportunidade que poderia transformar sua trajetória e que a despedida foi um momento particularmente emocionante para o pai.
A experiência no Rio também preparou o estudante para uma segunda mudança ainda maior: morar temporariamente nos Estados Unidos e estudar integralmente em inglês.
Trajetória do pai virou inspiração
Uma das principais referências de Moisés é o próprio pai.
Criado em uma família humilde no sertão de Itapajé, ele perdeu o pai aos sete anos e deixou os estudos ainda na antiga sexta série.
Já adulto, decidiu voltar à sala de aula por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), concluiu os estudos, ingressou em Direito e, aos 50 anos, conseguiu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Para Moisés, a trajetória ajudou a fortalecer a percepção de que também poderia buscar objetivos acadêmicos que pareciam distantes de sua realidade.
Intercâmbio surgiu durante a graduação
Já na FGV, o estudante começou a planejar uma experiência internacional.
A instituição mantém acordos com universidades estrangeiras e permite que alunos participem de processos seletivos para intercâmbio a partir do sexto período.
Moisés passou pela seleção interna e conseguiu a vaga na Universidade de Illinois. A parceria entre as instituições ajudou a reduzir significativamente os custos: a bolsa cobre aproximadamente dois terços do valor total da experiência.
O restante é custeado com uma reserva que o estudante e os pais começaram a formar antecipadamente.
Nos Estados Unidos, ele também pode trabalhar em atividades dentro do próprio campus para complementar a renda.
Planejamento começou anos antes
A viagem não aconteceu de forma improvisada.
Moisés conta que já planejava fazer intercâmbio havia alguns anos e, por isso, começou a guardar dinheiro em dólar. Os pais também fizeram uma reserva financeira.
Mesmo com a bolsa, aproximadamente um terço das despesas permanece sob responsabilidade do estudante e da família.
A experiência mostra também como bolsas acadêmicas podem não significar necessariamente cobertura integral de alimentação, moradia, transporte e demais gastos associados à permanência no exterior.
Universidade tem ligação com área que estudante pretende seguir
Moisés está no sexto semestre de Direito e pretende seguir profissionalmente nas áreas tributária e empresarial.
A escolha da Universidade de Illinois levou em consideração justamente a proximidade entre Direito e Economia presente na formação oferecida pela instituição americana.
Durante a estadia, ele cursa disciplinas que poderão ser reconhecidas posteriormente pela FGV, evitando atraso na graduação.
Inglês foi aprendido durante a pandemia
Outro elemento importante da trajetória foi o aprendizado do idioma.
Moisés afirma ter aprendido inglês por conta própria durante a pandemia. Agora, utiliza diariamente o idioma para acompanhar aulas e se comunicar em um ambiente acadêmico formado majoritariamente por estudantes norte-americanos.
Segundo ele, a facilidade de fazer amizades e a disposição para se expor a novas situações ajudaram tanto na adaptação ao Rio de Janeiro quanto nos Estados Unidos.
A mudança é significativa para quem cresceu em Itapajé, município com menos de 50 mil habitantes, e posteriormente passou a viver no Rio de Janeiro e agora no exterior.
Sonho inicial era Harvard
O estudante conta que estabeleceu objetivos altos desde o início.
Um deles era conseguir um intercâmbio em Harvard. A vaga não veio, mas ele afirma considerar a oportunidade na Universidade de Illinois uma conquista importante dentro do mesmo projeto de buscar formação acadêmica internacional.
Para Moisés, estabelecer metas ambiciosas foi uma estratégia para ampliar as possibilidades disponíveis.
A experiência nos Estados Unidos segue até dezembro, mas a permanência poderá ser renovada até junho de 2027.
Programa busca talentos da escola pública
O caminho até a FGV começou pelo programa Seleção de Talentos, desenvolvido pelo CDMC.
Criada em 2017, a iniciativa busca estudantes de escolas públicas de diferentes regiões do País com desempenho acadêmico destacado, inclusive medalhistas de olimpíadas científicas.
Os selecionados recebem apoio para disputar vagas em cursos oferecidos pela instituição, entre eles:
- Direito;
- Administração;
- Economia;
- Matemática Aplicada;
- Ciência de Dados e Inteligência Artificial;
- Ciências Sociais;
- Comunicação Digital.
No caso de Moisés, a aprovação veio para Direito.
Além da gratuidade integral, o auxílio mensal tornou possível a mudança para o Rio.
Escola de Itapajé está entre destaques da rede pública
A EEEP Adriano Nobre, onde Moisés concluiu o ensino médio, funciona no bairro Esmerino Gomes, em Itapajé.
A unidade oferece educação profissional em tempo integral desde 2009 e aparece há anos entre as escolas públicas com bons resultados em indicadores educacionais do Ceará.
No Ideb de 2025, foi apontada como a quarta melhor escola da rede pública cearense, segundo o levantamento citado pelo Diário do Nordeste.
Foi dentro desse ambiente que Moisés começou a participar de olimpíadas e a construir o desempenho acadêmico que posteriormente lhe permitiria concorrer ao programa da FGV.
Experiência começa a inspirar outros estudantes
Depois de um período afastado das redes sociais, Moisés voltou a utilizar o Instagram quando chegou aos Estados Unidos.
Passou a publicar registros da rotina universitária e percebeu que outros alunos, especialmente estudantes de sua antiga escola em Itapajé, começaram a acompanhar a experiência.
Alguns passaram a procurá-lo para dizer que sua trajetória mostrava possibilidades que antes pareciam distantes.
Para o jovem, esse retorno passou a ser mais uma dimensão da experiência: mostrar que estudantes vindos da escola pública e do Interior também podem disputar oportunidades acadêmicas de alto nível no Brasil e no exterior.
Da escola pública de Itapajé a Illinois
A trajetória de Moisés reúne etapas que foram se conectando: escola profissionalizante pública, medalhas na OBMEP, seleção para um programa voltado a jovens talentos, bolsa integral para cursar Direito no Rio de Janeiro e, agora, uma bolsa para estudar nos Estados Unidos.
Aos 20 anos, o estudante permanece na Universidade de Illinois até dezembro e ainda avalia a possibilidade de prolongar o intercâmbio por mais um semestre.
Depois, pretende retornar à FGV, concluir o curso de Direito e seguir carreira nas áreas tributária e empresarial.
Para o cearense, a experiência representa também uma ampliação de expectativas: uma trajetória iniciada em uma escola pública de Itapajé que passou pelo Rio de Janeiro e agora chegou a uma universidade norte-americana.

